Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Categoria: Livros (Página 1 de 8)

Um pescoço bem cortado

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Devereux tremeu ao ouvir os passos do meirinho e do carrasco.

Enquanto era transportado para a morte, gritava:

– Eu sei onde está o tesouro!

Mas desistiu. Em breve, a sua cabeça rolaria pela terra molhada do pátio da Torre de Londres.

Limitou-se a pedir ao carrasco que fosse rápido – e decidiu informá-lo:

– Já fui amante da rainha, sabia?

O carrasco olhou para aquele homem e sentiu um calafrio. Era a primeira vez que executava alguém.

O primeiro golpe acertou no cabelo, sem beliscar a pele ao pobre conde. Devereux atirou, como se estivesse a falar com um criado nos seus tempos de riqueza:

– Ó homem, mas é assim tão difícil acertar no pescoço? Vá, despache-se que a minha vida não é isto.

Mas de repente calou-se. A lâmina do carrasco brilhava e em breve acertar-lhe-ia no pescoço. Seria rápido? Iria sentir dor? E depois? O que se seguiria?

A segunda estocada já acertou no pescoço – e a terceira separou a cabeça do amante da rainha. Naquele momento, o olhar do homem apagou-se para sempre – e para sempre se perderam as suas memórias de rainhas nuas, salteadoras esplendorosas, guerras e feitos de admirar, tesouros escondidos pelo mundo e muita vontade de aventura. Tudo acabou naquele momento – mas foram décadas duma vida bem preenchida.

Conto tudo isto porque tenho muito a agradecer a este nobre inglês. Aquele pirata inglês, enquanto esperava pela morte, contara as histórias do Tesouro de Saturno ao seu companheiro de cela. Se não o tivesse feito, eu nunca teria ouvido aquelas histórias da boca do meu avô.

O carrasco pegou pelos cabelos na cabeça de Robert Devereux, mostrou-a à assistência e gritou «God Save the Queen».

(Capítulo 25 de A Baleia Que Engoliu Um Espanhol)

Agruras dum comprador de livros


Gosto de livrarias. Aliás: gosto muito de livrarias. Mas confesso este pecado: de vez em quando, lá mando vir um ou dois ou três livros lá de longe. E a livraria cujo nome não vale a pena pronunciar manda-me os livros e eles chegam aqui.

Com o tempo, tal como há prazer em passar os dedos pelas lombadas dos livros que nunca hei-de comprar numa boa livraria, aprendemos que também há prazer em receber esses pacotes castanhos com livros dentro. Como se fosse Natal quando um leitor quiser.

Bem, o certo é que a tal livraria inglesa de nome brasileiro, quando manda uma encomenda, deixa-nos bisbilhotar por onde andam a passear os nossos livros. Vamos lá à página e vemos a viagem quase em directo. E eu quero ver. E vou ver. E lá vou esperando, a afagar as mãos, pelos meus livrinhos.

Ora, esta semana, encomendei uns livros na página espanhola da tal livraria. A minha lógica foi esta: Espanha está mais perto, os livros chegam mais rápido. E sempre vou treinando para o Brexit.

Fiz a encomenda e, minutos depois, fui espreitar onde estavam os meus livros. Pois, logo me apareceu a primeira paragem da viagem dos livros: França.

França? Então, mas não era Espanha?… Enfim, tudo bem, eles é que sabem.

A terra donde saíram os livros chama-se Gidy. Hum, cheira a terra com muita flor e um rio. Muito bem, comece a viagem dos meus livrinhos. Vá, venham por aí abaixo até mim, até Lisboa…

Pois os livros em vez de virem para sul, vão para norte e chegam, horas depois, a St Jean de la Ruelle. O que é isto? O que se passa? Quem anda a passear com o meu livro pela França? Portugal é para baixo, ó ignaro condutor de camiões transportadores de bens preciosos.

