Chego à minha secretária, ligo o computador e passo 30 minutos a olhar para o Windows a actualizar-se sozinho. Pelo segundo dia consecutivo!

Confesso que isto enerva muito, principalmente quando temos traduções a fazer e mensagens a responder.

As mãos ficam nervosas, caio na tentação de responder a mensagens de email pelo telemóvel (nunca é boa ideia: a escrita inteligente faz-nos passar por burros muitas vezes) e, por fim, desisto, levanto-me um pouco, volto atrás, olho para o ecrã, desespero mais um pouco…

… até que, misteriosamente, a actualização passa dos 30% para os 100%, o computador desliga-se, liga-se de novo e fica pronto a trabalhar.

Quero gritar ao bicho: “agora, já não me apetece!”

Apetece-me antes ir passear — e mandar os engenheiros da Microsoft ir passear comigo.

Há maior perda de tempo do que esta?

Para dizer a verdade, há. Estes trinta minutos de impaciência são uma boa ideia. Porquê? Vejam a quarta sugestão abaixo.

Deixem-me explicar-vos por que razão vos contei este banal episódio informático. Na vida dum tradutor, os caprichos do seu computador têm um impacto grande na nossa capacidade de trabalhar, na nossa motivação e, no fim de contas, na qualidade do trabalho produzido.

Por isso, é muito importante ter um computador a trabalhar que nem um relógio — ou, pelo menos, um computador que não pareça arrastar-se como uma carroça arrastada por burros velhos.

Aqui ficam cinco dicas para manter o nosso computador a trabalhar de forma rápida e eficiente:

1. Não usar o computador de trabalho para mais nada

Obviamente, esta dica depende muito da saúde das nossas carteiras. Mas, a médio prazo, será um bom investimento separar o computador de trabalho do computador que usamos para tudo o resto (por exemplo, para emprestar aos filhos).

Aliás, não será uma péssima ideia trabalhar num computador de secretária que nos obrigue a trabalhar bem sentados, com boa luz e uma boa cadeira. Afinal, os computadores de secretária são mais baratos do que os portáteis.

Com o que poupamos ao não comprar um portátil, podemos comprar umtablet barato para navegar, jogar, instalar aplicações sem medo e emprestar aos filhos.

Claro que o tradutor fica sem maneira de traduzir na praia ou no café. Mas convém pesar as vantagens e desvantagens: pelo preço de um portátil, conseguimos um computador de secretária bem mais rápido…

Enfim, cada um terá de encontrar a melhor solução, mas fica a dica: tenham um computador só para o trabalho.

2. Nunca emprestar o computador do trabalho a filhos, sobrinhos e filhos de amigos

Porquê?

Porque as escolas são viveiros de todas as infecções informáticas que por aí andam.

Uma pen que venha duma escola é uma arma biológica atirada contra o nosso computador.

As crianças e adolescentes sabem usar muito bem os computadores, mas têm um pouco mais de dificuldade em distinguir entre sites seguros e sites que berram “estou a instalar vários vírus e outras doenças manhosas neste pobre computador”.

Ora, se não vem mal ao mundo termos um computador pessoal cheio de constipações, já o computador a partir do qual enviamos ficheiros aos nossos clientes deve ser guardado fora do alcance das crianças…

3. Não instalar nada que não seja absolutamente essencial no computador de trabalho

Quando instalamos alguns dos programas essenciais na nossa vida de tradutores (por exemplo, o Adobe Reader), aparecem umas opções discretas que, se não as desactivarmos, nos enchem o computador de tralha desnecessária.

É habitual encontrar browsers cheios de barras inúteis e computadores a aborrotar de pequenas aplicações sem sentido. Porquê? Apenas porque nos esquecemos de optar por não instalar tudo isso.

Por outro lado, quando temos de instalar um programa qualquer que nos vai servir para resolver um problema raríssimo, talvez seja boa ideia desinstalá-lo no final.

4. Activar as actualizações automáticas do Windows

Ora, cá está. Podemos reclamar, mas convém ter o computador actualizado. A Microsoft costuma lançar umas quantas actualizações por mês — o que nos leva, por vezes, a ter de esperar um pouco antes de começar a trabalhar.

Mas vale a pena: muitas dessas actualizações protegem-nos contra certo tipo de infecções de que nem sequer ouvimos falar.

As actualizações do computador são como as vacinas: um pouco aborrecidas, mas muito importantes.

Se não as fizermos, pode correr tudo bem — ou muito mal. Não arrisquem.

(Já agora, os 30 minutos de que vos falei acima talvez não tenham sido mesmo 30 minutos — terá sido um pouco menos. Mas a impaciência estica o tempo, como sabemos…)

5. Não tentar fazer tudo ao mesmo tempo

Os computadores são máquinas poderosas: muito caprichosas, é certo, mas conseguem fazer muita coisa ao mesmo tempo. Ou, pelo menos, parece.

Na verdade, nem sempre são as máquinas de última geração que gostávamos que fossem. Assim, a melhor forma de perder a paciência é abrir todos os programas e trabalhar em tudo ao mesmo tempo.

Se queremos mesmo rapidez, o melhor será fazer uma coisa de cada vez: não vamos abrir o Outlook, cinco janelas do Chrome (incluindo a nossa página de Facebook), o Trados, o memoQ, o Word, o Internet Explorer (só para aborrecer o Chrome), o OmniPage, a Dropbox e por aí fora.

Idealmente, devemos ainda desactivar os programas que se abrem sozinhos quando ligamos o computador. Mais vale ter aberto apenas o que precisamos a cada momento.

É difícil (eu, por exemplo, não estou a ligar nenhuma a esta dica neste preciso momento) — mas se temos um trabalho urgentíssimo para entregar daqui a umas horas, desligar tudo menos o essencial não só ajuda ao computador, como ajuda o cérebro do tradutor a concentrar-se no trabalho que tem entre mãos.

Para já, ficam estas cinco dicas. Outras virão no futuro, se a tanto ajudar o engenho e a arte (e o tempo, claro está).