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Categoria: Tradução (Página 1 de 6)

Traduzir também implica escolher o sexo do primeiro-ministro

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Estive a ver o primeiro episódio duma nova série americana: Sobrevivente Designado. Um ataque terrorista durante o discurso do Estado da União mata toda a estrutura de governo dos E.U.A. Morre o presidente, o vice-presidente, os ministros e todos os congressistas. Ah, e ainda os juízes do Supremo Tribunal, para não se ficarem a rir.

Todos, não: há sempre um ministro que se mantém escondido para que os E.U.A. não fiquem sem governo em caso de ataque (e é mesmo verdade: esse sobrevivente designado existe na vida real).

Ora, mas nada disto interessa. Aliás, interessa, mas vejam antes a série, que um post num blogue não é substituto para tal prazer.

O que me traz aqui é outra coisa: a certa altura, o tal sobrevivente designado, entretanto alçado a presidente, recebe um telefonema de condolências do «prime-minister», que todos percebemos ser o chefe de governo do Reino Unido.

O tradutor fez uma coisa engraçada: traduziu por «primeira-ministra». Nada a apontar, claro. Afinal, hoje temos mesmo uma primeira-ministra em Londres — mas imagino que, tivesse a série sido lançada em Maio, a tradução teria sido «primeiro-ministro».

Isto é apenas para vos apontar um aspecto pouco conhecido do trabalho de tradução: às vezes, temos de definir algo que, no original, é ambíguo — e tudo por causa da maneira como cada língua funciona. Há certas ambiguidades que o tradutor tem de resolver — e por isso a tradução implica quase sempre fazer escolhas. Estas escolhas podem ser discutíveis, claro está — mas não há tradutor que lhes possa escapar.


Lembrei-me agora doutro caso em que o tradutor tem de escolher o sexo do primeiro-ministro britânico. Num dos livros de Ian McEwan — The Child in Time — há uma personagem chamada «prime-minister».

O livro foi publicado nos anos 80, mas passava-se num futuro pouco distante (se bem me lembro, no final dos anos 90). O sexo do primeiro-ministro era importante: será que nesse futuro Margaret Thatcher ainda seria a primeira-ministra? De certa maneira, a leitura mais ou menos política da obra dependia desse pormenor — mas Ian McEwan nunca dá a resposta. Já a tradutora portuguesa teve mesmo de fazer a sua escolha…

Feliz Dia do Tradutor!

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Já agora, não percam a sessão de comemoração na FCSH.

Dia do Tradutor | Aula Aberta

Esta sexta-feira, comemoramos o Dia de São Jerónimo, que por isso mesmo é também o Dia do Tradutor. Para lembrar esse dia, haverá uma aula aberta na FCSH/NOVA, com participação de tradutores, professores de tradução e empresas da APET. O tema será o valor da tradução e vamos falar de tradução literária, tradução empresarial, tecnologia de tradução e muito mais.

A aula começa às 14h, termina às 16h, será no Auditório 2 da FCSH — e é aberta a todos os interessados.

Até sexta!

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Curso de Gestão de Projectos de Tradução na FCSH

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Durante a próxima semana, irei dar um curso presencial de 25 horas sobre gestão de projectos de tradução integrado na Escola de Verão da FCSH/NOVA.

O curso está pensado para tradutores que queiram melhorar os seus procedimentos de trabalho ou iniciar uma carreira na gestão de projectos.

As inscrições fazem-se no formulário online da Escola de Verão.

Aqui ficam mais informações sobre o curso:

CURSO DE GESTÃO DE PROJECTOS DE TRADUÇÃO

Datas: 5 a 10 de setembro | segunda a sexta das 18h00 às 22h00 e sábado das 10h00 às 14h00 | Avaliação (opcional) das 15h00 às 16h00 de sábado

Docente: Marco Neves

Áreas: Línguas, Literaturas e Culturas

Creditação para professores dos 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário

A gestão de projectos é uma peça fundamental no mundo da tradução actual. Mesmo um tradutor individual deve conhecer técnicas e ferramentas de gestão de projectos que permitam organizar os seus projetos de forma a não falhar prazos, a garantir qualidade e a tirar partido dos recursos à sua disposição.

No âmbito de uma empresa de tradução, o gestor de projectos é a face da empresa perante o cliente e é ainda quem garante que os projectos são feitos com a qualidade e a rapidez exigidas. Deve gerir os recursos à disposição da empresa de forma rápida, eficaz e de acordo com aquilo que o cliente pretende, sem nunca perder de vista as exigências de qualidade linguística e de tradução. Assim, as empresas de tradução dão muita importância à formação ou experiência em gestão de projectos ao formar as suas equipas.