Pois, em poucas horas, os livros passam de St Jean de la Ruelle para Chilly Mazarin, ainda mais a norte. Não só estou a ver os livros a afastarem-se em direcção ao Mar do Norte, como ainda por cima estou a ficar com fome de estrada.

Porra: eu é que queria estar em Chilly Mazarin ou lá o que é! É verdade: gostava ainda mais de estar em Nice ou na Córsega, mas não se pode ter tudo. Aliás, nem sequer se pode ter Chilly Mazarin, quanto mais.

Fui dormir. Na manhã seguinte, acordo, ponho os óculos, pego no telemóvel, vejo onde estão os livros ainda estremunhado.

Os livros estão em Benavente! Viva! Lisboa à vista!

Só que aparece “Benavente, ES”. ES? Espanha? Mas o que é isto? Fomos invadidos?

Percebo então que há um Benavente perto de Zamora. Raios. Eu queria os meus livros agora. Prometo nunca mais fazer isto e, a partir de agora, comprar todos os meus livrinhos em livrarias. Isto de adiar a satisfação é importante para a vida, mas muito aborrecido.

E, ainda por cima, o raio dos livros ficam em Benavente um dia inteiro! O que raio há em Zamora para ver? Nada! Venham lá embora, se faz favor.

E, ao fim da tarde, eles saem lá de cima e vêm por aí abaixo. E eu contente, já a sentir a vibração daquelas páginas.

Por fim, ao som de Wagner, vejo o camião a dobrar a esquina. Sorrio. O camião passa por mim sem parar. Fico triste em câmara lenta. Até que os meus livros travam. O homem enganara-se. Marcha-atrás. Estacionamento perfeito. E lá aparece o senhor de chapéu na cabeça e caneta na mão, com o meu embrulho castanho.

Assino aquilo, digo um obrigado a correr e destruo com prazer o cartão. Aliviado, passo os dedos pelos livros vadios. Fecho os olhos e penso: a felicidade, às vezes, está no cheiro dum livro novo.

Somos bichos muito estranhos.

Agora, desculpem, mas vou ali ler e já volto.

Convite: a Baleia chega a Peniche

É já esta quinta-feira: A Baleia Que Engoliu Um Espanhol chega a Peniche — donde, aliás, nunca saiu, não é verdade?

Quem quiser dar uma voltinha a essa terra no meio do mar será muito bem-vindo. Até pode dar um saltinho a Atouguia da Baleia e ficar a conhecer o osso da dita baleia… Ou, se quiser, vá até à praia — também fica muito bem servido.

O livro será apresentado às 21h30, dia 3 de Agosto, na Feira do Livro, no Clube Recreativo Penichense. A apresentação — organizada pela Câmara Municipal de Peniche e pela Associação Juvenil de Peniche — também está no Facebook:

Um pedido aos leitores deste blogue

Sim, é verdade, tenho tido pouco tempo para escrever por aqui. Mas ando a preparar uma nova aventura: muito em breve, vou contar aqui no blogue o dia em que ia morrendo numa livraria.

Enquanto não acabo esse relato, deixo-vos um vídeo: o trailer daquele livrinho de que, provavelmente, já ouviram falar — A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Ora, depois de alguns meses às voltas solitárias com a história, o meu maior prazer é ver esta aventura a chegar às mãos dos leitores. Assim, pedia-lhe a si, leitor deste blogue, que partilhe o vídeo no Facebook, no Twitter, pelos contactos de e-mail…

A baleia armada em Padeira de Aljubarrota ficar-lhe-á muito agradecida — e eu também!

Pois, então, aqui está o trailer do nosso livro:

Aventuras entre ânforas, espadas e livros

Foi um fim de tarde quase tão louco como o próprio livro.

Muito obrigado ao Alvim pela apresentação — e a todos os amigos, leitores, alunos, colegas e família que estiveram por lá.

Tive duas surpresas nesta apresentação…

Primeira surpresa: uma das próprias personagens destas aventuras decidiu dar um ar de sua graça e lá apareceu, de espada na mão — o próprio D. António, Prior do Crato. Quem o convidou foi António José Correia, presidente da Câmara de Peniche (há quem diga que o viu por lá).

