Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Categoria: Livros (Página 1 de 7)

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

Os livros são caros?

Claro que a resposta só pode ser o irritante «depende». 

Depende da pessoa, da carteira, do livro… 

Mas Antonio Muñoz Molina tem muita razão quando diz isto no El País:

Con un libro que puede haberte costado menos que una cerveza tienes la posibilidad de horas extraordinarias de inmersión en un mundo que será todavía más deslumbrante y más saludable para ti.

É verdade que é difícil encontrar livros que custem menos que uma cerveja. Mas também é verdade que há por aí edições bem baratas de grandes autores. E podem não acreditar, mas um livro do Eça (por exemplo) pode ser bem melhor que qualquer bebida ou espectáculo ou jantar… Vão por mim.

(O artigo do El País é este: «La risa de Eça de Queiroz». Vale a pena ler o prazer com que o escritor espanhol reencontrou Eça num hotel de Lisboa…)

A EMEL nos caminhos da língua portuguesa 

Ontem andei num rodopio para conseguir ficar despachado e ir falar um pouco sobre a língua portuguesa. A entrevista era às 19. Ora, fiz contas e fui para o carro quando faltava menos de uma hora, para ir pôr a Zélia a casa e então ir para os estúdios. Era tempo de sobra — não fosse dar-se o caso de o carro estar horrivelmente engalanado com fitas amarelas e um autocolante ameaçador no vidro. Ora, eu tinha pago o estacionamento — mas naquele momento percebi que o senhor da EMEL fez bem em bloquear o carro. Porquê? Vejam bem o retorcido da situação: o meu carro está na oficina (por causa dum javali que encontrou o meu pára-choque há uns tempos). Estava a usar um carro emprestado. Estacionei e paguei o parquímetro usando a aplicação da EMEL para telefones. Só que… na verdade esqueci-me que na aplicação a matrícula registada é a do carro que está na oficina. Resultado? Bloqueio. Ora, isto é muito giro mas as entrevistas em directo não esperam — e lá ficou a minha mulher à espera da irmã para ter alguém com carta para receber os senhores e desbloquear o veículo. O que vale é que o funcionário da EMEL foi simpático (contaram-me elas) e até aconselhou a mandar uma explicação para que a EMEL devolvesse o dinheiro da multa. Afinal eu paguei o estacionamento… Porque conto tudo isto? Confesso: é só para poder dizer que, apesar de tudo, cheguei a tempo e horas e lá estive um bom bocado numa conversa bem animada na Prova Oral da Antena 3 para falarmos de dois livros sobre a língua. (Se quiserem, também podem recordar uma outra conversa, em que também falámos dos segredos da língua, já lá vão alguns meses.)

Como irritar alguém que está a ler?

(1) Perguntar «Qual é a história?». Isto é especialmente irritante quando estamos a ler um livro de ciência («A história d’O Gene Egoísta? Hum, havia um gene. Era um bocado egoísta.»). Mas mesmo no caso dum romance, perguntar «qual é a história» é mostrar que não percebemos assim tão bem o que é um romance. Talvez esteja a ser mau — mas, quando estou a ler, sossegado, e de repente tenho de resumir um livro inteiro, fico um pouco irritado, a olhar para o livro e a olhar para a pessoa que me fez tal pergunta. Estraga-me um bocado a leitura, confesso-vos. Pensem n’Os Maias. «Hum, há um rapaz que encontra uma mulher e depois descobre que…» Isto não são Os Maias! É uma má telenovela! Querem mesmo mostrar interesse no livro que alguém está a ler? Peçam, num intervalo da leitura, para pegar no livro. Folheiem, olhem para a capa, reparem nas badanas. Se o leitor quiser falar do livro, garanto-vos que vai aproveitar esse momento para conversar. Mas a verdade é que, muitas vezes, quem lê não quer falar do livro: quer ler, ponto final.

Como convencer alguém de que somos humanos?