Programa

  1. O que faz um gestor de projectos?
  2. O que é necessário saber para gerir projectos?
  3. O que é um projecto de tradução
  4. Como gerir o tempo
  5. Como gerir a informação
  6. Como gerir clientes
  7. Como gerir as equipas de tradução
  8. Gestão de qualidade
  9. Gestão financeira dos projectos de tradução
  10. Os perigos da gestão de projectos
  11. Como gerir o gestor de projectos
  12. Ferramentas e recursos para gestores de projectos

Cursos de tradução na Escola de Verão da FCSH

FCSH

Como já é habitual, participo na Escola de Verão da FCSH deste ano com alguns cursos sobre tradução. São três:

  • De 4 de Julho a 15 de Julho, a prof.ª Isabel Araújo Branco e eu daremos o curso Tradução de Espanhol.  Este curso destina-se a tradutores, estudantes de tradução e interessados que sintam necessidade de formação em tradução de espanhol para português. Tem como objectivo dar uma formação inicial, partindo da prática da tradução de textos em várias áreas.
  • De 18 a 23 de Julho, David Hardisty e eu daremos o curso Trabalhar Melhor com Ferramentas de Tradução (memoQ 2015 e Trados 2015)Muitos tradutores têm um conhecimento básico das ferramentas de tradução, mas não as conhecem a fundo. Este curso pretende dar conhecimentos mais aprofundados desse instrumento essencial a qualquer tradutor: o software de gestão de memórias de tradução. Inclui: como trabalhar em projectos Trados usando o memoQ (e vice-versa); como poupar tempo com as nossas ferramentas; como garantir a qualidade do nosso trabalho; como preparar ficheiros PDF para tradução.
  • De 5 a 10 de Setembro, darei o curso Gestão de Projectos de Tradução. A gestão de projetos é uma peça fundamental no mundo da tradução actual. Se o mesmo é claro no caso das empresas de tradução, a verdade é que mesmo um tradutor individual deve conhecer técnicas e ferramentas de gestão de projetos que permitam organizar os seus projetos de forma a não falhar prazos, garantir qualidade e tirar partido dos recursos à sua disposição. Este curso pretende dar formação inicial nesta área a tradutores e interessados.

Dúvidas sobre tradução certificada em notário

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As traduções certificadas em notário são um tipo especial de tradução.

Costumo passar bastante tempo a explicar as suas particularidades aos meus alunos de Prática da Tradução, porque este tipo de tradução é arriscado para o tradutor — e muitos dos primeiros trabalhos dos tradutores mais jovens costumam ser certificados em notários (traduções para amigos e conhecidos que vão emigrar, por exemplo).

Reparem no perigo: tradutores com pouca experiência abalançam-se para um tipo de tradução que apresenta mais riscos do que o habitual. É por isso que é mesmo muito importante alertar os futuros tradutores para esses mesmos riscos.

Bem, mas hoje quero deixar-vos um texto virado para os clientes. É um texto que escrevi há alguns anos e publiquei num blogue da empresa onde trabalho. Lembrei-me dele hoje quando o vi publicado numa página de Facebook sobre tradução. Chamou-me a atenção por não conter o nome do autor — acreditem que comecei a ler interessado até começar a franzir os olhos: “espera lá, mas eu já li isto noutro lado qualquer”. Continuei a ler até se fazer luz: “espera lá, fui eu que escrevi isto”. A internet tem destas surpresas curiosas.

O gestor da página garantiu-me que foi um erro e corrigiu-o prontamente. Mas por causa do incidente, reparei que ainda não tinha deixado o tal texto neste blogue em que também falo de tradução e, assim, aqui o têm. É um texto um pouco seco, mas espero que vos seja útil.


Muitos dos nossos clientes pedem-nos aquilo que chamam “traduções certificadas” (também chamadas de “traduções autenticadas”).

Este tipo de tradução levanta algumas dúvidas.

“O que é uma tradução certificada?”

Uma tradução certificada, em Portugal, consiste num documento notarial (que pode ser emitido por um advogado), que certifica a identidade da pessoa que se apresenta como tradutor; já o tradutor assegura a fidelidade da tradução ao original apresentado.

A tradução certificada consiste num conjunto de três peças (a ordem pode não ser sempre a mesma):

  • A declaração do notário e do tradutor, assinada e carimbada.
  • O original, assinado e carimbado pelo tradutor e notário.
  • A tradução, assinada e carimbada pelo tradutor e notário.

