Já todos sabemos como é: há coisas que os nossos filhos fazem que nos deixam derretidos e que, para as outras pessoas, não são nada de especial. «O meu filho aprendeu a contar até três!» — e lá se põe o pai com um sorriso de orelha a orelha. Já o amigo encolhe os ombros, porque isso de contar até três, enfim, não é assim uma façanha de correr a contar a toda a gente.

Bem, sendo pai, fico mais comovido com o ingénuo entusiasmo daquele pai do que com o encolher dos ombros do amigo. Sim, eu sei que raramente as crianças fazem coisas que as outras não façam também. Só que isso não torna o crescer menos espantoso.

E, por isso, confesso: fico com um sorriso no canto dos olhos quando o Simão faz qualquer coisa de novo. Por estes dias (em que ele tem quatro anos e pouco), são as frases cada vez mais completas, as palavras novas que não sei donde aparecem (pregando-nos um ou outro susto…), a atenção a tudo o que passa por ele e as perguntas curiosas sobre tudo e nada — sem esquecer aquilo que ele já sabe e eu nunca conseguirei fazer bem, como por exemplo (ai, vergonha) dançar.

E não é que até fico comovido com os erros? Acho um portento de invenção fonética a maneira como ele diz essa palavra onde quase todas as crianças tropeçam: «frigorífico». Diz qualquer coisa como «fuísco» e é uma delícia ver esse simpático fuísco, ao longo do tempo, a transformar-se num pesado frigorífico (ainda não chegou lá — está a meio caminho).

E tal como quando nos dizem que o nariz dele é meu e os olhos da mãe, parece que nos erros também há qualquer coisa nossa… Ontem apanhei-o a dizer: «isto é um poguema». E eu disse: «um problema?» e ele disse que sim — e por dentro fiquei a rir-me, lembrado da minha mãe a contar-me como eu não conseguia dizer «problema» até bem mais tarde do que a minha vergonha permite confessar. O que dizia eu? «Poguema», claro está.