O meu irmão Diogo andou a bater-me na cabeça para ler este livrinho: The Most Human Human, de Brian Christian. Porque tinha muito a ver comigo, falava de literatura e tradução e computação (sim, é possível juntar esses temas num só livro) e por outros motivos que já nem me lembro. Ainda resisti uns bons três minutos, mas lá fiz a encomenda. Recebi o pacote e abri com um sorriso parvo na cara, cheirando o livro como viciado que sou. E comecei a ler. O primeiro capítulo está a deixar-me em parafuso: o autor descreve como participou num Teste de Turing, em que seres humanos e computadores tentam convencer pessoas de que são humanos, conversando com elas à distância. Ora, Brian Christian participou como um dos humanos que tenta convencer outros seres humanos da sua própria humanidade — e se pensarem bem, é fascinante pensar no que deve dizer uma pessoa que está a competir com um computador para provar que é humano. Dizemos o quê? «Olha que eu sou de carne e osso!» O computador também sabe dizer isso: afinal, se um computador quiser mesmo passar por humano, mentir é essencial — e muito humano. Mas, enfim, isto já sou eu a delirar — porque ainda não li o livro e já tenho a mente a mil. O meu irmão tinha razão.

O homem mais feio da literatura portuguesa

Não é a única razão para ler O Que Fazem Mulheres: também temos um capítulo solto para ser enfiado onde quisermos (salvo seja) e cinco páginas que não são para ler — e lá estão bem fechadas, à espera que algum leitor mais curioso se dê ao trabalho de as destapar. Depois, temos choro e ranho e bacamartes, num romance cómico que brinca sem pudor com os livros que se levam demasiado a sério. Mas, sim, ao acabar de ler o livrinho, o que fica a zoar aos ouvidos é mesmo o génio de Camilo quando descreve, em duas páginas cruéis, um homem de estatura «essencialmente pançuda», pálpebras «túmidas e pilosas como a casca da fava», «bochechas gordurentas», «beiços bicolores», «refegos relaxados», dentes com «uma crusta de cárie» e dois cepos como pernas — estas são apenas algumas das entradas nesse catálogo estupendo da feiura do homem. Rimo-nos e depois paramos de rir, com medo que nos apareça tal figura à nossa frente. E João José Dias nem merecia tal sorte, mas ninguém escolhe o corpo com que nasce. Vá, vão lá conhecer o homem mais feio da literatura nacional. Agradeçam ao Camilo.

Quando Camilo gozou com a escrita de Facebook

Sei que há quem ande pelo mundo convencido que foi o Facebook que estragou o português escrito. Ora, meus caros, não é que a escrita amalucada já existia antes? Na imagem acima podem ver Camilo a gozar com a pontuação hiperbólica do homem mais feio da literatura portuguesa (falo-vos dele entretanto). Cá está um sinal de que sempre houve muita gente que escrevia às três pancadas — mesmo entre os poucos que sabiam escrever. Mas — dizia eu — se não caio nesse pessimismo ingénuo, também tenho as minhas irritações. E uma delas é mesmo esse uso excessivo dos pontos de exclamação. É pá, guardem-nos para as conversas privadas. E para quando são mesmo mesmo mesmo precisos (o que não será todos os dias). Bem, foi por isso que achei por bem dar o nome Ponto & Vírgula a este blogue. É que — se muitos abusam das vírgulas, outros dos pontos, muitos das exclamações e interrogações — quase todos se esquecem do pobre ponto e vírgula. Aliás, serei dos muitos que quase nem usam tal sinal. Enfim: aqui fica a minha homenagem ao casal mais antigo da pontuação portuguesa.

Imagem da página 143 do livro O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco. Publicado originalmente em 1858. Publicado pela Guerra e Paz em 2016. Fixação do texto e prefácio de Helder Guégués

(Este texto foi publicado primeiro no blogue Ponto & Vírgula.)

Quem quer casar com um homem tão pesado?

Meu amor, agora que estamos a pensar em casar tenho de te revelar o mais pesado dos meus segredos. Está ali guardado na cave dos meus pais.

Não vai ser fácil. Mas tens de saber isto se queres mesmo casar comigo.

Vem, dá-me a mão, desce as escadas. Prepara-te. Vou acender a luz.

Aqui está.

Quando tivermos uma casa vamos ter de enfiar lá estes 2562 livros (em breve 2565, pois amanhã vou às compras). São muitos? São. Mas não faças essa cara, isto é assim mesmo, cada pessoa tem o seu passado, o seu peso, os seus caixotes. Há homens com bagagem, eu tenho uma biblioteca. Sim, estas pilhas de livros espalhadas pelo chão são uma biblioteca. Há aqui uma organização invisível, que segue alguns caminhos que nem a ti posso confessar.

