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O que é a norma da língua portuguesa?

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Acabei de ler uma magnífica entrevista de Marcos Bagno, linguista brasileiro, que nos ajuda a perceber o que é a norma da língua.

Bagno distingue (citações da entrevista):

  • Norma-padrão: «É a ideia de que a língua “certa”, “boa”, “bonita” se encontra no trabalho estético dos maiores escritores do passado, os chamados “clássicos da língua”. […] A principal característica da norma-padrão é que ela não é falada nem escrita integralmente por ninguém, não corresponde a nenhum uso real da língua.»
  • Norma culta: «Diferentemente da tradição gramatical, os linguistas chamam de “norma culta” o conjunto de formas linguísticas realmente, autenticamente, comprovadamente empregadas pelos falantes classificados de “cultos”, isto é, nascidos e criados em ambiente urbano, inseridos na cultura letrada e com grau de escolaridade superior completo.»
  • Norma curta: «[…] um modelo de língua “certa” que não corresponde a nenhum uso real, nem mesmo dos escritores consagrados (desde o Romantismo, no século XIX!) e, muito menos, das pessoas cultas e letradas da época atual. Essas pessoas cultuam e tentam difundir aquilo que o linguista Carlos Alberto Faraco chama de norma “curta”, que é muito mais uma ideologia linguística (conservadora) do que um modelo de língua.»

Talvez estas três citações nos ajudem a navegar as difíceis águas das discussões sobre a língua. E talvez assim seja mais fácil perceber que os linguistas também trabalham com a norma. Só que a norma, nas mãos mais informadas desses cientistas, é um conceito mais complexo, mas também mais completo e útil, do que na boca dos cultores da tal norma curta, cheios de certezas e moralismo fora do lugar.

Para integrar as três definições acima no que temos discutidos neste blogue, os erros falsos que tanto tenho combatido são parte da «norma curta», invenções de quem acha que sabe mais português do que todos os outros. Depois, defendo aqui a «norma culta» como a forma de prestígio do português, forma esta que não é gramaticalmente mais perfeita do que as outras, mas tem uma força social muito marcada, que convém reconhecer. Esta norma culta é útil para todos os portugueses e a verdade é que se tem espalhado pelo país pela escola e pela televisão. Nunca tanta gente falou, como hoje, a norma culta do português.

Quanto à norma-padrão, tem o seu lugar como ideal e será importante para quem escreve literatura. Mas também é verdade que muita da boa literatura vai beber não à norma-padrão, mas sim à norma culta — e, mais, vai beber a todas as formas de falar português, que são material para os escritores com bom ouvido para a língua, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve.

É por tudo isto que fico estarrecido quando oiço algumas pessoas bem-intencionadas defender uma qualquer norma curta (que termo fabuloso de Faraco!) e a clamar contra a falta de exigência destes e daqueles, quando a verdadeira exigência e o verdadeiro desafio é usar cada vez melhor a norma culta — uma norma que se quer expressiva, flexível e rica, sem os espartilhos de quem acha que a língua tem o tamanho dos seus preconceitos.

(Para terminar, sugiro que leiam a tal entrevista de Marcos Bagno. Concentra-se no português do Brasil, mas o que lá se diz é perfeitamente válido para o nosso português.)

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4 Comentários

  1. Prefiro ler Ivo de Castro: http://www.clul.ul.pt/files/ivo_castro/2006_Norma_e_ensino.pdf

    Li há dias o livro “Preconceito linguístico – o que é, como se faz”, de Marcos Bagno. Tem várias ideias interessantes, mas o estilo é um bocado trauliteiro, e há ali uma série de contradições e generalizações abusivas…

    • Marco Neves

      Muito obrigado! Vou ler os dois artigos.

    • João Maria Bezerra

      Trauliteiro. Vc também é cultura. Tive que parar a leitura pra consultar o dicionário. Sou fã de Marcos Bagno. Vc é Neoliberal?

  2. Ou este: http://www.clul.ul.pt/files/ivo_castro/2003_linguista_e_norma.pdf

    Outra coisa que Marcos Bagno tem defendido nalguns textos é a “independência da língua brasileira”…

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