Segunda surpresa: na assistência, estava a equipa de arqueólogos que há vinte anos estuda os vestígios deixados por outra das personagens do livro — o romano Lúcio Arvénio Rústico, que no livro anda a percorrer a Europa até dar de caras com um tesouro. Em breve, conto visitá-los em Peniche.

Agora é pegar nesta baleia carregadinha de aventuras e começar a ler…

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Este novo livro é um romance de aventuras que nos leva em busca dum tesouro escondido numa antiga ilha portuguesa e reconta, pelo caminho, algumas histórias da nossa História.

Nos primeiros segundos de 2017, com o fogo-de-artifício ainda a explodir no céu e a namorada ao seu lado, Duarte recebe um telefonema e fica a saber que tem uma herança à sua espera: um velho envelope com uma chave e um mapa. O nosso herói não resiste e parte à aventura — no entanto, quando, horas depois, abre o baú que o seu avô escondera numa gruta, não consegue evitar um grito de terror.

É o ponto de partida para um remoinho de aventuras, entre aviões da II Guerra Mundial, tesouros da Antiguidade e histórias de piratas, reis e princesas à nora nas praias portuguesas.

Deixe-se levar por este enredo de beijos, espadas, morangos e perseguições e parta em busca do tesouro que um romano escondeu, há muitos séculos, na Ilha de Peniche. São histórias inesquecíveis — e, no meio de mouros,espanhóis, ingleses e portugueses, lá aparece uma baleia a dar uma ajudinha à Padeira de Aljubarrota.


Pode encomendar o livro directamente à editora Guerra e Paz com 10% de desconto. O preço do livro fica em €13,41. Os portes de envio são gratuitos em Portugal e recebe o livro com um autógrafo.

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Qual é a pátria dos bons escritores?

Hoje é dia de entregar a mítica declaração de IRS.

Reparo na cara de susto do leitor mais desprevenido. Vem a um blogue de línguas e livros e aparece-lhe o IRS à frente. O horror!

Antes de fugir a sete pés, deixe-me lá explicar porque trago os impostos à liça. Quero falar dum certo livro e a melhor maneira que encontrei foi falar de impostos.

Sim, a literatura e o IRS parecem viver em universos paralelos — mas, por vezes, lá se encontram à esquina…

Ler no hospital

Há muitos, muitos anos, num desses dias em que os jacarandás também andavam por aí a rebentar na beleza desvairada desta cidade, tive de esperar pacientemente numa bicha do Hospital Santa Maria.

Lembro-me bem desse dia porque andava aflito com o pólen — a Primavera é apetitosa, mas muito perigosa — e ainda porque tinha na mão um daqueles objectos que ajudam a recordar os sítios por onde passamos: um livro.

Estava a ler o segundo volume das memórias de Anthony Burgess: You’ve Had Your Time. Como fui parar a este livro? Não faço ideia. Nunca tinha lido o primeiro volume e, do autor, só conhecia o inevitável Clockwork Orange, que uma amiga tinha recomendado enquanto estávamos a jogar bowling — digo isto só para provar que o mundo é muito pouco arrumado e até o bowling se mistura com o prazer dos livros.

Enfim, lá andava eu no hospital de Santa Maria, à espera. E muito esperei eu nesse dia — o que foi óptimo, pois assim tive tempo para ler. Ah, o livro é demasiado bom para caber num apertado artigo de blogue.

Fiquei a saber que Anthony Burgess foi diagnosticado com uma doença fatal ali por volta de 1960 e ficou com um ano para viver — viver e escrever. Precisava de deixar algum dinheiro para Lynne, a futura viúva. O autor fez da necessidade força, desatou as mãos e escreveu livros como se não houvesse amanhã. E, de facto, não havia amanhã — diziam-lhe os médicos.

O que fazer com esta vida?

