Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

A deliciosa tradição islandesa de dar livros no Natal


Há poucos dias, descobri a mais deliciosa tradição de Natal, um hábito magnífico desse pequeno país perdido nas águas frias do norte do Atlântico, que faz as delícias de qualquer viciado em livros.

Na Islândia, a prenda que todos oferecem no Natal são livros e, pelos vistos, a consoada pode ser passada a ler os livros que recebemos.

Mais: publicam-se tantos livros antes do Natal que a língua islandesa tem uma palavra só para esse fenómeno: Jólabókaflóð — literalmente, inundação de livros do Natal.

Para um marado dos livros como eu, isto é o suficiente para querer visitar a ilha — apesar dos vulcões e do frio. Imagino que os livros sejam quase todos em islandês, mas não faz mal.

Já agora, que estamos com a mão na massa, que é como quem diz, na palavra Jólabókaflóð, reparem nessa deliciosa letra «ð», que, em conjunto com o «þ», dá um sabor muito característico a esta língua quando a vemos escrita — são símbolos que nos põem a imaginação a sonhar com sagas e deuses nórdicos e têm o seu quê de alfabeto secreto. (A mim lembra-me também o Beowulf, em inglês antigo, que conheci fugazmente nas aulas de literatura inglesa, há tantos anos…)

Reparem ainda que conseguimos distinguir na palavra islandesa qualquer coisa que não deixa de ser familiar para quem sabe alguma língua germânica (o inglês, por exemplo): temos bóka, que lembra o book mais nosso conhecido, e o flóð, que lembra flood — a palavra quer dizer «Christmas book flood».

E que deliciosa inundação!

Depois de ler sobre esta tradição num artigo encontrado no Facebook, encontrei uma referência à palavra no livro Lingo, de que já vos falei e que tenho andado a ler. Para quem nunca tinha ouvido falar desta tradição, não deixa de ser uma coincidência agradável encontrar referências em dois sítios diferentes em menos de dois dias.

Em Lingo, o autor diz que Jólabókaflóð é uma palavra que bem podia ser importada para o inglês, pois faz alguma falta.

Pois eu digo mais: podia ser também importada para o português, e a tal bela tradição podia vir a reboque, se faz favor.

Uma noite quente, em casa, com pessoas de quem gostamos e o frio a bater lá fora — haverá melhor desculpa para passar umas boas horas a ler, depois de um jantar em família em que se trocaram livros? Se houver lareira, ainda melhor.

Nesta manhã de Natal, deixem-me desejar-vos um 2016 inundado de livros. Há coisas piores.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. Sempre fui fascinado por línguas. As primeiras palavres de uma segunda língua, eu ainda muito novo, aprendi-as em Kikongo, para dois anos depois aprender o Cantonense, durante dez anos. Também o Crioulo não me escapou quando na Guiné. Daí o prazer com que leio as suas crónicas. Quando da Galiza falei, confesso, sem vergonha que os quero mais próximos de nós pela gula. Os percebes ou perceves, as ostras e os mexilhões que vão para onde não deviam, seja, que não para a minha barriga.

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