Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Categoria: Livros (Página 1 de 8)

Cem Maneiras de Melhorar a Escrita

Chegou esta semana às livrarias um livro que tive o prazer de traduzir e adaptar para português: Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, de Gary Provost. A revisão ficou a cargo das mãos seguras de Ana Salgado.

Livros sobre escrita há muitos, como sabemos — mas este vale bem a pena. O autor apresenta-nos 100 ideias sobre como «escrever melhores cartas de amor, histórias, artigos de revista, cartas ao editor, propostas de negócio, sermões, poemas, romances, pedidos de liberdade condicional, boletins da paróquia, canções, memorandos, ensaios, trabalhos escolares, teses, grafitis, ameaças de morte, anúncios e listas de compras».

Por isso, já sabe: antes de escrever uma boa ameaça de morte, leia primeiro este livro — ou arrisca-se a não meter medo a ninguém. E, sim, as tais 100 maneiras de melhorar a escrita ajudam mesmo a desemperrar os dedos e a escrever melhor.


Os leitores deste blogue podem comprar o livro com 10% de desconto e portes de envio gratuitos — basta preencher o formulário abaixo. Boa leitura — e boa escrita!

Línguas e portugueses à solta em Inglaterra

Hoje falo de comboios, livros galegos, conversas saborosas, números em romeno e beijos à francesa. Tudo por causa duma viagem a Inglaterra e do que por lá ouvimos.


Estávamos nós numa velha estação de comboios, ao final sereno duma tarde inglesa, cansados de tantas aventuras…

Alto e pára o baile! Esta frase engana o leitor e não é pouco. A estação era inglesa, sim senhora, a tarde era serena… Mas este texto não é um conto. É antes uma pequena conversa sobre línguas latinas.

Pois é: a estação era um apeadeiro pequenino e a tarde não tivera mais aventuras do que aquelas que nos esperam quando levamos os filhos a um pequeno jardim zoológico numa terreola inglesa. (O meu filho fez a mais feliz das caras ao ver um tigre a sério. Ele já tinha visto, mas aos quatro anos conseguimos ver tudo pela primeira vez — várias vezes.)

Já o comboio, o mais romântico dos meios de transporte, longe de ter uma chaminé a fumegar românticos vapores, era eléctrico e a dar para o suburbano, propriedade duma empresa de nome aparvalhado: «Great Northern». Quem terá tido a ideia de chamar a uma empresa de comboios O Grande Nortenho?

(Confesso: torci um pouco a tradução em nome dum vago efeito humorístico. Peço desculpa. Na verdade, aquilo será mais uma abreviatura de A Grande Linha do Norte. Não percebo a mania inglesa de pôr Great em tantos nomes, mas avancemos.)

Pois foi à espera do comboio das 6 da tarde da Grande Linha do Norte,  no apeadeiro de Shepreth, que a minha cunhada me fez uma estranha pergunta.

O que se passava era isto: eu estava a ler um livro. A Zélia e o Simão brincavam na plataforma, a ver se viam o comboio lá ao fundo. O meu irmão lia qualquer coisa no telemóvel. E a minha cunhada embalava a Lilah ao meu lado. Quando passou os olhos pelo livro que eu estava a ler, exclamou: «Mas estás a ler um livro em português?»

Bem, antes de continuar, convém explicar por que razão a minha cunhada achou espantoso eu estar a ler um livro na minha própria língua. A explicação é fácil: ela sabe que, quando vou a Inglaterra, aproveito para ir de malas vazias de livros para ter espaço para o carregamento anual de livros ingleses, que nas livrarias portuguesas os livros ingleses não saem baratos e mandar vir livros também tem o seu quê de caro. Assim, ela está habituada a ver-me por lá a ler os livros que encontro e estranhou ver-me, em Inglaterra, a ler na minha própria língua.

E agora vem a outra surpresa: ela ficou admirada de ler, assim de repente, português — mas, na verdade, eu estava a ler um livro em galego: Papaventos, de Xavier Queipo.