O mundo é imprevisível — e a verdade é que Burgess não morreu em 1961, mas sim em 1993, o que foi óptimo para ele e muito bom para nós, seus leitores. Só não foi assim tão extraordinário para Lynne, pois o homem, com uma nova vida entre mãos, esqueceu a mulher e arranjou uma amante italiana — Liana — com quem viveu durante muitos e (diz-me o autor) bons anos.

Pois a verdade é que o sucesso foi-lhe madrasto: os inspectores dos impostos começaram a cheirar a nova fortuna e caíram-lhe em cima. À época, as taxas de impostos britânicas para os rendimentos mais elevados eram assim coisa para chegar aos 90%.

Bedford Dormobile. Numa carrinha deste tipo se escreveram algumas das melhores obras da literatura europeia.

O que fez Anthony Burgess? Fugiu. Sim, tornou-se um exilado fiscal, um nómada, a viver numa Bedford Dormobile pela Europa fora, com a sua nova mulher italiana, a bater furiosamente na máquina de escrever instalada na carrinha, cigarro na boca, lá à frente a estrada sem fim deste continente louco à sua espreita.

Não é isto delicioso? O autor ainda viveu uns tempos em Malta, onde teve de aturar a alfândega, que nessa época de bons costumes cortava as páginas menos próprias dos livros que Burgess encomendava. Sim: os livros chegavam-lhe retalhados, sem sexo nem nada.

Leiam o livro que vale a pena. Temos o mundo nas nossas mãos, desde Malta, Mónaco, Rússia, Austrália, as memórias de como escreveu as grandes obras e ainda confissões sobre a adaptação de Clockwork Orange para cinema.

Ainda estou para ler o primeiro volume — mas dá-me a sensação que vou acabar por reler este antes de me aventurar nos primórdios dessa vida de espantar. E, como livro puxa livro, acabei por ler mais uns quantos romances dele, o que só me fez bem.

Fazer o que se quer com a língua

Anthony Burgess foi escritor, mas não só: também foi tradutor, crítico e compositor (mais de 250 obras musicais!). Além disso, era um apaixonado pela linguística e esse interesse bem marcado pelas línguas ajudou-o a lidar com o seu material de trabalho. (Falei dessa sua faceta linguística há muito tempo, num dos primeiros artigos deste blogue.)

Burgess não só gostava muito de línguas — também criava línguas! Ou melhor, criou um novo inglês, aquele registo adolescente cheio de interferências russas que marcava a sociedade distópica de Clockwork Orange. A linguagem, nas suas misturas, mostra o que somos e como somos — e estas misturas são bem mais interessantes do que o manejo traquejado dum registo puro, fora do mundo.

Aqui fica o início desse romance:

‘What’s it going to be then, eh?’
There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry.

Anthony Burgess recusou-se a criar um glossário para ajudar o leitor: aprendemos este novo inglês à medida que lemos o livro. E o certo é que aprendemos! Deste início, ficamos logo a saber como se diz «amigo» entre a juventude dessa época imaginária. «Droog», pois então. Já agora, em russo, o que temos é друг, ou seja,«drug».

Anthony Burgess imaginou o cenário linguístico dum mundo em que a União Soviética era a grande potência. O russo seria a língua da moda, a língua onde os jovens iriam buscar as suas palavras próprias, talvez para horror dos pais. Para lá desse realismo linguístico, essa língua alterada também permitiu ao autor criar novas palavras e obriga o leitor a aprendê-las — e, o que não será o menos importante, ajudou a elevar esteticamente a violência descrita no romance.

Mas para lá de todas as razões e análises, Anthony Burgess brinca com a língua — e brinca com prazer, como se estivesse a dirigir uma orquestra enquanto compõe uma sinfonia naquele preciso momento, a sorrir.