Sim, é este o meu segredo. Querias o quê? Um cadáver escondido na cave? Máquinas de tortura? Andas a ler demasiados livros. Tenho aqui uns quantos romances sobre pessoas que lêem livros a mais — lêem-nos mal ou lêem os livros errados. Ah pois é, fica a saber que isto dos livros não é só comprar e ler. Alguns compram-se e não se lêem. Alguns lêem-se pela metade ou a começar pelo fim. Outros compram-se, lêem-se e queimam-se com prazer. (Olha, tens aqui Los mares del Sur. Lê e não queimes.)

Já que estamos numa de revelações, tens de saber que esta biblioteca que aqui tens cresce sem parar. E se me sair a sorte grande ou me tornar rico, esquece as férias nas Caraíbas, esquece o Mercedes, esquece isso tudo: vou mas é gastar o dinheiro em mais livros e numa casa que dê para os livros.

Tens de perceber o que está aqui: olha-me este livro todo riscado, uma edição de bolso da Penguin do Pride and Prejudice. Li isto no quarto ano da faculdade, no apartamento de Benfica onde nunca foste e, em certas tardes, sozinho a andar pelas ruas de Lisboa, a tentar perceber o mundo e as mulheres através da Jane Austen. Sim, eu sei, é ridículo. É uma verdade universalmente reconhecida que um gajo de óculos a ler Jane Austen no meio da rua não percebe grande coisa nem da vida nem das raparigas. Adiante.

Aqui este The Alexandria Quartet li-o há uns cinco anos, em Madrid, ainda namorava com a Carolina. Sim, a Carolina. Já sei que não gostas dela, mas o que queres?, aquela viagem foi importante e aqui está, na biblioteca que te há-de acompanhar para o resto da vida, na saúde e na doença, na sala de estar e nos carros das mudanças.

Nessa viagem, a Carolina e eu ficámos num hotel na Gran Vía, com uma piscina lá em cima donde se via a cidade inteira. Lembro-me de estar a ler e ela a nadar à minha frente, enquanto eu vagueava por uma Alexandria de delírio.

A certa altura, a Carolina veio deitar-se ao sol e lembro-me dos exactos movimentos dela, bem mais perto do que o aconselhável para deixar um rapaz a ler sossegado, e lembro-me que do biquíni saltou uma gota de água que salpicou a página 137 do Quartet, que ficou para sempre com o papel enrugado no sítio onde a gota caiu. Nunca mais me esqueci e para mim o melhor do livro é essa ruga — e olha que eu gosto muito do livro.

Não faças essa cara. Se vamos casar, não posso ter segredos, não é verdade? Tens de te casar comigo inteiro, até com as rugas das gotas da água das outras mulheres que já passaram por estes livros.

Aqui esta edição dos Dubliners, comprei-a em Cambridge, quando fui lá contigo e começámos a namorar. Ainda hoje folheio o livro e lembro-me de passearmos encasacados nos relvados nas traseiras dos colégios e sonharmos com outras vidas ao sol frio do Inverno inglês. Lembro-me de anoitecer e começar a nevar e do conforto que foi entrar na livraria, de escolher este livro, olhar para ti e sentarmo-nos os dois num dos sofás do café no terceiro andar, onde demos o primeiro beijo a sério. Também te lembras? Eu sei que sim.

Pronto, aqui tens: o peso todo dos meus livros. Sou eu que encontras aqui. Todas as vezes que mudarmos de casa, lá terão de ir estes calhamaços todos. E como arrumar isto na sala? Sim, na sala. Ou achas que vamos ter dinheiro para uma casa com escritório? Nem penses que os livros vão para a arrecadação. Ou queres que passe mais tempo lá em baixo do que contigo na nossa casa? E o pó, já imaginaste? Vamos passar horas a limpar as estantes! E daqui a muitos anos, se por cá ficares e eu não for mais do que pó, terás de os vender — ou talvez fiquem para os filhos que aí vêm, que bem podem herdar este estranho bichinho dos livros. Enfim: aqui me tens. Decide lá. Tens tempo. Mas entretanto dá-me um beijo — cuidado é para não derrubares essa pilha de livros aí atrás de ti. Obrigado.

