Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Escândalo: a Apple deixa de defender a pureza da língua

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Há quem abomine isto, mas paciência. A verdade é que, nas conversas informais — e nós, hoje em dia, temos conversas informais por escrito, algo que, há umas décadas, só acontecia nalgumas cartas — misturamos línguas, usamos abreviaturas, enfim, fazemos trinta por uma linha da nossa pobre língua. Aliás, das nossas pobres línguas.

Por exemplo, o meu irmão e eu falamos muitas vezes durante o dia e no meio lá vão umas quantas palavras inglesas, por vários motivos.

Também entre tradutores, é habitual ter de escrever palavras noutras línguas, nem que seja para perguntar o que a outra pessoa acha da tradução X para a frase Y.

E todos nós misturamos tudo muito mais do que imagina quem lê os textos menos informais, mais públicos, um pouco menos espontâneos.

É o fim do mundo? Claro que não. Sempre foi assim desde que há línguas em contacto umas com as outras.

Só um exemplo (e há imensos): se as obras bem pensadas e bem escritas do nosso Eça estão eivadas de palavras francesas (leiam Os Maias!), temo que uma conversa do escritor com um dos seus amigos, depois do jantar, fosse um fartote de expressões francesas, com uma ou outra frase inglesa lá pelo meio e, presumo, exclamações em espanhol. ¡Ay, caramba!

Ora, não sei se já notaram, mas os telefones não ajudam muito nesta mescla toda. Quando estamos a escrever num dos novos smartphones que por aí há, as palavras noutras línguas são corrigidas para uma qualquer palavra portuguesa. Já muito me ri à custa disto.

Às vezes, a chatice é tanta, que lá acabo por escrever uma palavra portuguesa e pronto. Os telefones até se atrevem a corrigir palavras do registo mais popular ou de calão. São uns puristas, estes nossos bichos de bolso.

Se aqueles que não gostam destas misturas sentem uma grande felicidade no seu santo coração ao verem a tecnologia a impedir barbaridades várias, a verdade é que para todos nós, pecadores da língua, esta limitação dava muito pouco jeito.

Pois a Apple, que não é burra, lá veio com a solução: escrita bilingue. Encontrei a notícia numa página sobre cultura latina dos EUA chamada Remezcla — imagino que os jornalistas da página tenham de misturar muito inglês e muito espanhol nas suas conversas e, por isso, tenham ficado bem felizes com esta notícia.

Ou seja: a nova actualização do iOS ajuda a escrever palavras em várias línguas numa mesma frase sem ter de estar a mudar constantemente a língua do teclado  — o telefone percebe o que estamos a tentar escrever e ajuda a completar as palavras em várias línguas. Hoje em dia, o telefone já nos ajuda, mas limita-se a propor palavras da língua que estiver seleccionada no momento (com algumas falhas cómicas, como todos sabemos).

Sim, a Apple deixou de proteger a pureza linguística nos seus sistemas de escrita inteligente. Por outro lado, pensou nos desejos dos falantes comuns das muitas línguas que por aí há.

O fim do mundo está próximo! Arrependei-vos!

(Obrigado ao Jorge Beleza pela sugestão de correcção: onde estava «multilingue», devia estar «bilingue». E agora está!)

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4 Comentários

  1. Paulo

    Bom… Tu também os picas…
    🙂

  2. Curiosamente, a Apple está a fazer o que a Google já fez há uns meses atrás com o corretor ortográfico do seu navegador “Chrome”.
    basta adicionar os idiomas pretendidos e o navegador faz o resto.

  3. Sónia

    O meu smart(mas pouco)phone já faz isso há muito tempo, pelo menos nos sms 🙂 🙂 Desde que escolhi o idioma de introdução “English (UK)”, além do português. Uso escrita inteligente e aquilo funciona razoavelmente. E não, não é o reconhecimento de palavras anteriormente adicionadas por mim. Lucky me 🙂

  4. Paulo

    Marco, dá uma vista de olhos a esta entrada do blog do Pedro Moura.
    Caso não te interesse, passa por cima de todo o texto em inglês (embora seja muito interessanto sobre uma obra marcante da banda desenhada moderna), e dá atenção ao diálogo que se levantou na zona dos comentários.

    http://lerbd.blogspot.pt/2016/06/v-de-vinganca-alan-moore-e-david-lloyd.html

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