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«Portugueses, com certeza!»

Há uns anos, estava numa rua de Londres e vi aproximar-se um casal. Sem pensar muito no caso, virei-me para a minha mulher e disse: «São portugueses, quase de certeza.» Segundos depois, lá começámos a ouvir a nossa língua.

Será que foi apenas um acaso? Não digo que não. Seria preciso fazer a experiência algumas vezes e registar os acertos e os enganos para compreendermos se tenho ou não um talento especial para detectar portugueses.

Desconfio, no entanto, que há mesmo algumas pistas que nos ajudam a perceber se uma pessoa é portuguesa: a forma de se vestir, talvez até a forma de andar, uma certa maneira de rir, pormenores que não conseguimos descrever facilmente, mas que, somados, dão essa impressão e essa quase certeza: «Aquele só pode ser português!»

Imagino que isto aconteça em todos os países — e mesmo em muitas regiões e cidades. Lembro-me de ouvir, há alguns anos, um barcelonês a dizer que sabia distinguir catalães pela forma de inclinar a cabeça. (Será apenas uma falsa impressão de quem tem de se preocupar um pouco mais do que o normal com a sua identidade?)

Portugal numa rua banal

Adiante. Há uns meses, ao passear um pouco por Ponte de Sor (a terra da minha mulher), olhei para uma rua, daquelas ruas indistintas, sem nada de especial, com o seu fatídico café, os carros estacionados, os prédios a vaguear pela arquitectura chapa-cinco dos anos 80, 90 e inícios do século XXI (haverá quem saiba precisar o ano, para mim parece-me tudo igual).

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Não estamos a falar de nenhum monumento nacional, de nenhuma rua famosíssima de Lisboa ou do Porto, nem de uma praia conhecida por todos — é uma rua de quem poucos saberão o nome: talvez os seus próprios moradores, talvez o carteiro, se já tiver alguma experiência.

Não é uma rua característica ou sequer bonita — outras há, em Ponte de Sor, que o são. É, numa palavra, uma rua banal. E, no entanto, olhamos para ela e sentimos de imediato que é uma rua perdida num qualquer recanto de Portugal. O tipo de passeio, os modelos de carro, os postes de iluminação, os telhados, a bicicleta… E nem é preciso reparar no anúncio da Sagres ali no meio.

Há muitos outros elementos que não estão na foto mas também ajudam a compor a banal portugalidade de muitos cantos deste país: os sinais de trânsito, o aspecto das escolas, a maneira de arranjar as bermas, as mesas das esplanadas, a motorizada encostada a um portão — e, claro, o sol mais habitual que por outras paragens, o sabor do vento, o cheiro dos pinhais e tudo aquilo que, de repente, já parece um pouco menos prosaico e talvez um pouco mais digno de ser discutido enquanto elemento de identidade nacional.

O país dos cadernos de encargos

Será que esta impressão indesmentível de estarmos perante uma fotografia de Portugal tem a ver com algum tipo de «alma nacional»?

Não me parece — e fazer este exercício de olhar para uma rua banal e ver nela muito de Portugal ajuda-nos a perder essas ilusões: aquilo que sentimos como sendo português tem a ver com a soma de muitos hábitos, de muitas decisões quase aleatórias. Tem a ver com os hábitos das empresas de construção, com os hábitos das câmaras municipais, com os nossos hábitos, aprendidos entre família, amigos e vizinhos. São decisões e hábitos quase inconscientes, mas acabam por construir, em conjunto, essa sensação de estarmos no nosso país.

Por exemplo, a forma exacta das placas das estradas deve ter sido escolhida há muitos anos através de algum tipo de concurso, em que alguma empresa propôs um certo tipo de letra, um certo material ou qualquer outra especificação que permitisse cumprir o caderno de encargos criado pelo obscuro departamento da Administração Pública que trata dessas coisas.

Sim, estamos no mundo dos cadernos de encargos e não tanto da identidade nacional. Mas tudo isto contribui para a sensação de estarmos em Portugal. A essa sensação acrescentamos depois a História que conhecemos ou imaginamos, a nossa língua (claro está), certas ideias e obsessões. Portugal é isso, mas também as tais pequenas coisas.

Todas essas pequenas coisas são quase invisíveis no dia-a-dia. Só quando saímos e voltamos reparamos em tudo isso que faz parte da imagem que temos do nosso próprio país.

Ver o país com o volante ao contrário ainda quente nas mãos

Senti isso de forma muito marcada quando voltei de Inglaterra há uns anos, depois de ter passado alguns dias por lá com um carro nas mãos. A estranheza de conduzir do outro lado da estrada tinha sido intensa — mas a grande surpresa foi ter pegado no meu carro, em Portugal, e ter batido com a mão na porta, à procura das mudanças no meu lado esquerdo. Durante uns segundos, senti estranheza por conduzir como sempre conduzi.

Ora, não é preciso ir a Inglaterra ou conduzir do lado «errado» durante dias. Sempre que entramos em Portugal, na fronteira ou no aeroporto, somos surpreendidos pela estranheza da nossa própria terra.

A sensação dura apenas alguns segundos — e é durante esses segundos que reparamos na maneira como pintamos os prédios, como esperamos na fila do autocarro, como chamamos os táxis, como falamos uns com os outros. Reparamos, enfim, em tudo o que é banal e faz parte de nós.

Tenho para mim que esse é um dos grandes prazeres de viajar: poder ser, durante alguns momentos, estrangeiro na nossa própria terra.