Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Livros em papel ou livros electrónicos?

 Talvez seja da inspiração dos islandeses ou da época natalícia — o Natal, a mim, cheira-me a livros, para lá de doces e do calor do jantar em família — o certo é que me anda a apetecer escrever sobre livros por aqui.

Falemos então da questão que mais enerva os bibliófilos de todo o mundo de há uns anos para cá: é melhor ler em papel ou num ecrã?

Como em tudo, a questão rapidamente descambou em partidos radicalíssimos: há quem adore o cheiro dos ecrãs — e todos aqueles (muitos mais) que recusam ler livros que não sejam de papel.

Ora, nesta questão dos livros de papel contra os livros electrónicos, a vantagem retórica vai para o Partido do Papel, que se faz valer das recordações de infância, do cheiro do papel, da tradição, das bibliotecas já existentes, das frases bonitas que se tiram da internet e por aí fora — é quase uma Irmandade do Livro, toda esta gente que jura a pés juntos que odeia livros que não sejam em papel.

Pronto, talvez não odeie, mas não gosta lá muito desses espertalhaços armados em tecnológicos que não sabem o que é bom.

O Partido do Livro Electrónico também tem as suas vantagens estratégicas: por exemplo, o silêncio — enquanto os outros estrebucham. No entretanto, são capazes de transportar milhares de livros no bolso, prontos a abrir a qualquer momento (pelo menos, quando têm bateria).

Dum lado, o doce sabor das memórias dos livros que folheámos. Do outro, o sabor a novidade e a utopia da biblioteca infinita (mas ainda assim bastante cara).

Antes de mais, não faço parte de nenhum destes partidos. Tenho livros daqueles pesados até dizer chega, mas também confesso ter já experimentado as delícias da tinta digital — e leio nos dois formatos.

Ora, agora que já passaram alguns anos desde a explosão dos livros electrónicos, talvez possamos pensar um pouco mais a frio neta guerra.

Vejamos então, com imparcialidade, as vantagens dos livros electrónicos — para logo depois avançarmos para as vantagens dos livros em papel.

Só para não deixar este artigo crescer para lá do que é confortável para os leitores deste blogue, limitar-me-ei a cinco vantagens para cada lado. Em relação às desvantagens, ficam para o ano, pode ser?

Cinco vantagens dos livros electrónicos

  1. Não precisamos de andar com muitos calhamaços atrás e mesmo assim podemos estar a ler cinco livros ao mesmo tempo. O que é bom.
  2. Podemos ler o primeiro capítulo de algum livro que nos desperta a curiosidade para ver se apetece ou não — e nem precisamos de ir à livraria.
  3. Podemos ler à noite, sem ter a luz ligada, o que pode irritar quem se deita ao nosso lado.
  4. Não precisamos de comprar novos equipamentos: basta instalar aplicações como o Kindle no telemóvel.
  5. Podemos fingir que estamos a ser zombies sempre de olhos nos ecrãs, irritando aqueles que gostam de se queimar de tudo — e afinal estarmos a ler o mais interessante livro do mundo. Ou seja, podemos estar a sentir um enorme prazer e a ficar bem mais ricos (por dentro) sem que ninguém perceba. Um segredo só nosso.

