Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

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4 Comentários

  1. Maria de Lourdes Martins

    Se isto foi a amostra espero ansiosamente pelo resto. ADOREI!

  2. Ernesto César Valente Fernandes

    Engraçado, o ver o desenrolar duma situação do outro lado do espelho. No tempo em que prestei serviço, na, nessa altura, nossa TAP, o velhote teria desembarcado e as malas teriam seguido no aparelho. Pelo menos na primeira metade do meu serviço. Na segunda, os passageiros, teriam saído para identificar as suas bagagens e o velhote teria ficado, com a sua bagagem a ver partir o avião.

  3. Oh pá, tão bom 🙂 O que já me ri… E já agora, se o check in de um voo não fechasse bem antes do embarque, metade dos passageiros eram “no shows” à porta (e já há bastantes que o são porque ficam nas compras).
    E diria que esse senhor teve muita sorte de não ficar em terra.
    E há aí alguns pormenores de segurança que… enfim.

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