Quando lhe disse que aquilo era galego, a minha cunhada quis olhar com mais atenção. Afinal, nunca tinha visto um livro em galego. Passámos alguns minutos a olhar para a língua.

A ortografia é a oficial, ou seja, não está tão próxima do português como a ortografia reintegracionista. Mas, enquanto na fala, por falta de treino ou desatenção, os portugueses enfiam rapidamente o galego no campo do espanhol (excepto o meu sogro), na escrita, a coisa é diferente: vemos rapidamente como os textos galegos são muito nossos. São tremendamente fáceis de ler. Não há que enganar: mesmo aos olhos de alguém que não se interessa por questões de linguística ibérica, há qualquer coisa de surpreendentemente próxima no galego.

Texto de contracapa do livro.

Comecei a ler o livro porque ando com vontade de conhecer mais literatura galega — o título foi-me sugerido por Fernando Venâncio. E que grande sugestão! Depressa estava a ler não por ser literatura galega, mas por ser um bom livro.


Deixo-vos três razões para ler este livro — há outras, claro:

  1. O livro conta a história dum tradutor que vai ficando cego enquanto escreve a tradução inglesa dum livro português.
  2. O livro que o tradutor tem de traduzir é o Ensaio sobre a Cegueira.
  3. Num livro sobre a cegueira, todos os nossos sentidos ficam bem acordados: cheiramos as refeições que o protagonista cozinha, sentimos nos pés a areia das praias da Califórnia, sentimos nos dedos a beleza de Rose, a mulher luminosa que ele encontra numa escura sala de cinema, com os ouvidos aterrados dos sons do Apocalypse Now — vemos a luz a desaparecer ao longo dos meses em que a tradução e a cegueira avançam.

Existe uma tradução portuguesa deste livro galego sobre a tradução para inglês dum livro português: Bebendo o Mar. Como é mais do que óbvio, nada tenho contra a leitura de traduções. Mas aconselho a leitura da versão original deste livro. Afinal, com um pequeno esforço, sentimos as cócegas das diferenças e surpreendemo-nos com a nossa extraordinária capacidade de ler aquilo que alguns dizem ser outra língua. No fundo, quando lemos em galego sentimos a nossa própria língua a galgar fronteiras. Nas próximas semanas, hei-de deixar aqui mais sugestões de livros galegos, nas várias ortografias que por lá se usam.

Catalães na paragem do autocarro (e «16» em basco)

Embalado por estas conversas sobre línguas ibéricas, no dia seguinte, numa paragem de autocarro, chamei a atenção da Zélia, do Diogo e da Sofia para a conversa de três pessoas que ali estavam ao nosso lado. Não porque tivesse tido um assomo de bisbilhotice, mas porque estavam a falar numa língua de que gosto muito. Disse-lhes, baixinho:

— Estão a falar em catalão!

A minha mulher sorriu, como quem desculpa ao marido um vício privado. A minha cunhada disse-me que nunca tinha ouvido tal língua. Lá lhes fui apontando algumas expressões que estávamos a ouvir: «aquesta nit» («esta noite»), «sisplau» («por favor»), etc.

As línguas são como as cerejas e depressa estávamos a falar do basco, a mais distante das línguas. Contei-lhes como uma vez tinha ido a Donostia-San Sebastián (uso o nome oficial da terra) e, numa estação de serviço, reparei numa frase que dizia em espanhol qualquer coisa como «Nesta estação de serviço é proibido por lei vender bebidas alcoólicas a menores de 16 anos.» Pois, na versão basca, em baixo, a frase começava pelo número: «16». Já agora (fui ver agora), o número 16, em basco, diz-se «hamasei».

Sim, a nossa península é assim: temos o galego e o português que se confundem e depois temos o basco que soa vagamente a japonês (com a diferença de que o japonês parece mais fácil).


Não fique o leitor preocupado: não ando a visitar família em Inglaterra para passar os dias a falar de línguas. Conversámos sobre tudo e nada e é assim que é bom. As conversas são como os livros: ficamos embriagados, fora do mundo, mas ao mesmo tempo lembramo-nos muito bem dos sítios onde estávamos quando tivemos aquela conversa ou quando lemos aquele livro. E há ruas de Cambridge que, para mim, guardam recordações de boas conversas em português.