Antes de avançar, deixo ao leitor — como exemplo da imaginação verbal de Burgess nestas memórias — a descrição da Sagrada Família de Barcelona que aparece lá pelo meio:

Gaudí had worked on the structure like a novelist, letting new ideas effloresce as he built. The towers of the Sagrada Familia were more than an unfinished novel; they were a meal — foraminated like waffles, crunchy, with pinnacles of crisp sugar. […] I was desperate to be done with the film scrip and at work on a Gaudiesque novel.

A imaginação do artista junta o que nunca ninguém juntou. Gaudí faz isso e Burgess também. E a vida, a vida: sem querer, por motivos fiscais, enfia um escritor numa carrinha por essa Europa fora e quem ganha somos nós.

Como explodir com as fronteiras das línguas

Hoje escrevo sobre misturas e a passagem por Barcelona trouxe-me à memória outro escritor: Juan Marsé.

No seu romance El amante bilingüe, Marsé imagina um burguês bem catalão que descobre, de repente, que a sua mulher — também catalã dos sete costados e funcionária do departamento linguístico da Generalitat — tem um fraquinho por andaluzes de bigode e cheiro de castanholas.

O marido começa então a transformar-se nesse andaluz dos sonhos da mulher, telefonando-lhe para o trabalho sem dizer quem é.

Numa sátira aos purismos linguísticos da sua cidade, o autor imagina a linguagem desse catalão de identidade desfeita. O protagonista tem de falar em espanhol andaluz quando telefona para a mulher.

Com o andar do romance, começa a esquecer-se de quem é e as duas línguas vão-se fundindo. O livro acaba assim:

Pué mirizté, en pimé ugá me’n fotu e menda yaluego de to y de toos i així finson vostè vulgui poque nozotro lo mataore catalane volem toro catalane, digo, que menda s’integra en la Gran Encisera hata onde le dejan y hago con mi jeta lo que buenamente puedo, ora con la barretina ora con la montera, o zea que a mí me guta el mestizaje, zeñó, la barreja y el combinao, en fin, s’acabat l’explicació i el bròquil, echusté una moneíta, joé, no sigui tan garrapo ni tan roñica, una pezetita, cony, azí me guta, rumbozo, vaya uzté con Dió i passiu-ho bé, senyor…

Esta é uma mistura explosiva, um espanhol andaluz eivado de catalão ou um catalão eivado de andaluzismos — ou qualquer outra coisa que não consigo definir. Não interessa. O livro é cruel e muito divertido. E, pronto, confesso, pode irritar muita gente, mas «me guta el mestizaje».

A pátria dos bons escritores

Juan Marsé, há uns anos, numa entrevista em Portugal, disse esta frase magnífica: «Creio que a pátria de um escritor não é sequer a língua, é a linguagem.» (Visão, 10 de Maio de 2012).

É normal que isto seja dito por um escritor que se sente puxado pelos braços por duas línguas em tensão contínua. Mas a verdade é que esta frase é adequada a todos os escritores, em todas as épocas e lugares. Um escritor usa a língua em que cresceu — mas raramente está limitado a um registo, a um lugar, a uma língua nacional. A literatura — e em especial o romance, esse género que engole a humanidade inteira — faz-se do confronto de várias linguagens, de várias línguas.

Se alguém imagina que um bom escritor é o paladino da língua pura e certinha, vai perder quase tudo o que vale a pena na literatura. Os grandes escritores têm sempre de trair essa primeira pátria. Sim, lêem muito na sua língua (mas não só), inscrevem-se numa tradição literária (mas também gostam de lhe dar com os pés) — e depois misturam, transgridem, brincam, abusam.

Repito: um bom escritor não é animal duma só língua. Habita a linguagem humana, tal como a encontra nas ruas que percorre — e lembremo-nos que, muito pouco pura, a linguagem humana é um bicho selvagem feito de gestos obscenos, carinhosos, aflitivos — um bicho que faz um esforço para se comportar nos salões da sociedade, mas que está sempre à coca para, à primeira oportunidade, fugir para a sua inconfessável vida das ruas. É dessas vidas todas — à mesa da sociedade, pés entrelaçados debaixo da mesa, e ainda na rua, ao beijo, ao soco e em corrida — que se faz a literatura.

