Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Sete dicas pessoais para escrever melhor

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Às vezes, deixo por aqui algumas ideias para escrever melhor. Não sei se te ajudam, mas tenho esperança que sim. Algumas dessas ideias são as do costume: ler muito, rever o texto no fim, etc., etc. São ideias banais? Não: são ideias que funcionam!

Agora, uma confissão: tenho outros truques, menos habituais. O problema é que não me parece que sirvam para toda a gente. São muito meus. Cada pessoa tem as suas manias e o seu feitio — e cada pessoa terá as suas técnicas para começar a teclar.

Pois, mas não interessa: serão truques meus, mas hoje apetece-me partilhá-los. Aqui ficam, para usares como quiseres.

1. Folhear livros e revistas

Sim, a sério! O próprio acto de folhear livros e revistas ajuda-me a escrever.

Serei normal? Provavelmente não.

Mas a minha mulher já sabe que quando estou a folhear uma revista e a olhar para o computador é porque estou a tentar escrever qualquer coisa.

Admito que esta dica é capaz de só dar jeito a mim próprio. Mas enfim, aqui fica.

2. Ouvir boa música

O que tem a música a ver com a escrita? Não sei. Mas imagino: deixa-nos mais descontraídos, com o cérebro mais atento… Há coisas que não sei explicar bem e esta é uma delas. Mas é verdade: a música ajuda-me mesmo a escrever melhor.

Agora, imagino que esta dica funcione com certas músicas e não com outras. Mesmo músicas de que gostemos muito podem deixar-nos alterados — e não da maneira ideal para escrever melhor.

Experimenta. É uma questão de encontrares as músicas que te ajudem a escrever.

3. Escrever no telemóvel

Sim, é verdade. Às vezes, estou no computador a tentar escrever alguma coisa e não me sai nada de jeito. Depois, vou para o telemóvel e, com o ecrã pequeno e a velocidade de escrita reduzida a um fio ridículo de palavras digitadas em modo tartaruga, começam-me a sair frases inteiras sem (tanta) dificuldade.

Mais: às vezes até faço o sacrilégio de começar a escrever em papel. Esta técnica tem uma desvantagem: nem sempre percebo o que acabei de escrever. Mas isso já daria para outro texto.

4. Começar a escrever noutra língua

Esta é uma ideia especialmente estapafúrdia. Mas já me aconteceu várias vezes: por qualquer motivo, ponho-me a escrever um ou dois parágrafos em inglês, para explicar qualquer coisa. Pois se por acaso experimento, logo a seguir, escrever o mesmo em português, o texto sai-me num instantinho e sem rodeios.

Porquê? Não sei. Talvez porque escrever numa língua estrangeira seja um esforço que nos põe o cérebro a trabalhar melhor — ou talvez o efeito seja apenas uma ilusão: depois de experimentar outra língua, a nossa é um alívio e parece que sai tudo melhor.

5. Usar dois ou três textos como talismã 

Todos nós temos livros de que gostamos muito. Ora, o que me dizes a usá-los como uma espécie de talismã? Guarda-os num sítio bem à mão e, quando estiveres com pouca inspiração, lê um pouco desses livros. Vais ver que ajuda.

Aqui por casa, vou variando os talismãs. Quais são os que uso? Fica para outro dia. Não posso revelar os segredos todos duma vez…

6. Ler um ou dois textos próprios

Agora, vou contar-te um pequeno episódio: um dia, li uma entrevista a um escritor famoso (famosíssimo, aliás) cujo nome não vou revelar — porque nunca o li e não quero acusá-lo injustamente de ser mau escritor.

Mas a verdade é que, nessa entrevista, encontrei uma das poucas coisas que me convencem que um escritor é mau escritor sem o ter lido: nas estantes tinha apenas livros dele próprio (e respectivas traduções).

Um escritor com uma estante destas até pode ser um bom escritor — mas eu também posso ganhar a lotaria esta semana e não me parece que isso vá acontecer.

Escrever bem implica ler muito — e quando digo ler muito, estou a falar do que os outros escrevem. A boa escrita dá-se pouco com leituras umbiguistas. E, no entanto, ler os nossos textos também pode ajudar, num ou outro dia de inspiração mais cinzenta.

Como?

Ora, a escrita tem muito a ver com confiança. Quem tem mão insegura raramente escreve bem. Não que não seja preciso duvidar, reler, rasgar, voltar a escrever — mas, se estivermos sempre com a ideia de que não sabemos escrever bem, então claro que não sai nada de jeito.

Ora, de certeza que já escreveste um ou dois textos de que gostas. Pega neles e lê um pouco: talvez te ajude a ganhar confiança para o novo texto que tens entre mãos.

7. Dar uma volta a pé 

gleise-1555348_640Há meios de transporte pouco dados à escrita. Por mais que tente escrever num avião, não consigo. Mas isso são questões psicológicas que não são para aqui chamadas. Num comboio, talvez seja mais fácil, se não pensarmos na Linha de Sintra na hora de ponta. Já no Expresso do Oriente, acredito que saem policiais até das mãos de quem nunca escreveu coisa que se veja…

Bem, a verdade é esta: se for dar uma volta a pé, começo a escrever melhor.

Mas escrevo enquanto ando? Não é costume — embora, usando a dica n.º 2, já me tenha dado para isso, para horror de alguns transeuntes (a mais bela palavra da língua, esta, não acham?).

Escrever, não escrevo — mas as ideias fluem, a estrutura do texto começa a aparecer na cabeça, até algumas frases ou palavras… Depois, quando chego a casa, começo a teclar furiosamente. Então se tiver música nos ouvidos e uma revista nas mãos para folhear sem olhar — estou no ponto.

O mesmo se passa quando conduzo — ou quando tomo banho. Parece que quando não podemos escrever, as ideias e a vontade de escrever aparecem com mais vontade.

Ironias da vida.


E pronto, são estas as sete dicas que hoje tinha para ti. Talvez te ajudem, num daqueles dias em que tens de escrever qualquer coisa e não tens ideia nenhuma de como começar.

Se continuas sem ideias, olha: lê. Mal não faz. E depois vai dar um mergulho à praia, já agora…

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1 Comment

  1. Olá Marco;
    aderi ao teu Blogue e digo-te que estou a adorar. Também me sinto um escritor,(anónimo). Embora sejam mais as vezes em que não escrevo do que aquelas em que o faço.Isto acontece pelo seguinte e aproveito para te deixar uma pergunta;

    Sempre que escrevo algo o término desse acaba por ser uma fatalidade para mim,ou seja leio,releio,volto a reler e nesta revisões deparo-me com o texto inicial totalmente alterado,por vezes até com o tema totalmente revirado.

    Aproveitando estas tuas dicas,pergunto;quando finalizas um texto,(concluo que o vais revisar),acontece-te o mesmo?

    Termino deixando um forte incentivo pela continuidade deste teu enorme projecto na defesa na nossa língua e não só.

    Obrigado

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