Primos entre línguas

No meio desta viagem, entre algumas leituras, algum trabalho, muitas conversas, fui reparando na maneira como o meu filho e a prima conversavam. O Simão ia aprendendo umas palavras em inglês, ela insistia em falar em português com ele.

O Simão aproveitou também para ensinar à prima palavras engraçadas como «chichi» e «cocó». São crianças, pois então. E ainda lhe disse que já sabia contar em espanhol, desatando a dizer os números com a voz muito alta e as vogais abertas. Se há coisa que um português aprende depressa é o portunhol.

Percebi ainda, desta vez, que agora eles já os nomes das línguas: os dois acabaram os dias em que estiveram juntos a saber dizer «inglês» e «português» para identificar as duas línguas. Sim, é verdade: em crianças, nós aprendemos a falar uma língua antes de lhe saber o nome.

Uma laranja romena e um beijo francês

Nem só de línguas ibéricas se faz o mundo das línguas latinas, pois claro. Não podemos esquecer o inglês, por exemplo.

Calma, calma: eu sei que é uma língua germânica. Mas é uma língua germânica arraçada de latina. Mas, pronto, deixemo-nos de declarações bombásticas.

Depois de falar do galego, pensemos agora na língua latina mais distante do português.

Numa das noites em que lá estivemos, apareceu para jantar uma amiga deles que é romena.

A certa altura, conversámos sobre algumas palavras que são parecidas entre o romeno e o português. Apesar de serem as duas línguas latinas que estão mais distantes uma da outra, ainda vemos muita coisa de comum se olharmos com atenção.

Basta olhar para os números: «unu, doi, trei, patru, cinci, șase, șapte, opt, nouă, zece». Sim, isto está bem distante do português, principalmente se compararmos com o galego (vou usar a ortografia oficial: «un, dous, tres, catro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez»), mas há ainda muita coisa que nos aproxima, mesmo à distância dum continente.

Há ainda outra coincidência curiosa entre o português e o romeno, não tanto no som ou aspecto das palavras, mas no significado de uma certa palavra muito especial. Dizem-me muitos romenos que a palavra «dor» é uma tradução quase perfeita (ou tão perfeita como pode ser qualquer tradução) da palavra «saudade». Sim, essa mesmo, tão nossa — e tão romena. [Já aqui tinha falado disso.]

Foi então que me lembrei de qualquer coisa que aprendi há uns tempos e pedi à amiga romena do meu irmão e da minha cunhada que dissesse «laranja» em romeno.

E ela disse, um pouco admirada pela pergunta:

— Portucale!

Não é a única língua daquelas paragens onde o nome da fruta lembra aos falantes o nome do nosso país. Assim, a um romeno ou um grego, quando alguém refere Portugal, é bem possível que lhes apareçam laranjas na cabeça. (Lá está: a tradução é sempre possível, mas nunca sabemos aquilo que uma palavra faz a cada leitor.)

Sem suspeitarmos, somos o país das laranjas para muitos europeus mais a leste. Mas esta associação entre um país e alguma coisa à revelia dos próprios habitantes desse país não é caso único: sem terem pedido autorização aos castos franceses, os ingleses associam a França aos beijos mais profundos, chamando-lhes «French kissing». E pronto: haverá melhor maneira de acabar este texto do que a falar de línguas entrelaçadas?

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

Os livros são caros?

Claro que a resposta só pode ser o irritante «depende». 

Depende da pessoa, da carteira, do livro… 

Mas Antonio Muñoz Molina tem muita razão quando diz isto no El País:

Con un libro que puede haberte costado menos que una cerveza tienes la posibilidad de horas extraordinarias de inmersión en un mundo que será todavía más deslumbrante y más saludable para ti.

É verdade que é difícil encontrar livros que custem menos que uma cerveja. Mas também é verdade que há por aí edições bem baratas de grandes autores. E podem não acreditar, mas um livro do Eça (por exemplo) pode ser bem melhor que qualquer bebida ou espectáculo ou jantar… Vão por mim.