Sim, a literatura, em boas mãos, faz-se de tudo: de línguas à mistura, catedrais que parecem refeições, gente fugida aos impostos em carrinhas perdidas pelas estradas da Europa. E tudo isto é delicioso e tudo isto está à distância dum bom livro.

Cem Maneiras de Melhorar a Escrita

Chegou esta semana às livrarias um livro que tive o prazer de traduzir e adaptar para português: Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, de Gary Provost. A revisão ficou a cargo das mãos seguras de Ana Salgado.

Livros sobre escrita há muitos, como sabemos — mas este vale bem a pena. O autor apresenta-nos 100 ideias sobre como «escrever melhores cartas de amor, histórias, artigos de revista, cartas ao editor, propostas de negócio, sermões, poemas, romances, pedidos de liberdade condicional, boletins da paróquia, canções, memorandos, ensaios, trabalhos escolares, teses, grafitis, ameaças de morte, anúncios e listas de compras».

Por isso, já sabe: antes de escrever uma boa ameaça de morte, leia primeiro este livro — ou arrisca-se a não meter medo a ninguém. E, sim, as tais 100 maneiras de melhorar a escrita ajudam mesmo a desemperrar os dedos e a escrever melhor.


Os leitores deste blogue podem comprar o livro com 10% de desconto e portes de envio gratuitos — basta preencher o formulário abaixo. Boa leitura — e boa escrita!

Línguas e portugueses à solta em Inglaterra

Hoje falo de comboios, livros galegos, conversas saborosas, números em romeno e beijos à francesa. Tudo por causa duma viagem a Inglaterra e do que por lá ouvimos.


Estávamos nós numa velha estação de comboios, ao final sereno duma tarde inglesa, cansados de tantas aventuras…

Alto e pára o baile! Esta frase engana o leitor e não é pouco. A estação era inglesa, sim senhora, a tarde era serena… Mas este texto não é um conto. É antes uma pequena conversa sobre línguas latinas.

Pois é: a estação era um apeadeiro pequenino e a tarde não tivera mais aventuras do que aquelas que nos esperam quando levamos os filhos a um pequeno jardim zoológico numa terreola inglesa. (O meu filho fez a mais feliz das caras ao ver um tigre a sério. Ele já tinha visto, mas aos quatro anos conseguimos ver tudo pela primeira vez — várias vezes.)

Já o comboio, o mais romântico dos meios de transporte, longe de ter uma chaminé a fumegar românticos vapores, era eléctrico e a dar para o suburbano, propriedade duma empresa de nome aparvalhado: «Great Northern». Quem terá tido a ideia de chamar a uma empresa de comboios O Grande Nortenho?

(Confesso: torci um pouco a tradução em nome dum vago efeito humorístico. Peço desculpa. Na verdade, aquilo será mais uma abreviatura de A Grande Linha do Norte. Não percebo a mania inglesa de pôr Great em tantos nomes, mas avancemos.)

Pois foi à espera do comboio das 6 da tarde da Grande Linha do Norte,  no apeadeiro de Shepreth, que a minha cunhada me fez uma estranha pergunta.

O que se passava era isto: eu estava a ler um livro. A Zélia e o Simão brincavam na plataforma, a ver se viam o comboio lá ao fundo. O meu irmão lia qualquer coisa no telemóvel. E a minha cunhada embalava a Lilah ao meu lado. Quando passou os olhos pelo livro que eu estava a ler, exclamou: «Mas estás a ler um livro em português?»

Bem, antes de continuar, convém explicar por que razão a minha cunhada achou espantoso eu estar a ler um livro na minha própria língua. A explicação é fácil: ela sabe que, quando vou a Inglaterra, aproveito para ir de malas vazias de livros para ter espaço para o carregamento anual de livros ingleses, que nas livrarias portuguesas os livros ingleses não saem baratos e mandar vir livros também tem o seu quê de caro. Assim, ela está habituada a ver-me por lá a ler os livros que encontro e estranhou ver-me, em Inglaterra, a ler na minha própria língua.

