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Há dias apareceu por aí a notícia que 1 em cada 10 adolescentes nunca tinha lido um livro.

A notícia era apresentada como um drama nacional, com algumas implicações um pouco abusivas: que cada vez se lê menos, que os jovens estão perdidos, e por aí fora. É o típico pessimismo fácil de muitas peças de jornal.

Ora, vejam lá bem isto: 9 em cada 10 adolescentes já leu um livro. Para dizer a verdade, acho isto excessivamente optimista. Mas a quem acha que isto é muito mau sinal, pergunto: será que 9 em cada 10 adultos leu um livro nos últimos 15 anos? Talvez não. Vai na volta, os nossos jovens até andam a ler mais que os pais e avós deles…

Aliás, reparem nisto: as mesmas notícias dizem que, se 10% dos alunos nunca leram um livro, 14% das famílias não têm livros em casa. Este dado parece-me revelador: assim, numa primeira leitura destes números, parece haver vários alunos que não têm livros em casa e já leram pelo menos um livro. É um dado que nos deve inspirar a conseguir que ainda mais desses alunos sem livros leiam pelo menos um livro… Ninguém pode dizer que é impossível!

Muito mais preocupante seria se a percentagem de alunos que nunca leram um livro fosse maior do que a percentagem de famílias sem livro. Isso quereria dizer que estamos a perder leitores. Ora, não parece ser o caso. (Claro que os números são complicados e a percentagem de famílias não pode ser comparada directamente com a percentagem de alunos, mas estamos longe da catástrofe literária…)

Adoro ler e gostava que se lesse cada vez mais, mas ninguém ganha nada com o catastrofismo daqueles que não se interrogam dois segundos que seja se realmente se lê cada vez menos. Muito menos se ganha alguma coisa em andar aos gritos sempre que alguém diz que há uma parte da população que não lê (ó crime hediondo).

Já agora, eu, leitor assumido, quero confessar-me: dou-me com pessoas que não lêem e não tenho vergonha disso. Devia ir preso?

(Entretanto, leiam, falem de livros e talvez venha daí mais bem ao mundo do que com as declarações bombásticas de quem acha que estamos no fim dos tempos.)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.