Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

A falsa catástrofe da língua portuguesa

hindenburg-397013_1280

Catástrofe daquelas mesmo a sério

Por vezes, aparecem por aí umas discussões magníficas. Basta alguém ficar irritado com um «vocês» e o manto de comentários desaba pela página do Facebook abaixo.

Podia ser o «você» ou outra coisa — os comentários fervem de indignação com os tempos de agora e percebo, arrepiado, que, para muita gente, inteligente e informada, o português está à beira do precipício — ou talvez já tenha mesmo dado o fatal passo em frente e se encontre agora quase a embater no chão (e nós a ver).

Apelos ao bom-senso, por mais bem escritos e argumentados que sejam, enfrentam o silêncio (como se estivéssemos a falar línguas diferentes) ou respostas ainda mais catastrofistas.

Quem não segue este caminho do «pior é impossível» vê-se em risco de ser acusado de irresponsável, ingénuo ou, pior, linguista. As cabeças das pessoas de bem agitam-se numa reprovação incrédula perante tais desatinos — e, às vezes, até há quem vá buscar, ameaçadora, a bengala do Eça.

É o vocabulário pobre, é a sintaxe toda baralhada, é o regionalismo, o estrangeirismo, o erro, a dicção — é tudo e o seu contrário — e ainda a televisão, o ensino, a imprensa e tudo o resto. O português está a morrer, às mãos dum mundo mal-educado e torpe. (Pelos vistos, até o simples facto de tratarmos os escritores com um artigo definido — «o Camões», «o Pessoa» — é usado como prova da catástrofe linguística a que estamos a assistir.)

Agora, pergunto: será que este catastrofismo, mesmo que esteja errado (e não está, apressam-se muitos a gritar), faz mal? Não se dará o caso de ser o excesso de tolerância pior do que o excesso de cuidado? Muitos vão por aí: mais vale não arriscar e defender a língua com unhas e dentes…

Digo-vos a minha opinião: quem pensa que o português está pela hora da morte está, em geral, de boa-fé, mas profundamente errado — e este catastrofismo, embora não seja de agora, é negativo para os falantes da língua.

(Diria ainda: esses discursos sempre iguais, sempre aborrecidos e sempre pouco pensados, mesmo que bem escritos, só mostram um mau uso do bom português. É preciso escrever bem, mas também é preciso fazer algum esforço por pensar bem, mesmo que falhemos redondamente.)

Como? O português não está em perigo?

Exacto. E não digo isto só para contrariar. Digo este disparate porque acho ser a ideia que mais se aproxima da realidade. Posso estar errado, obviamente, mas é o que concluo quando penso no mundo à minha volta.

Reparem nisto, por favor, usando da vossa imaginação histórica, daquela que abarca o Portugal inteiro e não apenas o Portugal que se vê de certas janelas: por cada família em que os avós liam imenso e falavam num português-padrão irrepreensível e agora os netos falam mal e lêem pouco, há dez ou mais famílias em que os avós mal sabiam ler, falavam num português muito afastado do padrão — e agora os netos falam em «lisboeta» e lêem alguma coisa.

Claro que esta evolução — que podemos testemunhar em imensas família por esse país fora (basta sair das apertadas e provincianas ruas de uma certa Lisboa) — fez-se mais à custa de muito trabalho e muitos sacrifícios dos avós e dos pais do que do esforço dos grandes beneficiados. É, por isso, injusto até à medula acusar todas estas gerações de destruírem o português.

Mas, se é assim, por que razão tantos acreditam na falsa catástrofe?

Ora, isso nunca muda: em todos os tempos e lugares se acreditou que a língua — qualquer língua! — está em decadência.

O problema de análise de quem não consegue fugir a essa ideia-feita está no «erro da confirmação».

Do passado, lembramo-nos apenas do que era bom (e confirma o que pensamos). As nossas memórias já tiveram tempo de esquecer o que não prestava.

No alvoroçado presente, vemos de tudo e lemos os maiores disparates e nem notamos o bom que por aí há.

No futuro, haverá uns quatro ou cinco escritores que representarão o bom português do século XX e do início do século XXI; muitos ficarão admirados com o discurso catastrofista de quem vivia nestes áureos tempos do português…

Também se vê muito por aí o «erro da comparação mal comparada» (este inventei hoje). Comparamos os jovens todos de hoje com os jovens seleccionados de antigamente e concluímos que isto é uma choldra. Comparamos toda a escrita de hoje, no Facebook, nos blogues, nos livros imensos que por aí se publicam — e comparamo-los com Eça e Camilo, ponto final. Assim, a comparação sai sempre a favor da catástrofe, claro está.

Os filhos da massificação

Num mundo em que os vários mundos sociais contactam mais do que nunca, é normal que todos aqueles que cresceram num mundo mais espartilhado se sintam desconfortáveis por ver tanta gente a falar e a agir de forma um pouco diferente dos bons tempos (e das boas famílias…) de antigamente.