(O artigo do El País é este: «La risa de Eça de Queiroz». Vale a pena ler o prazer com que o escritor espanhol reencontrou Eça num hotel de Lisboa…)

A EMEL nos caminhos da língua portuguesa 

Ontem andei num rodopio para conseguir ficar despachado e ir falar um pouco sobre a língua portuguesa. A entrevista era às 19. Ora, fiz contas e fui para o carro quando faltava menos de uma hora, para ir pôr a Zélia a casa e então ir para os estúdios. Era tempo de sobra — não fosse dar-se o caso de o carro estar horrivelmente engalanado com fitas amarelas e um autocolante ameaçador no vidro. Ora, eu tinha pago o estacionamento — mas naquele momento percebi que o senhor da EMEL fez bem em bloquear o carro. Porquê? Vejam bem o retorcido da situação: o meu carro está na oficina (por causa dum javali que encontrou o meu pára-choque há uns tempos). Estava a usar um carro emprestado. Estacionei e paguei o parquímetro usando a aplicação da EMEL para telefones. Só que… na verdade esqueci-me que na aplicação a matrícula registada é a do carro que está na oficina. Resultado? Bloqueio. Ora, isto é muito giro mas as entrevistas em directo não esperam — e lá ficou a minha mulher à espera da irmã para ter alguém com carta para receber os senhores e desbloquear o veículo. O que vale é que o funcionário da EMEL foi simpático (contaram-me elas) e até aconselhou a mandar uma explicação para que a EMEL devolvesse o dinheiro da multa. Afinal eu paguei o estacionamento… Porque conto tudo isto? Confesso: é só para poder dizer que, apesar de tudo, cheguei a tempo e horas e lá estive um bom bocado numa conversa bem animada na Prova Oral da Antena 3 para falarmos de dois livros sobre a língua. (Se quiserem, também podem recordar uma outra conversa, em que também falámos dos segredos da língua, já lá vão alguns meses.)

Como irritar alguém que está a ler?

(1) Perguntar «Qual é a história?». Isto é especialmente irritante quando estamos a ler um livro de ciência («A história d’O Gene Egoísta? Hum, havia um gene. Era um bocado egoísta.»). Mas mesmo no caso dum romance, perguntar «qual é a história» é mostrar que não percebemos assim tão bem o que é um romance. Talvez esteja a ser mau — mas, quando estou a ler, sossegado, e de repente tenho de resumir um livro inteiro, fico um pouco irritado, a olhar para o livro e a olhar para a pessoa que me fez tal pergunta. Estraga-me um bocado a leitura, confesso-vos. Pensem n’Os Maias. «Hum, há um rapaz que encontra uma mulher e depois descobre que…» Isto não são Os Maias! É uma má telenovela! Querem mesmo mostrar interesse no livro que alguém está a ler? Peçam, num intervalo da leitura, para pegar no livro. Folheiem, olhem para a capa, reparem nas badanas. Se o leitor quiser falar do livro, garanto-vos que vai aproveitar esse momento para conversar. Mas a verdade é que, muitas vezes, quem lê não quer falar do livro: quer ler, ponto final.

Como convencer alguém de que somos humanos?

O meu irmão Diogo andou a bater-me na cabeça para ler este livrinho: The Most Human Human, de Brian Christian. Porque tinha muito a ver comigo, falava de literatura e tradução e computação (sim, é possível juntar esses temas num só livro) e por outros motivos que já nem me lembro. Ainda resisti uns bons três minutos, mas lá fiz a encomenda. Recebi o pacote e abri com um sorriso parvo na cara, cheirando o livro como viciado que sou. E comecei a ler. O primeiro capítulo está a deixar-me em parafuso: o autor descreve como participou num Teste de Turing, em que seres humanos e computadores tentam convencer pessoas de que são humanos, conversando com elas à distância. Ora, Brian Christian participou como um dos humanos que tenta convencer outros seres humanos da sua própria humanidade — e se pensarem bem, é fascinante pensar no que deve dizer uma pessoa que está a competir com um computador para provar que é humano. Dizemos o quê? «Olha que eu sou de carne e osso!» O computador também sabe dizer isso: afinal, se um computador quiser mesmo passar por humano, mentir é essencial — e muito humano. Mas, enfim, isto já sou eu a delirar — porque ainda não li o livro e já tenho a mente a mil. O meu irmão tinha razão.