“Existem tradutores ajuramentados em Portugal?”

Em Portugal, não existem tradutores ajuramentados. O tradutor deve responsabilizar-se pela tradução perante um notário ou advogado. É esse o serviço que prestamos: entregamos ao cliente a tradução certificada em notário ou advogado. O serviço cobrado inclui: tradução, certificação em notário ou advogado e deslocação.

“Devo usar uma fotocópia certificada?”

A tradução certificada fica anexada ao documento original apresentado pelo cliente, sendo o conjunto assinado pelo tradutor e notário e ainda carimbado por este último. Para evitar “estragar” os documentos originais, é aconselhável usar uma fotocópia certificada como original da tradução. Também é possível usar uma fotocópia simples, mas a tradução certificada poderá, depois, ser recusada na entidade que a solicitou.

“A tradução certificada em Portugal serve para o que preciso?”

Os casos são muito diferentes entre si e é difícil dar uma resposta única. Há aqui várias opções, que o cliente deve conhecer, optando pela mais adequada para o seu caso em particular. Em caso de dúvida, contacte a entidade que solicita o documento, pedindo informações sobre os seus requisitos.

  • Tradução certificada em notário, em Portugal. Este tipo de certificação é válida em Portugal. No estrangeiro, poderá não ser aceite.
  • Tradução certificada em notário, em Portugal, com a certificação traduzida para a língua do país de destino da tradução ou para inglês. O documento do notário pode ser traduzido para outra língua. Nem todos os notários prestam este serviço.
  • Tradução certificada em notário, em Portugal, com Apostilha de Haia. A Apostilha de Haia é solicitada junto da Procuradoria-Geral da República e certifica a legalidade do documento notarial junto de entidades de países que assinaram a Convenção de Haia. Atenção: se o documento a traduzir for um documento oficial que necessite, só por si, da apostilha, pode ser necessário pedir duas apostilhas: para a tradução e para o original.
  • Tradução certificada junto da embaixada do país de destino da tradução. Este processo é necessário para países que não assinaram a Convenção de Haia que regula a Apostilha. Nalguns casos, os países exigem certificação em notário, uma certificação intermédia numa Câmara de Comércio ou no Ministério dos Negócios Estrangeiros português e ainda a certificação em Embaixada (ou uma combinação destes passos).

Só mesmo sabendo qual o país e o destino do documento será possível perceber a melhor forma de obter uma certificação adequada.

“Posso pedir uma tradução certificada só para garantir a qualidade da tradução?”

Não deve: a certificação nada diz sobre a qualidade do tradutor ou tradução. Apenas certifica legalmente a autoria da tradução; por sua vez, o tradutor garante a fidelidade da tradução. Ora, em certos projectos, é necessário realizar adaptações, cumprir instruções do clientes, etc., e nada disso pode ser feito numa tradução certificada, em que a fidelidade é o único valor importante (por exemplo, se o original contiver um erro ortográfico no nome de alguma pessoa, esse erro deve ser preservado na tradução, o que não acontece noutro tipo de projectos de tradução).


Há muito mais dúvidas sobre este tema. Voltarei a ele um destes dias.

E quando o tradutor é mais importante do que o autor?

Já aqui falei dum cartaz de teatro sem o nome da tradutora. E quantos livros não há por aí em que o nome do tradutor não aparece senão na ficha técnica? Conheço também livros (normalmente traduzidos para o inglês) onde nem na ficha técnica põem o nome de quem os traduziu. Agora, nós por cá temos esta originalidade: um livro em que, na capa, aparece apenas o nome do tradutor, relegando o autor para a ficha técnica.

E esta, hein?

Spotlight ou o melhor de nós

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É uma reacção possível ao filme Spotlight: vemos aqueles jornalistas e ficamos admirados como gente comum consegue viver uma profissão de forma tão apaixonada, rigorosa e dedicada. Eles sabem o valor da sua profissão para a sociedade e não se deixam esmorecer pelos problemas circunstanciais que todos temos. São uma espécie de ideal realista para qualquer jornalista. Nem todos podem ser assim, mas todos podem tentar ser assim. Assim, como? Vejam o filme.

Pois, por estes dias em que estou quase a estrear-me numa outra profissão (bem, não é bem uma profissão — depois conto), penso nisto: como tentar ser melhor todos os dias? Como descobrir o valor do que fazemos para os outros?

