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A História de Portugal em três linhas e o desamor inglês pela União Europeia

Há uns anos, pus-me a escrever um texto sobre a Inglaterra e o seu desamor pela União Europeia. Agora que chegámos ao ponto em que os ingleses vão mesmo votar se ficam ou se saem, publico-o por aqui. É a minha visão sobre essa relação difícil entre ingleses e Europa.

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História de Portugal em Três Linhas

Se pedirmos a um português qualquer para explicar a história de Portugal em poucas palavras, o mais provável é ouvirmos algo do género:

Fomos invadidos muitas vezes pelos espanhóis, conseguimos vencê-los quase sempre, nem que fosse à pazada, fizemos os Descobrimentos e depois entrámos em decadência.

Ah, tudo o que desaparece por entre estas três ou quatro linhas…

Isto é normalíssimo e todos os povos o fazem: uma grande parte da população olha para a história do seu país como um enredo simplíssimo, fácil de entender — e que, diga-se, é bastante homogéneo entre as várias versões que encontramos na boca de muitos dos contadores. Gostava de sublinhar que escrevi «grande parte da população». Há, claro, muitas pessoas com um conhecimento mais profundo da história. Mas as três linhas, essas três linhas têm muita força.

Este enredo simplíssimo é, depois, envolvido numa nuvem de ideias vagas sobre o próprio país, sobre a história, sobre a sua relação com os vizinhos. São ideias muito pouco estruturadas, que se resumem a poucas frases, porque se fossem mais complexas não estariam presentes de forma tão forte na cabeça de tanta gente.

No fundo, estou a falar do mínimo denominador comum do relato histórico sobre o nosso país. Talvez seja mais correcto dizer que cada um de nós tem ideias próprias e mais desenvolvidas sobre o nosso país, mas há sempre um núcleo que todos partilhamos — e não é preciso que todos concordemos com a tal história em três ou quatro linhas para que a mesma seja partilhada por todos: um português que diga que os Descobrimentos não foram assim tão importantes sabe perfeitamente que está a ir contra o que a maioria dos outros portugueses pensa.

O amor inglês pela União Europeia

Há uns anos, depois de conversar com o meu irmão Diogo, que está a viver em Inglaterra desde 2008 e me perguntou a opinião sobre a razão por que os ingleses gostam tão pouco da União Europeia, pus-me a pensar se por trás dessa falta de amor pela UE não estaria a tal «história simplificada» que todos os povos têm. Afinal, os outros europeus também não morrem de amores pela UE, mas os tablóides do Continente não fazem manchetes com ataques a Bruxelas, pelo menos com a regularidade com que os ingleses o fazem. Mais: a extrema-direita inglesa criou um partido chamado UK Independence Party, dando a entender que o Reino Unido perdeu ou está em risco de perder a independência para esse monstro que é a União Europeia.

Bem, não quero cair no erro de simplificar tudo isto. Obviamente, como em tudo, há muitas explicações e até opiniões diferentes sobre o fenómeno: há a economia, há o medo da imigração e tudo o mais. Por exemplo, é possível argumentar que os ingleses gostam tanto (ou tão pouco) da UE como qualquer outro europeu, mas os seus jornais são mais «sinceros», digamos assim, ou seja, transmitem de forma mais fidedigna o que os ingleses «comuns» pensam.

Não consigo analisar aqui todas as nuances do tema (alguém consegue?) e por isso vou dar de barato que os ingleses, de facto, gostam menos da União Europeia do que os outros povos — se não for verdade, interpretem o que vai abaixo como a minha teoria sobre a razão por que alguns ingleses não gostam mesmo nada da União.

Dito isto, penso que é possível dizer que, por trás deste eurocepticismo todo, estará também a tal «história simplificada» que cada inglês tem dentro da cabeça.

«Somos tão apetitosos que todos nos querem invadir!»

Ora, qual será a tal História Simplificada de Inglaterra? Como falo de certas ideias gerais, que estão inscritas na visão do mundo que se percebe nas conversas, histórias, opiniões, anedotas, é difícil chegar a conclusões sólidas — porque esta história simplificada não se diz, sabe-se.

Se para um português é fácil perceber qual a ideia que os portugueses têm da sua história, tentar discernir qual a «história simplificada» doutro povo é muito difícil. Mas, de certa forma, quando nos esforçamos para perceber que história é essa, como estamos de fora, vemo-la com maior nitidez, tal como vemos com maior nitidez o que é diferente quando visitamos um país estrangeiro.

Ou seja, tal como para um inglês a ideia muito portuguesa de que já fomos os donos do mundo e para um espanhol a ideia de que andámos a ser invadidos por Espanha todos os fins-de-semana parecem estranhas (um inglês e um espanhol pouco ouviram falar de Portugal nas aulas de história e pouco falam de Portugal nas suas conversas diárias: onde carga de água entramos nós na sua visão do mundo?)  —  para um português, certas ideias que um inglês tem sobre o seu país, uma vez descobertas, tornam-se salientes, porque têm a estranheza do novo ou do improvável (no fundo, todas estas «histórias simplificadas» são extremamente improváveis, se pensarmos bem; mas quando estamos mergulhados nelas, parecem tão naturais como o vento).

