A certa altura, comecei a ver surgir nas estatísticas do blogue algumas visitas de locais tão distantes como a China. Qual seria o interesse desses leitores por este blogue sobre a nossa língua? Vim a saber através dum comentário que algumas dessas visitas chinesas eram duma professora de Português na China: Cristina Bluemel. Atrevi-me a pedir-lhe um pequeno texto sobre como é ensinar Português por aquelas paragens. Aqui está o resultado.


Na República Popular da China as crianças normalmente ficam aos cuidados da mãe ou dos avós até aos três anos de idade. A partir dessa idade terá início o longo ciclo nas escolas, onde passam o dia inteiro. Todas as atividades, programas, funcionamento, normas, regulamentos académicos são estritamente ditados pelo governo e o seu cumprimento é controlado, em cada instituição de ensino, por representantes do Partido único, entre presidentes, diretores, professores, funcionários e também alunos. As avaliações fazem parte de um processo de seleção que se estende até à entrada no ensino superior, fazendo também parte do ensino a formação militar quer nas escolas quer nos quartéis.

No que concerne ao método de ensino, ele é essencialmente baseado na memorização de conteúdos e estruturas: o aluno deve ouvir e depois memorizar, através da leitura e repetição, todos os conteúdos que posteriormente deverão ser reproduzidos na respetiva avaliação; e existem métodos e técnicas para tal, tal como encontrar palavras e expressões-chave nas questões das provas que levam a descobrir qual a resposta certa.

Quanto ao ensino superior, está estruturado em três níveis, havendo instituições de ensino superior públicas e privadas, todas elas pagas: as universidades de primeiro nível, de referência nacional, as universidades de segundo nível, em número bastante mais elevado, e as faculdades vocacionais, ou de ensino profissionalizante; estas faculdades oferecem bacharelatos de três anos, enquanto as licenciaturas são de quatro anos.

Existem limites máximos de idade, para os alunos nacionais, de acesso ao ensino superior, mestrado e mesmo doutoramento, e os professores estrangeiros não são considerados professores, mas monitores (instrutores). Embora as duas denominações sejam traduzidas uniformemente para «teacher» e seja afirmado que significam a mesma coisa, para evitar constrangimentos, na verdade na língua chinesa é estabelecida essa distinção.

Comecei a lecionar Português aqui, numa faculdade de línguas estrangeiras, exatamente há dois anos — e logo à chegada a minha grande surpresa foi encontrar um curso de Português com cerca de 500 alunos distribuídos pelos 3 anos do curso: porque é que tantos jovens chineses escolheriam estudar português? A resposta chegou rapidamente: nesta região estão localizadas grandes empresas e indústrias que mantêm relações comerciais e operam nos países lusófonos de África e também Brasil.

No entanto (ainda não averiguei o porquê), o número de alunos que opta por português tem diminuído progressivamente, ao contrário do número de alunos que escolhe francês, que tem aumentado bastante e faz essa opção por motivos idênticos: o comércio e negócios com países francófonos, especialmente aqueles também localizados em África.

As unidades curriculares de gramática, leitura, escrita e fonética (pronúncia) são lecionadas por professores chineses, em chinês, sendo entregues aos professores estrangeiros as UC de compreensão oral (audição) e conversação (lecionadas separadamente) — e também aulas de vocabulário e diálogos relativos a negócios, comércio, turismo e redação de documentos.

Os métodos utilizados para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras são essencialmente baseados em meios e materiais de repetição e memorização de palavras e estruturas de frases que depois são adaptadas a cada circunstância e, no caso do português, é também transmitida a ideia de que a língua portuguesa é muito semelhante à língua inglesa, razão pela qual o inglês é usado frequentemente como língua terceira («de passagem») entre o chinês e o português. É muito comum, por exemplo, mesmo que fazendo isto apenas mentalmente, primeiro ser efetuada a tradução do chinês para o inglês, e depois do inglês para o português, com todos os inconvenientes que isso acarreta, tal como nos casos em que é usada a palavra “festival” ao invés de “festa”, e em vez de “feriado” a palavra “férias”, entre várias outras situações erróneas.

Geralmente as aulas são compostas por dois períodos de quarenta e cinco minutos cada, separados por um intervalo de dez minutos, e as turmas são constituídas por mais de quarenta alunos, exceto quando não há alunos suficientes para tal. Quanto aos materiais e recursos a serem utilizados em sala, existem vários tipos de restrições, não se podendo recorrer a livros ou filmes estrangeiros, porque teriam de passar previamente pelos órgãos de censura, e sendo apenas permitida a exibição de vídeos com uma duração máxima de cinco minutos, ficando todo o material exibido gravado nos computadores das salas de aula.

Mas, do meu ponto de vista, o maior desafio para que os alunos consigam atingir um bom nível no estudo e recurso ao português é conseguir levá-los a processar a informação e conhecimentos transmitidos, ao invés de apenas registar de memória — e fazê-los perceber que o chinês não é a língua mais difícil do Mundo e que todas as outras são fáceis, bastando por isso recorrer aos tradutores automáticos para fazer uma boa tradução.