E agora vem a outra surpresa: ela ficou admirada de ler, assim de repente, português — mas, na verdade, eu estava a ler um livro em galego: Papaventos, de Xavier Queipo.

Quando lhe disse que aquilo era galego, a minha cunhada quis olhar com mais atenção. Afinal, nunca tinha visto um livro em galego. Passámos alguns minutos a olhar para a língua.

A ortografia é a oficial, ou seja, não está tão próxima do português como a ortografia reintegracionista. Mas, enquanto na fala, por falta de treino ou desatenção, os portugueses enfiam rapidamente o galego no campo do espanhol (excepto o meu sogro), na escrita, a coisa é diferente: vemos rapidamente como os textos galegos são muito nossos. São tremendamente fáceis de ler. Não há que enganar: mesmo aos olhos de alguém que não se interessa por questões de linguística ibérica, há qualquer coisa de surpreendentemente próxima no galego.

Texto de contracapa do livro.

Comecei a ler o livro porque ando com vontade de conhecer mais literatura galega — o título foi-me sugerido por Fernando Venâncio. E que grande sugestão! Depressa estava a ler não por ser literatura galega, mas por ser um bom livro.


Deixo-vos três razões para ler este livro — há outras, claro:

  1. O livro conta a história dum tradutor que vai ficando cego enquanto escreve a tradução inglesa dum livro português.
  2. O livro que o tradutor tem de traduzir é o Ensaio sobre a Cegueira.
  3. Num livro sobre a cegueira, todos os nossos sentidos ficam bem acordados: cheiramos as refeições que o protagonista cozinha, sentimos nos pés a areia das praias da Califórnia, sentimos nos dedos a beleza de Rose, a mulher luminosa que ele encontra numa escura sala de cinema, com os ouvidos aterrados dos sons do Apocalypse Now — vemos a luz a desaparecer ao longo dos meses em que a tradução e a cegueira avançam.

Existe uma tradução portuguesa deste livro galego sobre a tradução para inglês dum livro português: Bebendo o Mar. Como é mais do que óbvio, nada tenho contra a leitura de traduções. Mas aconselho a leitura da versão original deste livro. Afinal, com um pequeno esforço, sentimos as cócegas das diferenças e surpreendemo-nos com a nossa extraordinária capacidade de ler aquilo que alguns dizem ser outra língua. No fundo, quando lemos em galego sentimos a nossa própria língua a galgar fronteiras. Nas próximas semanas, hei-de deixar aqui mais sugestões de livros galegos, nas várias ortografias que por lá se usam.

Catalães na paragem do autocarro (e «16» em basco)

Embalado por estas conversas sobre línguas ibéricas, no dia seguinte, numa paragem de autocarro, chamei a atenção da Zélia, do Diogo e da Sofia para a conversa de três pessoas que ali estavam ao nosso lado. Não porque tivesse tido um assomo de bisbilhotice, mas porque estavam a falar numa língua de que gosto muito. Disse-lhes, baixinho:

— Estão a falar em catalão!

A minha mulher sorriu, como quem desculpa ao marido um vício privado. A minha cunhada disse-me que nunca tinha ouvido tal língua. Lá lhes fui apontando algumas expressões que estávamos a ouvir: «aquesta nit» («esta noite»), «sisplau» («por favor»), etc.

As línguas são como as cerejas e depressa estávamos a falar do basco, a mais distante das línguas. Contei-lhes como uma vez tinha ido a Donostia-San Sebastián (uso o nome oficial da terra) e, numa estação de serviço, reparei numa frase que dizia em espanhol qualquer coisa como «Nesta estação de serviço é proibido por lei vender bebidas alcoólicas a menores de 16 anos.» Pois, na versão basca, em baixo, a frase começava pelo número: «16». Já agora (fui ver agora), o número 16, em basco, diz-se «hamasei».