O homem mais feio da literatura portuguesa

Não é a única razão para ler O Que Fazem Mulheres: também temos um capítulo solto para ser enfiado onde quisermos (salvo seja) e cinco páginas que não são para ler — e lá estão bem fechadas, à espera que algum leitor mais curioso se dê ao trabalho de as destapar. Depois, temos choro e ranho e bacamartes, num romance cómico que brinca sem pudor com os livros que se levam demasiado a sério. Mas, sim, ao acabar de ler o livrinho, o que fica a zoar aos ouvidos é mesmo o génio de Camilo quando descreve, em duas páginas cruéis, um homem de estatura «essencialmente pançuda», pálpebras «túmidas e pilosas como a casca da fava», «bochechas gordurentas», «beiços bicolores», «refegos relaxados», dentes com «uma crusta de cárie» e dois cepos como pernas — estas são apenas algumas das entradas nesse catálogo estupendo da feiura do homem. Rimo-nos e depois paramos de rir, com medo que nos apareça tal figura à nossa frente. E João José Dias nem merecia tal sorte, mas ninguém escolhe o corpo com que nasce. Vá, vão lá conhecer o homem mais feio da literatura nacional. Agradeçam ao Camilo.

Quando Camilo gozou com a escrita de Facebook

Sei que há quem ande pelo mundo convencido que foi o Facebook que estragou o português escrito. Ora, meus caros, não é que a escrita amalucada já existia antes? Na imagem acima podem ver Camilo a gozar com a pontuação hiperbólica do homem mais feio da literatura portuguesa (falo-vos dele entretanto). Cá está um sinal de que sempre houve muita gente que escrevia às três pancadas — mesmo entre os poucos que sabiam escrever. Mas — dizia eu — se não caio nesse pessimismo ingénuo, também tenho as minhas irritações. E uma delas é mesmo esse uso excessivo dos pontos de exclamação. É pá, guardem-nos para as conversas privadas. E para quando são mesmo mesmo mesmo precisos (o que não será todos os dias). Bem, foi por isso que achei por bem dar o nome Ponto & Vírgula a este blogue. É que — se muitos abusam das vírgulas, outros dos pontos, muitos das exclamações e interrogações — quase todos se esquecem do pobre ponto e vírgula. Aliás, serei dos muitos que quase nem usam tal sinal. Enfim: aqui fica a minha homenagem ao casal mais antigo da pontuação portuguesa.

Imagem da página 143 do livro O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco. Publicado originalmente em 1858. Publicado pela Guerra e Paz em 2016. Fixação do texto e prefácio de Helder Guégués

(Este texto foi publicado primeiro no blogue Ponto & Vírgula.)

Quem quer casar com um homem tão pesado?

Meu amor, agora que estamos a pensar em casar tenho de te revelar o mais pesado dos meus segredos. Está ali guardado na cave dos meus pais.

Não vai ser fácil. Mas tens de saber isto se queres mesmo casar comigo.

Vem, dá-me a mão, desce as escadas. Prepara-te. Vou acender a luz.

Aqui está.

Quando tivermos uma casa vamos ter de enfiar lá estes 2562 livros (em breve 2565, pois amanhã vou às compras). São muitos? São. Mas não faças essa cara, isto é assim mesmo, cada pessoa tem o seu passado, o seu peso, os seus caixotes. Há homens com bagagem, eu tenho uma biblioteca. Sim, estas pilhas de livros espalhadas pelo chão são uma biblioteca. Há aqui uma organização invisível, que segue alguns caminhos que nem a ti posso confessar.

