Depois do Brexit, apareceram uns zunzuns sobre o fim do domínio do inglês enquanto lingua franca na União Europeia. A revista The Economist desta semana traz um pequeno artigo sobre as razões por que esse fim é muito pouco provável, apesar da recente piada de Juncker.

Na verdade, a força do inglês, na Europa, é uma espécie de bola de neve gigantesca e o Brexit, nesta questão linguística, não será mais do que uma pequena pedra no caminho. Afinal, como refere a revista (o negrito é meu):

Among students at lower secondary level outside Britain, 97% are learning English. Only 34% are studying French and 23% German. In primary school 79% of students are already learning English, against just 4% for French. Some countries, such as Denmark, begin English in the very first year.

Nos corredores da Europa, o inglês continuará a ouvir-se — e mais ainda nas ruas da Europa, sempre que dois europeus de países diferentes se encontram. Mais: continuará a ser uma das línguas de trabalho e nem sequer vai deixar de ser oficial, pois ainda sobram dois países que têm o inglês como língua oficial (Irlanda e Malta).

Para quem fica um pouco aborrecido com este estado de coisas: lembre-se que, sem a União Europeia e a sua insistência em criar legislação em 24 línguas e em promover o ensino das várias línguas, o domínio do inglês talvez fosse ainda mais avassalador. Por outro lado, a verdade é que o inglês que é usado nos corredores da União Europeia e entre europeus de outras nacionalidades não é bem o inglês britânico. É uma língua simplificada — alguns dizem trucidada —, uma espécie de ferramenta em que pegamos para nos irmos entendendo todos. Essa língua não irá substituir todas as outras línguas nos próximos tempos, mas também não vai desaparecer. Como já aqui escrevi há muito tempo, quanto tentei explicar a razão por que muitos galegos insistem em aprender galego:

As pessoas querem comunicar, claro. Aprendem o que for preciso para isso. Mas não aceitam que lhes digam que a língua em que cresceram não serve para nada. Querem viver na sua língua e, depois, aprender também as línguas que lhes sejam úteis a cada momento da vida.

O nosso inglês muito pouco britânico, mal ou bem, vai continuar a ser útil por muito tempo. A bola de neve não vai cair do precipício.