Isto aplica-se a todos nós. E todos sentimos, mais tarde ou mais cedo, a tentação de não pensar nisso. De fazer porque sim. Porque tem de ser. Porque sempre fizemos assim.

Ora, penso: trabalho como gestor numa empresa de tradução. O que faz a empresa? Resolve problemas linguísticos dos clientes. Prosaico? Talvez. Mas muito útil. Sou tradutor. O que faço? Crio textos na minha língua que são importantes para alguém. Sou também professor. O que faço? Ensino e tento ajudar os alunos para que estejam preparados para o que vem aí.

Também escrevo neste blogue. Não é uma profissão, mas tenho quem me leia, o que é suficiente para sentir algum peso. O que tento fazer? Tento que os leitores pensem um pouco e, se possível, se divirtam.

Enfim, podia continuar. Todos nós somos várias coisas e todos nos cansamos, mais cedo ou mais tarde. É, por isso, muito bom haver quem faça um bom filme, que nos ajuda a trabalhar melhor, mesmo quando aquilo que fazemos nada tem a ver com a história desse filme. Um filme verdadeiramente inspirador.

As comerciantes, os editores, as médicas, os secretários, as advogadas, os pilotos, as empregadas de balcão, os jardineiros: todos podemos sempre fazer melhor e, embora seja mais fácil encontrar o valor da profissão nuns casos do que noutros, todos conseguimos dizer porque é importante haver quem faça o que fazemos — até mesmo nos casos em que não gostamos da nossa própria profissão. Acho mais fácil aguentar uma profissão de que não gostamos mas que é útil para alguém do que uma profissão na qual não acreditamos. (É verdade: não consigo, por mais voltas que o mundo dê, imaginar-me a ser astrólogo, tarólogo, e outros que tais…)

E é tudo. Este post saiu fraquinho: uma recomendação para verem um filme, uma vaga reflexão sobre profissões, um desafio… Amanhã farei melhor.

Cinco artigos úteis para quem escreve em português

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Já que este blogue teve uma inundação de novos assinantes nos últimos dois dias, lembrei-me de criar uma lista de alguns artigos do blogue que me parecem úteis para quem escreve em português.

  1. «Três passos para escrever melhor em português» Antes de mais, uma advertência: se acha possível escrever bem seguindo uma receita qualquer, ainda por cima em três míseros passos, pode ir tirar o cavalo da chuva. Depois de ler este pobre artigo não vai ficar a saber escrever bem — mas talvez consiga escrever um pouco melhor. Gostava ainda de avisar os incautos que querem … [Continue a ler]typewriter-801921_1280
  2. «Cinco truques para desemperrar a escrita» Hoje em dia, todos escrevemos imenso: na nossa vida profissional, na nossa vida pessoal — às vezes, até por prazer (como é o meu caso, quando me ponho a escrevinhar neste blogue). Ora, nem sempre estamos para aí virados: ou estamos cansados, ou não temos ideias, ou achamos que tudo vai sair mal — ou talvez até … [Continue a ler]
  3. «Como criar um blogue em português» Uma amiga minha perguntou-me que sítio recomendo para criar um blogue. Ora, que melhor sítio para responder a esta pergunta do que um blogue? Assim, aqui ficam as minhas quatro sugestões de plataformas para quem quer começar a escrever até que os dedos lhe doam: O Blogger.com é a plataforma clássica e muitos dos grandes blogues portugueses … [Continue a ler]interview-851440_1920
  4. «Cinco armadilhas do e-mail» Hoje apetece-me falar do e-mail. Não é fácil, digo-vos já. É como falar do dentista: não deixa de ser útil, mas há sempre coisas mais interessantes para discutir. E, no entanto, convém ir ao dentista — e convém pensar no e-mail. É por e-mail que escrevemos, hoje, tanta e tanta coisa. É por e-mail que recebemos notícias, … [Continue a ler]
  5. «Sete dicas para rever as nossas próprias traduções» (Este é um artigo escrito a pensar nos tradutores, mas que pode ser útil para todos os que querem rever os seus próprios textos.) Antes de mais, um conselho. Ou melhor, um pedido muito insistente. É o que lhe quiserem chamar: importante mesmo é ler as nossas traduções no fim. Ora, não é fácil. No fim da tradução, estamos cansados. Provavelmente, o prazo está a chegar ao fim. Estamos enjoados do texto. Já não conseguimos ver aquilo à frente. Ainda … [Continue a ler]

Espero que gostem!

Sexo obrigatório? (O diabo da tradução está na estrutura das frases…)

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Quando traduzimos entre línguas latinas, a interpretação da estrutura da frase não é o nosso pior problema. Os problemas mais graves são outros: os falsos amigos, as interferências sintácticas e por aí fora.

