Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Categoria: Tradução (Página 1 de 6)

Feliz Dia do Tradutor

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A tradução não é impossível (ou como António Lobo Antunes também se engana)

Na última crónica da Visão, António Lobo Antunes elogia o livro de poemas Sombras e Falésias, do poeta romeno Dinu Flamand. Logo a seguir, elogia também a tradução. Mas acrescenta: a tradução é como um retrato — é aquilo e não é aquilo. Daí que — conclui — «qualquer tradução de uma obra seja impossível, qualquer retrato imperfeito».

Esta última frase é um pouco exagerada. Da imperfeição à impossibilidade vai um universo de distância. Sim, os retratos não substituem as pessoas — mas não são impossíveis: são retratos! As traduções também são muitas vezes imperfeitas, mas serão mesmo impossíveis? Estará um leitor a enganar-se quando lê uma tradução?

Ah, respondem-me: Lobo Antunes quer apenas dizer que a tradução implica perdas. Talvez implique — mas também implica um ganho para muitos leitores. Reparem: será que António Lobo Antunes lerá melhor aquele livro no original romeno do que se o ler em tradução? Já o ouvi dizer em entrevistas que gostava de saber russo para ler no original os grandes escritores da Rússia — compreendo-o perfeitamente. Mas se os lesse em russo, a não ser que passasse anos e anos a estudar, iria talvez perceber menos do que quando lês as traduções.

Outra maneira de dizer o mesmo: não será verdade que um leitor português que leia Shakespeare em tradução percebe mais do que um inglês comum que leia os textos no inglês original? Então se compararmos a leitura da tradução com a leitura do original por parte do mesmo português… O trabalho do tradutor está ali a aproximar-nos da obra, uma obra de que estamos distantes por razões linguísticas, culturais, temporais…

Como António Lobo Antunes diz na mesma crónica: «Um poema, por exemplo, é mais do que um poema, uma mulher ou um homem é mais do que uma mulher ou um homem. Falta sempre algo vital que é inapreensível e esse inapreensível, e só esse inapreensível, é verdadeiro.»

Ora, isto é assim mesmo: há muito que não conseguimos dizer, há muito que não conseguimos ler. Mas o problema não é a tradução: é a vida, é a linguagem. Não é por lermos uma tradução que não chegamos ao âmago do livro, ao espírito do autor, à essência da obra — esse âmago, esse espírito, essa essência também dificilmente estão acessíveis aos leitores do original.

Sim, os tradutores, com o seu trabalho de leitura e reescritura, enganam-se algumas vezes. Mas não se esqueçam que são os únicos leitores que mostram ao mundo a leitura que fazem. Quantos leitores do original não se enganam sem que ninguém saiba, nem eles próprios? Por outro lado, quando lemos uma tradução estamos a ler o que não leríamos doutra maneira. E isso vale muito.

O curioso é que Lobo Antunes dá muito valor aos tradutores: afinal, já dedicou um dos seus livros a uma das suas tradutoras. Enfim, o escritor enganou-se numa frase. Mas quem nos dera a nós enganarmo-nos tão bem como ele, que é um cronista como não há nenhum.

Traduzir também implica escolher o sexo do primeiro-ministro

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Estive a ver o primeiro episódio duma nova série americana: Sobrevivente Designado. Um ataque terrorista durante o discurso do Estado da União mata toda a estrutura de governo dos E.U.A. Morre o presidente, o vice-presidente, os ministros e todos os congressistas. Ah, e ainda os juízes do Supremo Tribunal, para não se ficarem a rir.

Todos, não: há sempre um ministro que se mantém escondido para que os E.U.A. não fiquem sem governo em caso de ataque (e é mesmo verdade: esse sobrevivente designado existe na vida real).

Ora, mas nada disto interessa. Aliás, interessa, mas vejam antes a série, que um post num blogue não é substituto para tal prazer.

O que me traz aqui é outra coisa: a certa altura, o tal sobrevivente designado, entretanto alçado a presidente, recebe um telefonema de condolências do «prime-minister», que todos percebemos ser o chefe de governo do Reino Unido.

O tradutor fez uma coisa engraçada: traduziu por «primeira-ministra». Nada a apontar, claro. Afinal, hoje temos mesmo uma primeira-ministra em Londres — mas imagino que, tivesse a série sido lançada em Maio, a tradução teria sido «primeiro-ministro».

Isto é apenas para vos apontar um aspecto pouco conhecido do trabalho de tradução: às vezes, temos de definir algo que, no original, é ambíguo — e tudo por causa da maneira como cada língua funciona. Há certas ambiguidades que o tradutor tem de resolver — e por isso a tradução implica quase sempre fazer escolhas. Estas escolhas podem ser discutíveis, claro está — mas não há tradutor que lhes possa escapar.