[Histórias]

Cinco prazeres de ter um livro na mão

books-985954_1280Há o prazer da leitura, claro. E da literatura, que é outra coisa. Pois hoje trago-vos cinco exemplos de prazer físico que os livros nos dão.

  1. Pegar nos livros. Sentir prazer só ao passar os dedos pelas páginas ainda fechadas. Sentir a lombada na mão. Pegar no livro e perceber o seu peso particular.
  2. Folheá-los. Passar pelas páginas… Lembrar-me do lugar exacto onde estava quando li aquele parágrafo. Recordar as emoções daquela história em particular.
  3. Cheirá-los. Era um maluquinho, eu. Conta-me a minha mãe que me punha a cheirar os livros, passando o nariz pela dobra… Menti-vos ainda agora: eu não era um maluquinho — eu sou um maluquinho.
  4. Encontrar vestígios do que éramos. Olhar para a data e local que deixámos na primeira página e sorrir um pouco. Descobrir as nossas anotações. Olhar para o que deixamos no meio das páginas. Encontrar um recibo dum restaurante onde não vamos há anos. Reler um antigo postal de Natal escrito pelos nossos amigos.
  5. Tirá-los das estantes, encostá-los uns aos outros, desarrumar e voltar a arrumar. Criar pilhas, desfazê-las e pegar num outro livro, ao calhar da sorte.

Os livros que lemos e guardamos são uma espécie de pedrinhas que vamos deixando na floresta, ajudando-nos a voltar atrás no tempo e perceber como éramos e como somos agora. E são, quase todos, objectos bonitos e apetitosos.

E ainda nem falei do maior prazer de todos: lê-los, por fim.

Três livros para combater a fragilidade do mundo

hammer-682767_1280O mundo é difícil de prever — se há lição que este ano nos deixa é essa mesmo. Mas não é novidade, pois não? Quando olhamos para o passado, tudo parece previsível, tudo segue esta ou aquela narrativa. Mas olhando para o futuro só os tolos acham que sabemos mesmo o que vem aí — e isto aplica-se a tudo, desde a nossa vida pessoal à vida dos países e do mundo. Reparem: o mesmo acontece com o presente — parece sempre muito mais confuso e muito mais difícil do que o passado, já explicado e arrumado.

O mundo é complicado, sim. Mas isto não invalida que não tentemos melhorá-lo, sabendo no entanto que não podemos ter a certeza do verdadeiro impacto das nossas acções. Às vezes, tapamos o pescoço e destapamos os pés sem querer.

Agora, o que todos podemos fazer é tentar diminuir a fragilidade das nossas vidas. Fiquei mais atento a este ponto e a certas ilusões com que olhamos para o mundo — e para a maior ilusão de todas: a de que conseguimos compreender o mundo complexo com uma ou duas ideias feitas — ao ler um autor de discurso difícil, tom intragável, mas ideias bem importantes: Nassim Nicholas Taleb.

Não concordo com ele em muitos pontos, fico irritado ao ler certas passagens, fico fulo ao saber a forma como ele ataca os seus opositores intelectuais, que me parece muito distante do diálogo intelectual civilizado. Mas, mas… A verdade é que o que ele diz quanto à fragilidade das nossas vidas é muito importante. Tão importante que não me atrevo a tentar explicar em poucas palavras. Mas fica aqui a recomendação para três livros do autor — o primeiro já o li na totalidade, os outros dois tenho avançado devagar, tentando suprimir a vontade de os atirar à parede. Mas é essa força do que lá aparece que me leva a recomendá-los sem hesitação:

cisnenegrofooled-by-randomnessantifragil


Querem um resumo? Não há. Será qualquer coisa assim: as nossas vidas são mais aleatórias do que parecem, os eventos de grande dimensão e absolutamente imprevisíveis têm uma importância desmesurada, vivemos rodeados de perigos escondidos — e a solução passa por arranjarmos mais opções, usar a redundância como forma natural de reduzir a fragilidade e escaparmos à ilusão da segurança. Ah, e pelos vistos temos de ir a mais festas. Mas leiam, leiam e compreendam. É uma visão difícil, exigente, às vezes parece um discurso desnecessariamente opaco, mas é muito importante e muito útil para nos orientar no mundo complexo em que (sempre) vivemos.

Página 1 de 7

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

By continuing to use the site, you agree to the use of cookies. more information

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close