Para começar, há algo que é óbvio para um inglês: a Inglaterra é uma ilha. Um escocês e um galês não concordariam, porque a Inglaterra partilha uma ilha, mas não é, ela própria, uma ilha. Ora, para o caso o que importa são as impressões — e, diga-se, para os ingleses, a diferença entre «Inglaterra» e «Reino Unido» é bem menos marcada do que para os escoceses e galeses. O que os ingleses sentem, neste ponto, é simples: o país deles é uma ilha e, por ser uma ilha, está fisicamente fora do continente europeu. Além de ser uma ilha é, acima de tudo, uma ilha apetecível («um outro Éden», Shakespeare, Richard II).

Inglaterra é uma espécie de pérola, sossegada e majestosa, longe do ruído e confusão dum continente cheio de guerras, revoluções e confusões. Um pouco à parte da Europa, os ingleses vêem a sua história como um percurso de pequenos passos, sem grandes convulsões e quase sem revoluções ou guerras (este é, sem dúvida, o ponto em que a «história simplificada de Inglaterra» mais se afasta da «história real de Inglaterra»).

Sendo uma ilha apetecível, vários povos tentaram invadi-la, de várias formas, ao longo da história. Os ingleses, para manter a sua individualidade e independência, sempre se defenderam e sempre conseguiram derrotar todas essas invasões. Isto, claro, desde a última invasão bem-sucedida, que já foi no longínquo ano de 1066. Para isto, temos de ignorar a Glorious Revolution 1688, que estivéssemos nós noutro sítio do mundo podia muito bem ser descrita como Invasão Holandesa de 1688.

Apetitosa, a Inglaterra?

Ora, perante isto, um português sente a tal estranheza que um estrangeiro sente perante as ideias de outros povos sobre si mesmos. Primeiro, o que terá a Inglaterra de tão «apetecível»? Para um latino, a Inglaterra está longe de ser um objecto de desejo, com tão pouco sol. Depois, que raio de invasões foram essas, das quais ninguém ouviu falar?

Estas invasões não são, propriamente, invasões físicas do território inglês, mas sim tentativas ou projectos: a Armada Invencible de Filipe II, o mais poderoso monarca do mundo, que foi derrotada pelos ingleses; o projecto europeu de Napoleão, que queria unir toda a Europa sob o domínio francês, e foi derrotado em Waterloo pelos ingleses; e, finalmente, os exércitos de Hitler, que também deveriam ter marchado por toda a Europa, incluindo Inglaterra, mas nunca conseguiram atravessar o Canal da Mancha. Sim, todas estas «invasões» têm uma história muito mais complexa e em todas os ingleses tiveram aliados que não devem ser ignorados. Mas isto é a história simplificada. A história à bruta, se quiserem.

Houve ainda outras formas de invasão, na óptica dos ingleses: o controlo da Igreja Inglesa a partir de Roma acabou por ser visto como uma invasão e prontamente repelido; ou o casamento de Filipe II com Maria I de Inglaterra, que pôs em causa a independência de Inglaterra até Isabel I subir ao trono (a rainha sob a qual os ingleses venceram a Armada Invencible).

Mesmo uma invasão real e bem sucedida (a tal invasão holandesa que levou ao trono Guilherme III e Maria II) acabou disfarçada na «história simplificada» como Glorious Revolution, a revolução que afastou de vez o catolicismo da coroa inglesa e institui a democracia em Inglaterra. Ou seja, quando de facto são invadidos, os ingleses não são invadidos, mas antes «libertados do jugo papista».

Nestas invasões, a história simplificada (simplificadíssima!) para os ingleses é: a Europa cai sempre às mãos dos projectos unificadores, pensados por tiranos, acaba sempre controlada pelos poderes perigosos que são a Espanha, a França, a Alemanha ou o Papado — e a Inglaterra é o último reduto, a pequena aldeia livre, o povo que, teimosamente, não é invadido, mantém-se democrático, monárquico, anglicano, anda pela esquerda, usa a libra e odeia profundamente tudo o que é «uniforme», «unificador» e «pan-europeu».

O papão de Bruxelas

Ora, se a Inglaterra é sempre o último reduto perante as vagas de uniformização e unificação europeias, onde é que isto a coloca perante a União Europeia?

Todo o projecto europeu é visto através desta lupa: a UE é mais uma tentativa (pacífica, é certo) de unificar a Europa, de a uniformizar, de a colocar sob o domínio de um dos grandes países do Continente (a Alemanha, obviamente). Por isso, tudo o que vem de Bruxelas é uniformizador, unificador, uma ameaça à particularidade inglesa e, no extremo, uma afronta à democracia parlamentar e à soberania inglesas. Tudo o que Bruxelas faz é mau e especialmente revoltantes para um inglês são as histórias (verdadeiras ou falsas) sobre as tentativas dos eurocratas de formatar o que é tipicamente inglês: uma moeda única, um cartão de identidade, as unidades de medida, a forma das bananas, o tamanho dos preservativos e tudo o mais.