Lembrei-me agora doutro caso em que o tradutor tem de escolher o sexo do primeiro-ministro britânico. Num dos livros de Ian McEwan — The Child in Time — há uma personagem chamada «prime-minister».

O livro foi publicado nos anos 80, mas passava-se num futuro pouco distante (se bem me lembro, no final dos anos 90). O sexo do primeiro-ministro era importante: será que nesse futuro Margaret Thatcher ainda seria a primeira-ministra? De certa maneira, a leitura mais ou menos política da obra dependia desse pormenor — mas Ian McEwan nunca dá a resposta. Já a tradutora portuguesa teve mesmo de fazer a sua escolha…

Feliz Dia do Tradutor!

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Já agora, não percam a sessão de comemoração na FCSH.

Dia do Tradutor | Aula Aberta

Esta sexta-feira, comemoramos o Dia de São Jerónimo, que por isso mesmo é também o Dia do Tradutor. Para lembrar esse dia, haverá uma aula aberta na FCSH/NOVA, com participação de tradutores, professores de tradução e empresas da APET. O tema será o valor da tradução e vamos falar de tradução literária, tradução empresarial, tecnologia de tradução e muito mais.

A aula começa às 14h, termina às 16h, será no Auditório 2 da FCSH — e é aberta a todos os interessados.

Até sexta!

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Curso de Gestão de Projectos de Tradução na FCSH

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Durante a próxima semana, irei dar um curso presencial de 25 horas sobre gestão de projectos de tradução integrado na Escola de Verão da FCSH/NOVA.

O curso está pensado para tradutores que queiram melhorar os seus procedimentos de trabalho ou iniciar uma carreira na gestão de projectos.

As inscrições fazem-se no formulário online da Escola de Verão.

Aqui ficam mais informações sobre o curso:

CURSO DE GESTÃO DE PROJECTOS DE TRADUÇÃO

Datas: 5 a 10 de setembro | segunda a sexta das 18h00 às 22h00 e sábado das 10h00 às 14h00 | Avaliação (opcional) das 15h00 às 16h00 de sábado

Docente: Marco Neves

Áreas: Línguas, Literaturas e Culturas

Creditação para professores dos 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário

A gestão de projectos é uma peça fundamental no mundo da tradução actual. Mesmo um tradutor individual deve conhecer técnicas e ferramentas de gestão de projectos que permitam organizar os seus projetos de forma a não falhar prazos, a garantir qualidade e a tirar partido dos recursos à sua disposição.

No âmbito de uma empresa de tradução, o gestor de projectos é a face da empresa perante o cliente e é ainda quem garante que os projectos são feitos com a qualidade e a rapidez exigidas. Deve gerir os recursos à disposição da empresa de forma rápida, eficaz e de acordo com aquilo que o cliente pretende, sem nunca perder de vista as exigências de qualidade linguística e de tradução. Assim, as empresas de tradução dão muita importância à formação ou experiência em gestão de projectos ao formar as suas equipas.

Programa

  1. O que faz um gestor de projectos?
  2. O que é necessário saber para gerir projectos?
  3. O que é um projecto de tradução
  4. Como gerir o tempo
  5. Como gerir a informação
  6. Como gerir clientes
  7. Como gerir as equipas de tradução
  8. Gestão de qualidade
  9. Gestão financeira dos projectos de tradução
  10. Os perigos da gestão de projectos
  11. Como gerir o gestor de projectos
  12. Ferramentas e recursos para gestores de projectos

Cursos de tradução na Escola de Verão da FCSH

FCSH

Como já é habitual, participo na Escola de Verão da FCSH deste ano com alguns cursos sobre tradução. São três:

  • De 4 de Julho a 15 de Julho, a prof.ª Isabel Araújo Branco e eu daremos o curso Tradução de Espanhol.  Este curso destina-se a tradutores, estudantes de tradução e interessados que sintam necessidade de formação em tradução de espanhol para português. Tem como objectivo dar uma formação inicial, partindo da prática da tradução de textos em várias áreas.
  • De 18 a 23 de Julho, David Hardisty e eu daremos o curso Trabalhar Melhor com Ferramentas de Tradução (memoQ 2015 e Trados 2015)Muitos tradutores têm um conhecimento básico das ferramentas de tradução, mas não as conhecem a fundo. Este curso pretende dar conhecimentos mais aprofundados desse instrumento essencial a qualquer tradutor: o software de gestão de memórias de tradução. Inclui: como trabalhar em projectos Trados usando o memoQ (e vice-versa); como poupar tempo com as nossas ferramentas; como garantir a qualidade do nosso trabalho; como preparar ficheiros PDF para tradução.
  • De 5 a 10 de Setembro, darei o curso Gestão de Projectos de Tradução. A gestão de projetos é uma peça fundamental no mundo da tradução actual. Se o mesmo é claro no caso das empresas de tradução, a verdade é que mesmo um tradutor individual deve conhecer técnicas e ferramentas de gestão de projetos que permitam organizar os seus projetos de forma a não falhar prazos, garantir qualidade e tirar partido dos recursos à sua disposição. Este curso pretende dar formação inicial nesta área a tradutores e interessados.