Sim, a nossa península é assim: temos o galego e o português que se confundem e depois temos o basco que soa vagamente a japonês (com a diferença de que o japonês parece mais fácil).


Não fique o leitor preocupado: não ando a visitar família em Inglaterra para passar os dias a falar de línguas. Conversámos sobre tudo e nada e é assim que é bom. As conversas são como os livros: ficamos embriagados, fora do mundo, mas ao mesmo tempo lembramo-nos muito bem dos sítios onde estávamos quando tivemos aquela conversa ou quando lemos aquele livro. E há ruas de Cambridge que, para mim, guardam recordações de boas conversas em português.

Primos entre línguas

No meio desta viagem, entre algumas leituras, algum trabalho, muitas conversas, fui reparando na maneira como o meu filho e a prima conversavam. O Simão ia aprendendo umas palavras em inglês, ela insistia em falar em português com ele.

O Simão aproveitou também para ensinar à prima palavras engraçadas como «chichi» e «cocó». São crianças, pois então. E ainda lhe disse que já sabia contar em espanhol, desatando a dizer os números com a voz muito alta e as vogais abertas. Se há coisa que um português aprende depressa é o portunhol.

Percebi ainda, desta vez, que agora eles já os nomes das línguas: os dois acabaram os dias em que estiveram juntos a saber dizer «inglês» e «português» para identificar as duas línguas. Sim, é verdade: em crianças, nós aprendemos a falar uma língua antes de lhe saber o nome.

Uma laranja romena e um beijo francês

Nem só de línguas ibéricas se faz o mundo das línguas latinas, pois claro. Não podemos esquecer o inglês, por exemplo.

Calma, calma: eu sei que é uma língua germânica. Mas é uma língua germânica arraçada de latina. Mas, pronto, deixemo-nos de declarações bombásticas.

Depois de falar do galego, pensemos agora na língua latina mais distante do português.

Numa das noites em que lá estivemos, apareceu para jantar uma amiga deles que é romena.

A certa altura, conversámos sobre algumas palavras que são parecidas entre o romeno e o português. Apesar de serem as duas línguas latinas que estão mais distantes uma da outra, ainda vemos muita coisa de comum se olharmos com atenção.

Basta olhar para os números: «unu, doi, trei, patru, cinci, șase, șapte, opt, nouă, zece». Sim, isto está bem distante do português, principalmente se compararmos com o galego (vou usar a ortografia oficial: «un, dous, tres, catro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez»), mas há ainda muita coisa que nos aproxima, mesmo à distância dum continente.

Há ainda outra coincidência curiosa entre o português e o romeno, não tanto no som ou aspecto das palavras, mas no significado de uma certa palavra muito especial. Dizem-me muitos romenos que a palavra «dor» é uma tradução quase perfeita (ou tão perfeita como pode ser qualquer tradução) da palavra «saudade». Sim, essa mesmo, tão nossa — e tão romena. [Já aqui tinha falado disso.]

Foi então que me lembrei de qualquer coisa que aprendi há uns tempos e pedi à amiga romena do meu irmão e da minha cunhada que dissesse «laranja» em romeno.

E ela disse, um pouco admirada pela pergunta:

— Portucale!

Não é a única língua daquelas paragens onde o nome da fruta lembra aos falantes o nome do nosso país. Assim, a um romeno ou um grego, quando alguém refere Portugal, é bem possível que lhes apareçam laranjas na cabeça. (Lá está: a tradução é sempre possível, mas nunca sabemos aquilo que uma palavra faz a cada leitor.)

Sem suspeitarmos, somos o país das laranjas para muitos europeus mais a leste. Mas esta associação entre um país e alguma coisa à revelia dos próprios habitantes desse país não é caso único: sem terem pedido autorização aos castos franceses, os ingleses associam a França aos beijos mais profundos, chamando-lhes «French kissing». E pronto: haverá melhor maneira de acabar este texto do que a falar de línguas entrelaçadas?

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

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