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«Fazer a barba» ou «desfazer a barba»?

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Digam-me lá: acham que devemos dizer «fazer a barba» ou «desfazer a barba»?

«Fazer a barba», claro. «Cortar» é um dos significados do verbo «fazer», desde que anteceda «a barba».

Agora, descobri no blogue de Helder Guégués (a que cheguei através de um dos sítios do costume) que há quem insista no «desfazer a barba».

Porquê?

Por causa, presumo, duma visão simplista da lógica da língua: se estamos a tirar alguma coisa, não podemos usar o verbo «fazer». (É isso ou outra coisa qualquer.)

Penso que esta tendência para inventar erros radica também na agradável sensação que algumas pessoas sentem ao ver os outros a errar. Se convencermos o nosso pobre cérebro que «fazer a barba» é erro, vamos assistir em gozo silencioso a muito erro alheio.

Em resumo, há quem encontre uma lógica aleatória para justificar uma irritação pessoal e, a partir daí, conclua que «os outros são estúpidos».

Isto funciona mais ou menos assim:

  • «Espera lá! A barba não se faz. Logo, não podemos “fazer a barba”. Logo, os outros são estúpidos.»
  • «Espera lá! “Comer” é verbo. Logo, não podemos dizer “o comer”. Logo, os outros são estúpidos.»
  • «Espera lá! “LOL” começou como sigla inglesa. Logo, não podemos usá-lo como palavra portuguesa. Logo, os outros são estúpidos.»

Não, não, não! Não se fiquem pelo primeiro passo. Pensem mais um bocado.

Pensem com um pouco menos de pressa na forma como a língua, de facto, funciona. Não fiquem convencidos que a língua obedece a uma lógica muito superficial e muito fácil, ao serviço das nossas irritações de ocasião.

Pensem que:

  • Há verbos com significados muito variados. «Fazer» é um deles. «Tomar» é outro. E por aí fora. «Fazer» quer dizer imensas coisas, incluindo «cortar a barba». E todos entendemos bem a expressão.
  • Há verbos que podem ser usados como substantivos: «o saber», «o olhar», «o comer». Sim, esta última expressão não é lá muito bem-vista em certos círculos, mas daí até representar um erro de português vai uma grande distância.
  • Quanto ao «lol», irrita muita gente, mas é uma sigla inglesa que se está a transformar em palavra portuguesa para uso em situações informais (talvez perdure, talvez não) — o mesmo já aconteceu com «laser», por exemplo, num registo muito menos informal.

Cada um fique com as irritações que quiser, mas não imponha lógicas criadas à força para as justificar. A língua é muito mais complexa do que isso, sujeita a mecanismos que mal começámos a compreender.

Tudo isto para dizer que impor o uso de «desfazer a barba» em vez de «fazer a barba» é um preciosismo inventado à pressão sem qualquer razão.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

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6 Comentários

  1. Gostei muito de seu texto, Marco! Há muitas pessoas que perdem tempo em criar rumores linguísticos sem fundamento teórico para mostrar-se inteligentes. Um caso típico é o do famigerado “risco de vida”. Basta um pouco de raciocínio para ver que o significado implícito é “risco de perder a vida”.
    Mas é mais fácil dizer que está errado e que os outros são estúpidos.

    • Marco Neves

      Confesso que não conhecia esse. Ainda há pouco tempo ouvi alguém queixar-se do «espaço de tempo», como se a nossa imaginação temporal não estivesse indelevelmente ligada à imaginação espacial. Alguém devia recolher estas pérolas de quem se acha muito purista.

  2. Rosanna

    Por ser tão interessante e de imediata compreensão vou partilhar com os jovens cá de casa, dos 9 aos 13 anos. O “simplifiquempobrecimento” da língua é um dos temas mais debatidos durante o jantar, após a apresentação de um livro ou o resultado de um teste de português.

  3. AM.

    Alto aí, ‘espaço de tempo’ discordo, não é associável aos outros casos.
    Primeiro, é desnecessário, pode (deve) dizer-se ‘lapso’, que mantém o som e custa menos a dizer…
    Depois, é literalmente incorrecto: espaço e tempo são as duas categorias ou vertentes do ‘ser’ (nada existe fora do tempo e do espaço, o que é é no espaço e no tempo), não podemos misturá-las sem criae confusão. Ou não?

    • Marco Neves

      Não concordo.

      O cérebro humano trata o tempo usando conceitos ligados ao espaço e todas as línguas reflectem isto usando expressões espaciais para se referirem ao tempo: «andar para trás no tempo», «andar para a frente» ou «vamos em frente» (referindo-se, uma vez mais, ao tempo). Isto é tão natural que, em muitos casos, nem nos apercebemos que estamos a falar do tempo usando metáforas relacionadas com espaço. Por exemplo, a «linha do tempo» com que explicamos os tempos verbais na escola acaba por ser também uma metáfora espacial.

      «Espaço de tempo» é apenas mais uma destas expressões que usa referências espaciais para melhor lidar com a realidade bem difícil que é o tempo.

      O livro The Sense of Style, de Steven Pinker, explica isto muito bem: por vezes, usar expressões espaciais é a única forma de conseguirmos falar do tempo naturalmente. O ser humano tem esta tendência cerebral para preferir visualizar o tempo em forma de espaço. (Abusando um pouco da ciência, podemos dizer que Albert Einstein veio dar confirmação científica a esta realidade: afinal, espaço e tempo são a mesma realidade.)

      Por isso, nada tenho contra a expressão em causa. Aliás, não me ocorre nenhuma frase em que «espaço de tempo» provoque alguma ambiguidade ou confusão.

      Sim, «lapso» pode ser preferível, mas apenas por motivos de sonoridade e gosto pessoal.

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