Dúvidas sobre tradução certificada em notário

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As traduções certificadas em notário são um tipo especial de tradução.

Costumo passar bastante tempo a explicar as suas particularidades aos meus alunos de Prática da Tradução, porque este tipo de tradução é arriscado para o tradutor — e muitos dos primeiros trabalhos dos tradutores mais jovens costumam ser certificados em notários (traduções para amigos e conhecidos que vão emigrar, por exemplo).

Reparem no perigo: tradutores com pouca experiência abalançam-se para um tipo de tradução que apresenta mais riscos do que o habitual. É por isso que é mesmo muito importante alertar os futuros tradutores para esses mesmos riscos.

Bem, mas hoje quero deixar-vos um texto virado para os clientes. É um texto que escrevi há alguns anos e publiquei num blogue da empresa onde trabalho. Lembrei-me dele hoje quando o vi publicado numa página de Facebook sobre tradução. Chamou-me a atenção por não conter o nome do autor — acreditem que comecei a ler interessado até começar a franzir os olhos: “espera lá, mas eu já li isto noutro lado qualquer”. Continuei a ler até se fazer luz: “espera lá, fui eu que escrevi isto”. A internet tem destas surpresas curiosas.

O gestor da página garantiu-me que foi um erro e corrigiu-o prontamente. Mas por causa do incidente, reparei que ainda não tinha deixado o tal texto neste blogue em que também falo de tradução e, assim, aqui o têm. É um texto um pouco seco, mas espero que vos seja útil.


Muitos dos nossos clientes pedem-nos aquilo que chamam “traduções certificadas” (também chamadas de “traduções autenticadas”).

Este tipo de tradução levanta algumas dúvidas.

“O que é uma tradução certificada?”

Uma tradução certificada, em Portugal, consiste num documento notarial (que pode ser emitido por um advogado), que certifica a identidade da pessoa que se apresenta como tradutor; já o tradutor assegura a fidelidade da tradução ao original apresentado.

A tradução certificada consiste num conjunto de três peças (a ordem pode não ser sempre a mesma):

  • A declaração do notário e do tradutor, assinada e carimbada.
  • O original, assinado e carimbado pelo tradutor e notário.
  • A tradução, assinada e carimbada pelo tradutor e notário.

“Existem tradutores ajuramentados em Portugal?”

Em Portugal, não existem tradutores ajuramentados. O tradutor deve responsabilizar-se pela tradução perante um notário ou advogado. É esse o serviço que prestamos: entregamos ao cliente a tradução certificada em notário ou advogado. O serviço cobrado inclui: tradução, certificação em notário ou advogado e deslocação.

“Devo usar uma fotocópia certificada?”

A tradução certificada fica anexada ao documento original apresentado pelo cliente, sendo o conjunto assinado pelo tradutor e notário e ainda carimbado por este último. Para evitar “estragar” os documentos originais, é aconselhável usar uma fotocópia certificada como original da tradução. Também é possível usar uma fotocópia simples, mas a tradução certificada poderá, depois, ser recusada na entidade que a solicitou.

“A tradução certificada em Portugal serve para o que preciso?”

Os casos são muito diferentes entre si e é difícil dar uma resposta única. Há aqui várias opções, que o cliente deve conhecer, optando pela mais adequada para o seu caso em particular. Em caso de dúvida, contacte a entidade que solicita o documento, pedindo informações sobre os seus requisitos.