Em suma, os ingleses vêem-se como orgulhosos ilhéus, individualistas, democráticos, corajosos. Querem, segundo eles, viver como bem entenderem, sem imposições europeias. Por isso a UE é tão ameaçadora: é mais uma invasão, desta vez disfarçada e, por isso, especialmente perigosa. Estas ideias têm origem na tal história simplificada sobre o «último reduto».

Sim, é verdade: esta história tem buracos por todos os lados. A Inglaterra não é uma ilha de paz no meio dum continente de guerra. A Inglaterra é um dos poderes europeus e participou activamente na política e nas guerras europeias tanto quanto os outros países. Os ingleses têm voz na União e participam nas suas decisões. Os ingleses não são assim tão diferentes dos outros europeus (ou são diferentes da mesma maneira). A história tem buracos e é, em grande parte, enganadora, mas existe e tem impacto no dia-a-dia. E, diga-se, tal como todas as ficções, tem sempre um fundo de verdade que contribui para lhe dar força.

Nós e os outros

É com base nessa história simplificada que nos baseamos para definir os chamados valores nacionais, as ideias sobre os outros povos e tudo o mais que faz parte das nossas narrativas de identidade. No nosso caso, a nossa imagem dos espanhóis deve muito à «História Simplificada de Portugal» que temos na cabeça. Até as nossas imagens dos ingleses devem muito a pequenas frustrações relacionadas com essa história: afinal, podemos muito bem dizer que, sem ingleses, não teríamos derrotado os espanhóis durante as tais invasões quinzenais por parte dos nossos vizinhos e ser ajudado por outro país é sempre uma ferida aberta no nosso orgulho — e os ingleses nem sempre se comportaram muito bem quando nos vinham ajudar. Velhas histórias…

Ou seja, ligadas à visão sobre si próprio, cada povo tem determinadas visões sobre os outros. Os ingleses vêem os outros europeus como facilmente conquistáveis pelos tiranos e um pouco, digamos assim, cobardes. Os portugueses vêem os ingleses como um pouco excêntricos e com a mania que são melhores do que os outros. No fundo, a Europa é um pouco como um recreio duma escola, em que cada um tem uma ideia sobre si próprio e pequenas histórias com os outros e o comportamento de cada um é influenciado por essas ideias e por essas histórias.

Podemos ver os ingleses como o miúdo ligeiramente excêntrico que acha que os outros andam a toque de caixa dos brigões da escola e que faz questão de estar um pouco à parte — e, já agora, de se dar bem com o irmão mais novo (os EUA), que anda noutra escola e é mais famoso e popular, embora nesta nossa velha escola seja um pouco mal visto.

Agora, é preciso dizer isto: no final de contas, os meninos andam todos na mesma turma e estão condenados a entender-se, mas o recreio é o sítio das brincadeiras e da imaginação  —  mas, brincadeira ou não, às vezes acabam mesmo todos à briga. O que vale é que a última briga já foi há uns setenta anos. O que não deixa de ser muito bom, tendo em conta que quando estes meninos brigam, o mundo costuma ir todo atrás.

Vamos lá ver como se porta a turma no próximo ano lectivo.

(E vamos lá ver, acrescento eu agora, se o menino inglês não se vai embora e bate com a porta na cara dos colegas.)

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3 Comentários

  1. Paulo

    Há uma coisa que me vem irritando há bastante tempo (assume isso como a minha guerra contra os moinhos)..

    É a noção que a “democracia” só é boa quando é de acordo com as nossas ideias.

    Exemplificando:
    https://www.publico.pt/mundo/noticia/ue-irlanda-rejeitou-tratado-de-lisboa-1332224

    http://www.tvi24.iol.pt/europa/rating/islandia-recusa-pagar-dividas-e-esta-em-alerta-negativo

    E porque refiro isso aqui nesta tua crónica? É simples. Se os ingleses em referendo decidirem sair da UE, é a democracia a funcionar.
    Tal como foi quando os escocesses decidiram ficar no UK.
    E como a Espanha (e o resto da UE) tem receio de deixar a Catalunha e demais regiões referendar .

    E isso deriva da psique colectiva?
    Provavelmente!

    Olhaste para os USA como sendo uma religião a “adoração” que eles têm pelo país.
    Temos de assumir que os ingleses têm algo similar referente ao continente….

    • Marco Neves

      Ah, mas sim: isto é democrático. O Reino Unido, nisso, é bastante correcto, até na aceitação dum referendo pela independência da Escócia. Acho que os ingleses fazem mal em sair, mas se assim decidirem, está decidido.

  2. Jacinto

    Quer-me parecer que em Portugal (e não só) também existe muitos que querem sair da UE. Sermos governados por gente que não foi eleita por nós e com os resultados que se têm visto não é propriamente atraente.

    A única grande diferença, a meu ver, é que Inglaterra tem independência financeira para tornar essa independência real. Acho mesmo que o vão fazer e irão beneficiar com isso.

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