(A quem está neste momento a perguntar onde raios pára o sexo neste artigo, gostaria de dizer: tende paciência, lá chegaremos.)

Já na tradução de inglês para português, o diabo está mesmo na interpretação da estrutura das frases. O tradutor tem de estar muito atento e perceber mesmo o que está a traduzir: não basta entrar em modo de tradução mecânica, que para isso já temos o nosso amigo Google Translate, que está cada vez melhor a fazer más traduções.

Um exemplo extremo será o caso da tradução de português para inglês da expressão “gestão, operação e manutenção da rede MPLS-TP”. Pode parecer simples, mas um tradutor apanhado num momento mais distraído pode acabar por fazer algo do género:

Management, operation and network maintenance MPLS-TP

Obviamente, uma tradução mais correcta seria:

MPLS-TP network management, operation and maintenance

(“Mas alguém faria um disparate destes?” Sim, eu sei, todos nós achamos sempre que nunca faríamos tão desabrido disparate. Mas não se esqueçam que os tradutores têm de interpretar centenas ou milhares de frases destas por dia. Nem sempre é assim tão fácil…)

Outro caso, desta vez no que toca à tradução entre inglês e português:

European packaging recovery and recycling targets are reviewed every five years.

A leitura em inglês parece fácil. Mas muitos tradutores, numa tradução apressada, podem meter os pés pelas mãos: será que estamos a falar de recuperação de embalagens europeia e objectivos de reciclagem? Ou serão objectivos europeus de reciclagem e recuperação de embalagens?

Uma reflexão rápida permite chegar a conclusões, mas a rapidez com que muitos de nós traduz leva ao disparate (de que ninguém está livre!).

Tradução errada:

A reutilização de embalagens e os objectivos da reciclagem na Europa são revistos a cada 5 anos.

Proposta de tradução mais correcta:

Os objectivos europeus de recuperação e reciclagem de embalagens são revistos a cada 5 anos.

Isto porque a estrutura da frase original, bem interpretada, será algo como

[European [packaging [recovery and recycling]] targets] are reviewed every five years.

e não

[European packaging recovery] and [recycling targets] are reviewed every five years.

Quando a ambiguidade está presente no original, uma boa estratégia será inverter a frase completamente.

Por exemplo:

European banks and indebted countries….

Será que estamos a falar de bancos europeus por um lado e países endividados por outro? Ou será que estamos a falar dos países endividados e bancos — todos eles europeus? Se o original não permitir esclarecer, podemos tentar manter a ambiguidade invertendo toda a expressão:

Os países endividados e os bancos europeus…

Se em vez de “banks” tivéssemos “institutions”, a coisa seria mais complicada, porque teríamos de escolher entre o feminino e o masculino no adjectivo, mas mesmo assim esta solução é útil em muitos casos.

Então e afinal onde está o sexo obrigatório nesta salganhada de más traduções? Ora, este problema da estrutura das frases pode levar a traduções embaraçosas, como aconteceria se um tradutor mais distraído encontrasse este parágrafo de um artigo do The Guardian sobre o sexismo na indústria musical dos EUA:

This week, a tipping point has been reached. Lily Allen launched the video to her comeback single, Hard Out Here, which takes aim at music industry sexism with specific reference to the Blurred Lines video. And three women’s organisations launched the Rewind&Reframe campaign, with a four-pronged strategy: to enable young women to air their grievances about music videos, to campaign for age ratings on videos, to encourage compulsory sex and relationship education in schools, and to pressure the music industry to get its house in order.

Se não interpretarmos bem esta frase (ou se formos tradutores muito perversos) podemos traduzir isto como “encorajar o sexo obrigatório e a educação sobre relações pessoais nas escolas”.

Obviamente, a tradução correcta seria algo como “promover a obrigatoriedade da educação sexual e sobre relações pessoais nas escolas”.

Teríamos ainda de mexer um pouco naquele “sobre” ali enfiado a martelo e nas “relações pessoais” (será essa a tradução certa?), mas já vamos no caminho certo.

Portanto, a interpretação errada da estrutura será esta:

to encourage [[compulsory sex] and [relationship education]] in schools

e a interpretação correcta será:

to encourage [compulsory [sex and relationship education]] in schools

Sim, o título prometia algo mais interessante, eu sei. Mas, mesmo pouco interessante, espero que vos seja útil.

Texto escrito originalmente em Dezembro de 2013 para outro blogue.

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