  • Tradução certificada em notário, em Portugal. Este tipo de certificação é válida em Portugal. No estrangeiro, poderá não ser aceite.
  • Tradução certificada em notário, em Portugal, com a certificação traduzida para a língua do país de destino da tradução ou para inglês. O documento do notário pode ser traduzido para outra língua. Nem todos os notários prestam este serviço.
  • Tradução certificada em notário, em Portugal, com Apostilha de Haia. A Apostilha de Haia é solicitada junto da Procuradoria-Geral da República e certifica a legalidade do documento notarial junto de entidades de países que assinaram a Convenção de Haia. Atenção: se o documento a traduzir for um documento oficial que necessite, só por si, da apostilha, pode ser necessário pedir duas apostilhas: para a tradução e para o original.
  • Tradução certificada junto da embaixada do país de destino da tradução. Este processo é necessário para países que não assinaram a Convenção de Haia que regula a Apostilha. Nalguns casos, os países exigem certificação em notário, uma certificação intermédia numa Câmara de Comércio ou no Ministério dos Negócios Estrangeiros português e ainda a certificação em Embaixada (ou uma combinação destes passos).

Só mesmo sabendo qual o país e o destino do documento será possível perceber a melhor forma de obter uma certificação adequada.

“Posso pedir uma tradução certificada só para garantir a qualidade da tradução?”

Não deve: a certificação nada diz sobre a qualidade do tradutor ou tradução. Apenas certifica legalmente a autoria da tradução; por sua vez, o tradutor garante a fidelidade da tradução. Ora, em certos projectos, é necessário realizar adaptações, cumprir instruções do clientes, etc., e nada disso pode ser feito numa tradução certificada, em que a fidelidade é o único valor importante (por exemplo, se o original contiver um erro ortográfico no nome de alguma pessoa, esse erro deve ser preservado na tradução, o que não acontece noutro tipo de projectos de tradução).


Há muito mais dúvidas sobre este tema. Voltarei a ele um destes dias.

E quando o tradutor é mais importante do que o autor?

Já aqui falei dum cartaz de teatro sem o nome da tradutora. E quantos livros não há por aí em que o nome do tradutor não aparece senão na ficha técnica? Conheço também livros (normalmente traduzidos para o inglês) onde nem na ficha técnica põem o nome de quem os traduziu. Agora, nós por cá temos esta originalidade: um livro em que, na capa, aparece apenas o nome do tradutor, relegando o autor para a ficha técnica.

E esta, hein?

Spotlight ou o melhor de nós

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É uma reacção possível ao filme Spotlight: vemos aqueles jornalistas e ficamos admirados como gente comum consegue viver uma profissão de forma tão apaixonada, rigorosa e dedicada. Eles sabem o valor da sua profissão para a sociedade e não se deixam esmorecer pelos problemas circunstanciais que todos temos. São uma espécie de ideal realista para qualquer jornalista. Nem todos podem ser assim, mas todos podem tentar ser assim. Assim, como? Vejam o filme.

Pois, por estes dias em que estou quase a estrear-me numa outra profissão (bem, não é bem uma profissão — depois conto), penso nisto: como tentar ser melhor todos os dias? Como descobrir o valor do que fazemos para os outros?

Isto aplica-se a todos nós. E todos sentimos, mais tarde ou mais cedo, a tentação de não pensar nisso. De fazer porque sim. Porque tem de ser. Porque sempre fizemos assim.

Ora, penso: trabalho como gestor numa empresa de tradução. O que faz a empresa? Resolve problemas linguísticos dos clientes. Prosaico? Talvez. Mas muito útil. Sou tradutor. O que faço? Crio textos na minha língua que são importantes para alguém. Sou também professor. O que faço? Ensino e tento ajudar os alunos para que estejam preparados para o que vem aí.

Também escrevo neste blogue. Não é uma profissão, mas tenho quem me leia, o que é suficiente para sentir algum peso. O que tento fazer? Tento que os leitores pensem um pouco e, se possível, se divirtam.

Enfim, podia continuar. Todos nós somos várias coisas e todos nos cansamos, mais cedo ou mais tarde. É, por isso, muito bom haver quem faça um bom filme, que nos ajuda a trabalhar melhor, mesmo quando aquilo que fazemos nada tem a ver com a história desse filme. Um filme verdadeiramente inspirador.

As comerciantes, os editores, as médicas, os secretários, as advogadas, os pilotos, as empregadas de balcão, os jardineiros: todos podemos sempre fazer melhor e, embora seja mais fácil encontrar o valor da profissão nuns casos do que noutros, todos conseguimos dizer porque é importante haver quem faça o que fazemos — até mesmo nos casos em que não gostamos da nossa própria profissão. Acho mais fácil aguentar uma profissão de que não gostamos mas que é útil para alguém do que uma profissão na qual não acreditamos. (É verdade: não consigo, por mais voltas que o mundo dê, imaginar-me a ser astrólogo, tarólogo, e outros que tais…)

E é tudo. Este post saiu fraquinho: uma recomendação para verem um filme, uma vaga reflexão sobre profissões, um desafio… Amanhã farei melhor.

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