Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Dez dicas para usar melhor a língua portuguesa

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1. Alimentar os filhos com muitas palavras

Esta dica vai logo à cabeça. É, provavelmente, a mais importante.

Muitos andam preocupados com a língua portuguesa e o estado em que ela se encontra. Por mim, digo-vos isto: pensem antes no futuro. Conversem com os vossos filhos sempre que puderem, contem histórias, expliquem o mundo, apontem para tudo o que é interessante — abram os olhos a essas crianças que hão-de ser os falantes de português das próximas décadas.

Falem, falem, sem parar.

Tudo indica que é uma das maiores prendas que podem dar aos filhos: uma língua desenvolta, um cérebro habituado a estas lides da linguagem, um vocabulário cheio e bem sonoro.

E, claro, para além disso, é muito saboroso conversar com quem gostamos, não é?

Em pouco tempo, os nossos filhos estarão a conversar com outras pessoas, a ler por si, a ir muito além do que lhes ensinam os pobres pais. Resultado: estas conversas passam a ser boas para os filhos, mas também para os pais.

Mas conversar sobre o quê? Sobre tudo! Falar de muita coisa, sem medo, nem travões. Tudo serve de desculpa, até o que dá na tal televisão, que muitos acusam de estar a dar cabo da cabeça das crianças.

Sim: conversar. Algo tão simples, mas que fará mais pela língua portuguesa do que todas as carpideiras da língua.

Mas, pronto, aceito que até nem concordem comigo. Podem continuar convencidos que andar à caça de erros por esse mundo fora — e pelo Facebook! — é mais importante do que conversar com as crianças. Talvez até, com algum jeitinho, me convençam que a língua nem ganha assim tanto com tanta conversa entre pais e filhos.

Mas ganham as crianças e ganhamos nós. E o que é a língua senão os seus falantes?

2. Ouvir os outros com atenção

SONY DSCHá muita gente que anda pelo mundo convencida que é a própria pérola que foi atirada aos porcos.

Desenganem-se: as probabilidades de cada um de nós ser um génio num mundo de estúpidos são diminutas.

Provavelmente, encontramos todos os dias imensa gente bem mais esperta e sábia do que nós, mesmo que não pareça e mesmo que essa gente não pense como nós (não é crime, por enquanto).

Há gente parva e que não interessa a ninguém? Sim, claro. Mas concentrem-se nesses por vossa conta e risco. E, reparem, quem estiver convencido que sabe distinguir bem entre gente interessante e gente desinteressante arrisca-se a perder muita conversa inteligente, só por causa da superfície pouco polida. Raspem um pouco mais…

Mais vale dar o benefício da dúvida e procurar o que é bom, em vez de pôr tudo no mesmo estafado saco.

3. Conversar com gosto e proveito

Mesmo que se dê o improvável caso de um de nós ser um génio daqueles a sério, esse tal génio improvável só tem a ganhar em ouvir os outros de mente aberta.

Não tem de concordar com tudo. Mas também não precisa de andar todo o dia com o desprezo esmurrado na cara.

E não é que até há imensa gente com quem podemos conversar, desde um velho pescador a um professor curioso?

Por isso, conversemos com gosto e menos juízos apressados.

4. Apreciar as palavras, as frases, os textos…

Rolar as frases pela boca, ler Os Lusíadas alto e bom som, rir-se com Os Maias, mas também com as conversas brejeiras de alguns talentosos amigos, com as piadas bem achadas de muita gente, com as discussões quase em modo de desgarrada que há por aí.

Tentar encontrar o verdadeiro amor pela linguagem, pela língua, tanto aquela de casa, onde muitos dizem «o comer» (ai, malandros!) e falam com sotaque carregado lá da terra, como numa sessão de declamação de boa poesia num palco de Lisboa, também em carregado sotaque (lisboeta).

A língua vai muito para lá dos limites do nosso próprio cérebro. Está em todo o país e em todos os falantes e não merece a desatenção que lhe damos, obcecados por um apertado dialecto (a que chamamos português-padrão).

Não me interpretem mal: essa norma-padrão é utilíssima e valiosa. É a base da escrita e serve de nossa língua comum quando estamos em situações formais — só que está longe de esgotar o nosso belo português.

Os mais corajosos até podem avançar confiantes para lá das fronteiras: leiam um pouco de galego, esse irmão esquecido, mergulhem no saboroso português brasileiro, cujas diferenças fazem saborosas cócegas, e esqueçam tribalismos. Em suma: descubram a nossa língua onde menos se espera.

5. Refrear o revisor que há em nós

writing-828911_1920Ora, sim, isso mesmo: muitas pessoas gostam de andar pelo mundo com uma caneta vermelha nos dedos.

