Certas Palavras

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O dia 29 de Fevereiro e o músculo da língua portuguesa 

calendar-1176594_1280De quem é a culpa de termos um mês tão pequenino — e que aumenta de quatro em quatro anos?

Parece ser dum tal Gregório, que foi papa. Hoje, o papa não manda nestas coisas. Podia até tentar, mas duvido que alguém o ouvisse, por mais simpático que seja Francisco. O mundo mudou.

Ora, isto para dizer que o calendário, a moeda, o lado em que andamos na estrada — tudo são convenções que são impostas de cima para baixo. Alguém decidiu, está decidido.

Ora, as línguas não funcionam assim. Sim, há normas-padrão, dicionários, gramáticas, mas todo esse aparato que parece definir a língua controla menos do que pensamos: dá-nos a ortografia, arruma uma coisita ou outra, descreve a língua tal e qual ela é escrita nos registos mais formais, mostra aquilo que algumas pessoas julgam ser «o correcto» — e pouco mais.

A língua vive na boca dos falantes e nas mãos de quem escreve. E tem regras — ó se tem! —, mas não são regras que venham de fora, tirando um ou outro caso.

Ora, é por isto mesmo que todos os que andam por aí aos gritos porque os portugueses não sabem português não sabem do que estão a falar.

O português é uma língua complexíssima (como todas, aliás) e essa complexidade está em todos os falantes — todos têm uma gramática na cabeça. Tentar mudar essa gramática à força por esta ou por aquela razão nunca dá bom resultado.

Mas há quem queira mudar?

Sim, há. Quando alguém diz infantilidades como «queria ou quer?», «a gente é da polícia» e outros que tais, estão a tentar limpar a língua dos outros para se conformar a regras impostas de fora, que não servem para nada.

Mas há quem vá mais longe. Ainda há anos discuti longamente com quem me queria convencer que dizer «não há nada» deve ser considerado erro. Porquê? Porque não dá jeito em certos textos. Que todos os portugueses usem essa construção não parece incomodar quem quer mudar a língua à força. (Já aqui referi esta questão.)

Depois, há outro exemplo de que já falei várias vezes por me parecer especialmente absurdo: há quem considere «tenho saudades tuas» um erro. Muitos dirão: «Claro que é um erro! “Tuas” é um possessivo, não deve ser usado assim.» Não deve? Mas é usado assim, e é claríssimo. Dizem-me logo a seguir: «Ah, então, tudo é permitido! Há regras!» Pois há. E nem tudo é permitido.

Reparem: nós não dizemos «tenho medo teu», mas dizemos «tenho saudades tuas». Porquê? Bem, é um bom tópico de investigação e podia tentar explicar um pouco melhor. Mas digo apenas isto: se alguém não percebe o porquê de determinada regra de português, pode começar por não exigir que a língua mude só para se encaixar na sua ignorância. Depois, com curiosidade e respeito, tente lá perceber a língua como ela é. Tem regras, pois então. Não são é tão simples como pensamos.

Ai, amigos que andam sempre com medo da língua: a vossa vontade de considerar toda a gente (todos nós?) como burra e ignorante leva-vos a desrespeitar a língua e os seus falantes. Vá, descontraiam e leiam um pouco mais sobre o músculo da língua…

O músculo da língua

stretching-498256_1280A gramática da língua não é inventada através de decisões conscientes e individuais, por mais que muitos gostassem que fosse. Para isso temos o esperanto e outras invenções. As línguas não são criações artificiais. Cada língua é um estranho músculo mental que tem a característica curiosa de ser um músculo colectivo. Sim, é um músculo que cresce e muda, constantemente, mas tem regras, regras essas que temos de conhecer — mas que não controlamos. Dizer o contrário é não perceber como a linguagem humana funciona.

Querer mudar as regras à força, no fundo, equivale a cortar um pedaço desse músculo para ficar mais bonito. É uma violência e raramente funciona.

Agora, reparem: como qualquer músculo, podemos conhecê-lo e começar a treiná-lo, todos os dias, para o usar cada vez melhor.

Sim: podemos pegar nas regras da língua como elas existem, de facto, na mente dos falantes e utilizá-las para nos expressarmos melhor, de forma mais cuidada, menos ambígua, mais bela. Os escritores, por exemplo, são exímios no uso desse músculo. São os ginastas da língua. Já nós, simples escreventes, temos de usar este músculo o melhor que sabemos. Não convém é desistir de fazer melhor todos os dias.

Não é fácil, como sabemos, principalmente quando tentamos usar o tal músculo à distância, ou seja, através da escrita. É como fazer ginástica com fantoches…

Pois bem: não é fácil, mas ainda é mais difícil quando nos tentam convencer que o importante, nisto da língua, é pôr talas e garrotes a esse belo músculo, para que a língua só se possa mexer dentro das apertadas regras dos inventores de erros.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. Venâncio

    «… começar por não exigir que a língua mude só para se encaixar na sua ignorância».

    Boa!

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