Mas, se me permitem, entre todos esses filhos da tão diabolizada massificação do ensino, muitos há que falam bem e escrevem razoavelmente — e, se formos contar, se calhar até arranjamos mais gente a escrever bem agora, em termos absolutos, do que no antigamente, em que o português-padrão era apanágio de uma pequeníssima parte da população e havia mais analfabetos do que hoje há gente a escrever.

Reparem: nunca tanta gente soube escrever (alguns melhor do que outros, claro); nunca tanta gente leu (nem sempre os livros bons que os poucos leitores de antes liam, mas ainda assim); nunca tanta gente falou o sotaque-padrão (o que parece ser importante para quem gosta de se sentir entre os seus).

Quanto ao vocabulário, será mesmo que estas gerações que foram à escola usam menos palavras diferentes do que os seus avós analfabetos? Há quem se incline a dizer que sim, mas noto que, quando alguém se ocupa a medir, mesmo a sério, as palavras usadas pelos jovens, a surpresa costuma ser grande.

As desvantagens do catastrofismo

Ora, mas haverá desvantagens em sermos catastrofistas?

Sim. Mesmo que a língua estivesse em decadência, estou em crer que as reacções desproporcionadas e as acusações altaneiras contra os coitados que não dominam os apertados dialectos de algumas cidades nada fazem para melhorar o estado do português.

A verdade é que andar sempre a martelar a nossa sensação de catástrofe iminente e a culpar todos e mais alguns por tal estado de coisas alimenta a insegurança de quem está a aprender e, atrevo-me a dizer, cria algum ressentimento contra as coisas da língua. Ah, e ainda impedem os catastrofistas de sentir prazer com tudo o que de bom se faz por aí.

Para celebrar o português, convém estar de olhos e ouvidos bem abertos e boca menos cheia de medos.

Anterior

O meu filho a falar (cada vez mais)

Próximo

A notícia da morte do português é um pouco exagerada

4 Comentários

  1. JC

    Qualquer estudioso da língua lhe dirá precisamente o contrário. Aliás, basta abrir um jornal, ouvir um telejornal ou ver comentários no Facebook. Para si está tudo bem. Tudo arde, mas está tudo bem. Como o optimismo é mesmo capaz de turvar a lucidez.

    • Marco Neves

      Percebo onde quer chegar, mas não posso concordar. Não se trata de «optimismo», mas apenas de análise do verdadeiro estado da língua, a que cheguei depois de ler muito estudioso da linguagem humana: fizeram-me repensar o meu pessimismo ingénuo (que também já disso padeci). Ficaria surpreendido se soubesse o que pensam verdadeiramente aqueles que estudam a língua como profissão.

      A antiquíssima ideia da decadência da língua é capaz de turvar a lucidez muito mais. Sempre houve quem achasse que «tudo arde», mesmo no tempo em que se escreviam as grandes obras da nossa língua.

      Depois, a verdade é que estudiosos da língua há muitos, uns mais acertados do que outros. Se tiver paciência para isto (já vi que não gosta muito do que lê por aqui), convido-o a reparar na expansão do português-padrão por toda a população portuguesa: é ou não verdade que hoje muito mais gente fala o que se chama o padrão do que há 50 anos?

      Se lhe der para isso, leia este próprio artigo e rebata os argumentos sem se escudar em estudiosos da língua que não nomeia.

      (Já agora, como não o posso contactar por e-mail pois insiste num estranho anonimato, digo-lhe por aqui que não aprovei um outro comentário seu, no artigo sobre o «Queria ou quer», pois acusava-me de um ódio pessoal que manifestamente não tenho por uma pessoa que nem sequer é referida no artigo e que não é responsável por aqueles erros que por lá critico [é verdade que foi com ele que primeiro vi referidos como erros «saudades tuas» e «pelos vistos», mas os outros dois erros nem por isso]. Aliás, se vir bem, neste blogue, referi aquele que me acusa de «odiar» (!) apenas uma ou duas vezes, para rebater alguns argumentos que julgo errados sobre o funcionamento da língua. Se, no meio das maiores desmesuras que se vêem por essa internet fora, as minhas palavras são interpretadas como «ódio», não sei o que lhe diga.)

    • Paulo

      O artigo apela basicamente ao ‘Bom Senso’.
      Coisa que muita vez falta por essa net fora.
      Ou no caso, por esta net dentro 🙂

  2. O português nunca tam boa saúde, tanta diversidade e tanta produçom teve.

Deixe uma resposta

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

Ao continuar a usar este website, autoriza a utilização de "cookies". mais informação

As definições de "cookies" neste website permitem a utilização de "cookies" para oferecer ao leitor a melhor experiência possível. Se continuar a usar este website sem alterar as definições de "cookies" ou se clicar em "Aceitar" está a autorizar o uso de "cookies".

Fechar