É muito mau? Quanto a mim, é. Primeiro, porque fazem-no, quase sempre, mal informados, riscando tantas e antigas expressões portuguesas — e riscam-nas no papel e na boca dos outros, às vezes com laivos de má-educação. (Alguns até se orgulham de corrigir a gramática dos outros em silêncio, como se isso fosse coisa de que se possam orgulhar.)

Sim, claro, a tal caneta vermelha, usada com rigor e sem maldade, é bem útil quando estamos a ensinar, quando estamos a ajudar um filho a escrever um texto, quando trabalhamos como revisores — e quando revemos os nossos próprios textos, acima de tudo.

Mas, no dia-a-dia, andar com uma gramática na mão como o missionário anda com a Bíblia faz tanto sentido como criticar a técnica do amante enquanto fazemos amor. Até podemos ter razão, mas estraga o momento, digo-vos já. (E, sim, isto foi uma mistura de metáforas a dar para o blasfema, mas espero que não se importem; se se importarem, risquem à vontade.)

Talvez essa caneta esteja colada na mão de muitos exactamente porque se vêem como génios num mundo de estúpidos. Outros, estão genuinamente preocupados com a pobre língua.

Ora, nada posso fazer contra isso, mas não deixo de aconselhar: conversem sem pedras na mão; leiam sem alarmes na cabeça; falem sem medo e com gosto.

Vá, admito, uma vez por outra, sempre é giro mandar uma pedrinha ao lago — principalmente quando a pedrita é atirada, devagar para não aleijar, àqueles que gostam de as atirar com força.

Mas deixemo-nos de obsessões que só nos estragam os dias, pode ser?

6. Escrever sem parar — e acordar, então, o tal revisor

A tal caneta vermelha que pedi para guardarem no bolso ali mais acima, convém agora tirá-la e usar sem pejo. É preciso escrever, reler, reescrever. Riscar e atirar fora. Tentar de novo.

Só à força de muito treino se consegue escrever um pouco melhor.

Por isso, tudo o que nos leva a ficar mais inseguros na escrita e na fala deve ser ignorado. Para aprender a escrever, só há um caminho: ler muito, cada vez mais, e depois escrever e voltar a escrever. É difícil? Sim.

Já agora, que aqui estamos, aqui ficam algumas dicas para escrever melhor:

  • Reler e reescrever o que dizemos pensando numa qualquer pessoa que vá ler o nosso texto. Ou seja, não escrever para impressionar, mas para chegar a essa pessoa e mostrar-lhe o que queremos mostrar.
  • Pensar no prazer do leitor. Ler em voz alta, se preciso for. Perder tempo a pensar em como dar a volta ao texto, à frase, àquela expressão menos clara ou mais fechada.
  • Dar o nosso texto a outra pessoa para ler e ajuizar. É difícil perceber como as nossas palavras vão ser ouvidas ou lidas. Por isso, quanto mais conseguirmos sair de nós e ouvir o que dizemos como se fôssemos outra pessoa, melhor.

Já falámos de tudo isto neste blogue, no artigo «Três passos para escrever melhor».

7. Não falar da língua com a boca cheia de ideias-feitas

Só dois exemplos de ideias-feitas sobre a língua: há quem jure que os jovens não sabem falar (e já não sabem falar há séculos, coitados). Outros apostam que o nosso vocabulário está a desaparecer com água pelo ralo.

Ainda há tempos ouvi quem dissesse que já só usamos 800 palavras! Também há quem aposte nas 100 palavras! E sempre com ponto de exclamação.

Amigos: tenham tino, se faz favor.

É quase impossível saber quantas palavras usamos, de facto, no dia-a-dia.

Tentei encontrara algumas pistas. Virei-me para este blogue. Já usei 12 000 palavras diferentes — e estou muito longe de ser um génio ou andar sempre a consultar dicionários para escrever.

Também fiz outra contagem. Tirei 10 artigos de blogues ao calhas (nos blogues do Sapo) e contei as palavras diferentes. Só nesses 10 artigos, lá encontrei 1500 palavras diferentes. Se tivesse ido mais longe e tivesse tido tempo de retirar todos os posts de um só dia, teria encontrado bem mais do que as minhas 12 000.

É significativo? Não, claro. São exemplos. Mas, mesmo assim, já é alguma coisa — não me fiquei por ideias vagas sobre «empobrecimento da língua» sem qualquer tentativa de testar o que digo…

Reparem ainda: nós usamos mais palavras na oralidade do que na escrita, porque a escrita tenta seguir a norma-padrão, que é um pouco mais limitada do que todos os registos da fala. O que significa que, provavelmente, usamos bem mais do que as 12 000 palavras que encontrei neste pobre blogue.

