O que faz a pobre pulga ali atrás da nossa orelha? Faz comichão, pois então.

Nem sempre percebemos bem o que nos põe ali o bicharoco. Por vezes, é uma entoação falsa, um olhar que não bate certo, qualquer coisa que no enredo dos dias não cose com as outras linhas.

Pense lá o leitor na pequenita pulga: ali, sem saber falar, aflita e aos saltos, a avisar com picadelas o excelentíssimo humano que a transporta que alguma coisa não está bem. E o pobre nem sempre liga e às vezes até coça e manda a pobre pulga às malvas.

Diga-se que, por vezes, a pulga está errada: pica, mas não devia. Outras vezes, é um bom aviso para ficarmos alerta para outros animais mais pesados que se atravessam à nossa frente.

Eu, por mim, tenho um fraquinho pelos animais da nossa língua — e a pulga, tão atenta e espertalhona, é um deles. Não é para todos conseguir um lugar na língua de todos; um lugar-comum, é certo, mas um lugar — e bem simpático.

Apetece-me até imaginar uma história com esta pulga — mas fica para outro dia… Talvez o leitor fique com a dita atrás da orelha, mas não porque desconfia: apenas porque quer saber que história será essa. É uma daquelas boas pulgas que se escondem nas nossas cabeças.