Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

Sabiam que os piolhos dos nossos filhos são nossos primos?

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Uma das minhas primas.

Ora, já percebi que há certos assuntos que são polémicos: se falo do acordo, é certo e sabido que vou ter gritos no blogue. Se falo do português do Brasil e de como não é uma deturpação da nossa Santa e Virginal Língua — pumba! Pancada da grossa (virtual — é o que vale). Pois descobri nos últimos dias que falar de jogos de computador também é complicado. As emoções ficam à flor da pele. Se me atrever a dizer que os jogos de computador não são um sinal do fim dos tempos, a coisa aquece. O que vale é que essa discussão é entre amigos e fica tudo bem no fim.

Pois agora quero um assunto que não seja polémico! Quero falar de qualquer coisa sem ter de me preparar para combates virtuais!

Vou falar de piolhos.

Conto-vos uma história: há uns meses, falava com uma amiga do perigo que são os piolhos nas escolas dos nossos filhos. Conversa de quem tem filhos há pouco tempo…

Perguntou a minha amiga: mas afinal, donde vêm os piolhos?

Fiquei calado, a tentar perceber que raio de pergunta era aquela.

A medo, disse: «hum, vêm dos outros piolhos…».

E ela: sim, mas esses outros piolhos aparecem donde?

Percebi que ela tinha na cabeça a ideia de que estes bichinhos surgem do nada. Que se uma pessoa tiver uma má higiene, de repente tem piolhos na cabeça e sabe-se lá mais o quê no resto do corpo. A teoria da geração espontânea está viva (mas não se recomenda).

Não foi a primeira vez que percebi isto: talvez sem que as pessoas de ciências desconfiam, quem nunca gostou muito de biologia tem ideias muito vagas sobre a origem da vida. Ainda acredita que os micróbios nascem do nada. Que a vida surge várias vezes ao longo dos tempos.

Quando alguém tem a curiosidade para aprender mais a sério donde vêm todas as formas de vida na Terra, tem uma surpresa. Os piolhos têm ADN. São fruto da evolução por selecção natural ao longo de milhões de anos. E têm a mesma origem que nós.

Somos todos primos.

Sim, pegamos num piolho e andamos para trás olhando, com os olhos da imaginação, para cada um dos seus antepassados: o pai do piolho, o avô do piolho, o bisavô do piolho… Mais uns larguíssimos milhões de milhões de gerações e chegamos a um ponto (aí há uns três milhares de milhões de anos): temos o bichinho minúsculo, uma espécie de bactéria, que deu origem a toda a vida actual na Terra.

Se fizermos o mesmo exercício connosco próprios chegamos ao mesmo sítio. O meu pai… O meu avô… O meu bisavô… E por aí fora. Se imaginarmos as fotos empilhadas dos antepassados de cada um de nós, chegamos ao mesmo bichinho. Aliás, antes de lá chegarmos, chegamos a um ponto onde temos o antepassado comum dos seres humanos e dos piolhos. Sim, os mesmos piolhos que nos arreliam as cabeças dos putos — são nossos primos muito afastados! E o mesmo é válido para tudo: até as plantas são nossas primas. As bactérias que temos nos intestinos? Primas. As baleias? Primas. Os leões? Primos? Os micróbios nas nossas mãos? Primos. As girafas? Primas. Tudo, tudo. (As árvores? Grandes primas.)

(Já agora, um pormenor: há quem diga que somos descendentes dos macacos. Não: somos primos. Nós e os macacos temos um antepassado comum. Mas, no fundo, o mesmo se aplica aos piolhos: só que esse antepassado comum viveu há muito mais tempo do que o antepassado comum dos seres humans e dos macacos.)

Desde muito cedo que me lembro de ficar maravilhado com a forma como a vida na Terra se dividiu no número espantoso de espécies que vemos à nossa volta (a culpa foi dum livro de que já falei aqui e ainda de uma professora duma disciplina insuspeita; mas fica a história para outro dia).

Mas, esta semana, lembrei-me disto porque estou a ler este livrinho maravilhoso: The Ancestor’s Tale, de Richard Dawkins. Sim, o título remete para Chaucer. Já o conteúdo remete para o início da vida: vamos acompanhando toda a sucessão de nossos antepassados, até chegarmos ao princípio. (E o princípio, como foi? Fica para depois.)

Para não me ficar por um livro em inglês, lembro que ainda há tempos vos falei de outro livro, de Jorge Buescu, que mostrava como somos todos descendentes de Afonso Henriques.

Os livros são caixinhas de surpresas que deitam por terra as ilusões de nobreza familiar e também as ideias de nobreza da espécie. Somos bichos. Mas bichos muito interessantes.

Assim sendo, mais respeitinho para com os piolhos na cabeça dos nossos filhos: eles não aparecem do nada. Vêm duma linhagem muito antiga e muito nobre… Ah, mas no fim levam com o Quitoso na mesma. Primos ou não, são um nojo.

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1 Comentário

  1. João Falcão-Machado

    Por esta linha de ideias, somos todos canibais!!!! Bom, agora a sério, ler sobre a evolução, a “origem das espécies”, é embarcar numa aventura absolutamente fascinante. Poderia indicar dezenas, se não centenas de livros de consagrados autores de tão boa craveira como o excelente Dawkins. Mas fico-me por um outro autor: Desmond Morris.

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