Usamos mais umas palavras do que outras? Ora, claro. Mal seria se assim não fosse. As palavras simples e directas são simples e directas precisamente porque são mais frequentes (e úteis, digo eu)…

É verdade: não somos shakespeares ou camilos — mas usamos muitos e bons milhares de palavras.

Nisto do vocabulário, deixem-se de tremendismos. Ou, pelo menos, apresentem provas, com números, comparações e evoluções. As vagas impressões valem muito pouco.

img_19958. Pensar em não ler

Isto é um conselho tão batido, que tive de o virar ao contrário e dizê-lo na negativa, só para ver se chamo a atenção para a sua importância.

Sim, podem pensar em não ler, mas só se for para chegar à conclusão que dizer tal coisa é um profundo disparate.

Leiam e muito. Assim, conseguimos treinar a língua, toda ela, usada na escrita com a mestria que só os grandes conseguem. Podemos ler os velhos clássicos, que são bem mais saborosos do que nos diz a nossa própria memória. Voltem a A Cidade e as Serras. Leiam A Queda dum Anjo. Atrevam-se por entre os mais recentes O Delfim ou Balada da Praia dos Cães (que me atrevo a considerar clássicos) e estou só a ir buscar exemplos que tenho aqui ao lado.

Sim, depois sigam pela História, pela Filosofia, pela Ciência. Pelas revistas e jornais. Pelos blogues. E por aí fora…

Mas leiam!

9. Morder a língua

Ora, para quem acabou de afirmar que é preciso ler e escrever sem parar, vir agora dizer que também convém saber quando parar parece uma contradição daquelas bem feias.

Mas não é: falamos, escrevemos, lemos e ouvimos — e às vezes temos de hesitar; morder a língua; contar até 10; deixar o insulto no cérebro. Pensar mais um pouco. Tentar perceber se não estaremos errados (porque às vezes estamos mesmo errados).

É isto compatível com o escrever muito e falar ainda mais? Nem sempre, presumo. Mas temos de encontrar esse equilíbrio.

Não podemos pensar eternamente em tudo o que dizemos, sob pena de ficar calados. Mas também não temos de atirar ao mundo a primeira opinião que nos vem à cabeça, só porque é nossa e soa bem.

Em caso de dúvida, pense-se uma ou duas vezes. Três, vá. Depois, diga-se o que se tem a dizer. Oiça-se o mundo e, se preciso for, mudemos de ideias.

Agora, quando o insulto e o desaforo indignado vem à boca, aí sim está na hora de morder a língua. Até porque os insultos e as indignações são bem preciosas em certas ocasiões. Estar aí a gastá-los só porque sim é tirar-lhes o valor e o peso.

10. Aprender outras línguas

Pronto, este último conselho talvez não faça muito sentido: para quê aprender outras línguas quando queremos usar melhor o português?

Não sei. Mas sei que a linguagem humana é mais do que a nossa língua e saber falar outros dialectos humanos é mais do que útil: é um excelente treino para ginasticar o nosso cérebro — e sempre nos dá ainda mais oportunidades para falar, ouvir, escrever e ler.

E é isso que se quer, ou não?

Usar a língua (a nossa ou outra) entre gente real: falar com os filhos, conversar com os amigos, ler os grandes escritores…

Usar a língua cada vez mais e, assim, cada vez melhor.

Uma boa aposta, ou não será?

[Uma versão revista deste artigo foi publicada no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa, editado pela Guerra & Paz.]

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5 Comentários

  1. Paulo

    http://projectoadamastor.org/

    Um sitio excelente para obter obras em português, sem necessidade de pagar com os olhos (seja da cara, seja de outro lado) e que acaba de divulgar a(uma) lista dos melhores livros (numa iniciativa louvavel) escritos em português.

  2. André Lobo

    https://www.luso-livros.net/
    Temos também o Luso Livros que promove livros em português no formato digital que estão em domínio público.
    Tem alguns livros infantil/juvenil como Romances Históricos.
    https://www.luso-livros.net/livros/infantiljuvenil/
    https://www.luso-livros.net/livros/romances-historicos/

    Boas leituras

  3. Laurindo Paca

    Gostei imenso
    Estão de parabens escreveram algo muito interessante

  4. Inês de Nazaré

    Sr Março Neves.
    Gostei de tudo o que o senhor escreveu, foi a primeira vez que li seu blog, não sei escrever bem nem tão pouco falar, mas vou procurar aprender Por aqui.
    Obrigada. Inês

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