Cinco vantagens dos livros em papel

  1. Podemos oferecê-los à vontade: a verdade é que oferecer livros electrónicos é difícil e um pouco ridículo. «Olha, aqui tens um embrulho. Lá dentro está um papel com o título do livro que te comprei para o telemóvel.» Mas há pior: já tentei oferecer um livro electrónico ao meu irmão e, dois anos depois, o livro ainda está a caminha. Nem os correios se atrasam tanto…
  2. A sensação de que um livro em papel funciona em qualquer lado é magnífica. Para quem anda sempre aflito com a bateria do telemóvel, ter um livro pronto a ler ali ao lado é um alívio, sem pensar em mais carregadores e tomadas que nunca chegam.
  3. Podemos coleccioná-los: sim, podemos ter 1000 livros no telemóvel, mas os livros também são objectos, com cor e peso e textura — e isso é bom. (Assim se explica que tanta gente tenha tantos livros que ainda não leu — algumas almas ficam intrigadas com este fenómeno, mas os livros que não lemos também fazem parte da vida de quem é viciado.)
  4. É mais fácil dar uma olhadela e ter noção do livro antes de começar — e também voltar ao livro depois de o ler e recuperar as sensações apenas com o folhear das páginas. Parece-me a mim — mas posso estar enganado — que é mais fácil aprender em papel. Procurar uma passagem (por mais estranho que pareça) também é mais fácil. E, ao folhear ao calhas, encontramos sempre alguma coisa boa. Nos livros electrónicos, não é tão fácil andar a ler o livro ao sabor da sorte e do azar.
  5. E depois, claro: o cheiro, as recordações, até — perdoem-me — os cortes de papel nas mãos. Tudo isso faz parte e é saboroso. E ainda a possibilidade de escrevinhar, de sublinhar ou simplesmente de pôr o nosso nome e a data na primeira página.

Parece-me que os livros em papel ganham nos argumentos retóricos. E, de facto, se puder escolher, escolho — para mal das minhas estantes — um livro em papel.

Agora, quero dizer-vos isto: os livros ensinaram-me a desconfiar de mim mesmo, a desconfiar das minhas próprias preferências e — mais importante — a desconfiar dos erros de pensamento em que todos caímos mais tarde ou mais cedo.

Ora, um dos erros de pensamento que por aí anda são as falsas dicotomias. E está é uma delas! Parece que temos de escolher. Parece que só podemos ler ou livros em papel ou livros em ecrã.

Na verdade, não temos de escolher. Podemos ter livros em papel e livros em píxeis. Os ditos não são ciumentos. Vou a uma livraria, compro em papel. Quero experimentar um capítulo de um livro, descarrego-o da Amazon. Preciso de lê-lo já, compro para o telemóvel. Não temos de dizer «nunca» a nenhum deles…

Muitos livros para 2016 — é o que vos desejo.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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4 Comentários

  1. L. Abrantes

    Gosto muito dos objectos físicos. Mas para ler, não há nada melhor que um e-reader (não uma tablet, nada de telemóvel). E hoje ler ou não ler um livro resume-se à questão de ter a versão digital ou não.

  2. Félix do Carmo

    E os audio-livros? A quem nunca experimentou, juntem ao prazer de ler a voz do autor ou de um actor, os olhos na estrada e um som que conta uma história, entrecortada por um breve separador musical para as mudanças de capítulo. Depois, há o retomar da história quando a viagem a interrompe, sem ser preciso marcar ou recordar a página onde se estava. Já ouvi livros do Paul Auster e do Nick Cave e as recordações das palavras são cheias, sonoras, com algo mais do que linhas e traços pretos sobre folhas brancas a cansar os olhos.

    • Marco Neves

      Nunca experimentei, mas vou aproveitar a deixa. Depois deixo aqui as minhas impressões. Obrigado, um abraço e bom 2016! 🙂

  3. Por todas as razões que invoca poderei concordar, mas decididamente: gosto do cheiro do livro em papel,mesmo do reciclado,gosto de “acariciar ” o livro, e de o abrir com uma daquelas facas próprias para o efeito e de vez em quando pegar numa obra que gostei e ler ,por vezes um determinado parágrafo ou mesmo algo de mais extenso,para sentir como uma visita a um velho amigo.
    Por outro lado detesto estar sentado frente à “PANTALHA”,prefiro lêr sentado no chão.
    Como não fumo,não bebo,não consumo drogas, nem gasto o meu dinheiro em coisas impróprias, designadamente “comezainas” de qualquer espécie, aplico o meu “vil metal” em comprar livros.
    Enfim coisas de velho casmurro, que em certas circunstâncias utiliza a informática, mas não para lêr livros,mas outrossim jornais.

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