Sim, é este o meu segredo. Querias o quê? Um cadáver escondido na cave? Máquinas de tortura? Andas a ler demasiados livros. Tenho aqui uns quantos romances sobre pessoas que lêem livros a mais — lêem-nos mal ou lêem os livros errados. Ah pois é, fica a saber que isto dos livros não é só comprar e ler. Alguns compram-se e não se lêem. Alguns lêem-se pela metade ou a começar pelo fim. Outros compram-se, lêem-se e queimam-se com prazer. (Olha, tens aqui Los mares del Sur. Lê e não queimes.)

Já que estamos numa de revelações, tens de saber que esta biblioteca que aqui tens cresce sem parar. E se me sair a sorte grande ou me tornar rico, esquece as férias nas Caraíbas, esquece o Mercedes, esquece isso tudo: vou mas é gastar o dinheiro em mais livros e numa casa que dê para os livros.

Tens de perceber o que está aqui: olha-me este livro todo riscado, uma edição de bolso da Penguin do Pride and Prejudice. Li isto no quarto ano da faculdade, no apartamento de Benfica onde nunca foste e, em certas tardes, sozinho a andar pelas ruas de Lisboa, a tentar perceber o mundo e as mulheres através da Jane Austen. Sim, eu sei, é ridículo. É uma verdade universalmente reconhecida que um gajo de óculos a ler Jane Austen no meio da rua não percebe grande coisa nem da vida nem das raparigas. Adiante.

Aqui este The Alexandria Quartet li-o há uns cinco anos, em Madrid, ainda namorava com a Carolina. Sim, a Carolina. Já sei que não gostas dela, mas o que queres?, aquela viagem foi importante e aqui está, na biblioteca que te há-de acompanhar para o resto da vida, na saúde e na doença, na sala de estar e nos carros das mudanças.

Nessa viagem, a Carolina e eu ficámos num hotel na Gran Vía, com uma piscina lá em cima donde se via a cidade inteira. Lembro-me de estar a ler e ela a nadar à minha frente, enquanto eu vagueava por uma Alexandria de delírio.

A certa altura, a Carolina veio deitar-se ao sol e lembro-me dos exactos movimentos dela, bem mais perto do que o aconselhável para deixar um rapaz a ler sossegado, e lembro-me que do biquíni saltou uma gota de água que salpicou a página 137 do Quartet, que ficou para sempre com o papel enrugado no sítio onde a gota caiu. Nunca mais me esqueci e para mim o melhor do livro é essa ruga — e olha que eu gosto muito do livro.

Não faças essa cara. Se vamos casar, não posso ter segredos, não é verdade? Tens de te casar comigo inteiro, até com as rugas das gotas da água das outras mulheres que já passaram por estes livros.

Aqui esta edição dos Dubliners, comprei-a em Cambridge, quando fui lá contigo e começámos a namorar. Ainda hoje folheio o livro e lembro-me de passearmos encasacados nos relvados nas traseiras dos colégios e sonharmos com outras vidas ao sol frio do Inverno inglês. Lembro-me de anoitecer e começar a nevar e do conforto que foi entrar na livraria, de escolher este livro, olhar para ti e sentarmo-nos os dois num dos sofás do café no terceiro andar, onde demos o primeiro beijo a sério. Também te lembras? Eu sei que sim.

Pronto, aqui tens: o peso todo dos meus livros. Sou eu que encontras aqui. Todas as vezes que mudarmos de casa, lá terão de ir estes calhamaços todos. E como arrumar isto na sala? Sim, na sala. Ou achas que vamos ter dinheiro para uma casa com escritório? Nem penses que os livros vão para a arrecadação. Ou queres que passe mais tempo lá em baixo do que contigo na nossa casa? E o pó, já imaginaste? Vamos passar horas a limpar as estantes! E daqui a muitos anos, se por cá ficares e eu não for mais do que pó, terás de os vender — ou talvez fiquem para os filhos que aí vêm, que bem podem herdar este estranho bichinho dos livros. Enfim: aqui me tens. Decide lá. Tens tempo. Mas entretanto dá-me um beijo — cuidado é para não derrubares essa pilha de livros aí atrás de ti. Obrigado.

[Histórias]

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