Já todos sabemos como é o ambiente nas caixas de comentários por essa internet fora. Para lá entrar, é preciso fato protector.

Ora, há uns dias, numa rápida aventura por um esgoto desses, encontrei um curioso caso de insulto bumerangue.

Estava na caixa de comentários a uma entrevista a Noam Chomsky. O linguista norte-americano, como é seu hábito, falava de muita coisa para além da linguística.

Um comentador armado ao pingarelho, perante um americano a falar de política e não sei que mais, escreve algo deste género: “Cá está mais um americano ignorante que acha que sabe tudo”.

Fartei-me de rir.

Podemos acusar Chomsky de muita coisa: há quem não goste daquilo que fez na linguística e há quem não concorde com uma palavra do que ele diz sobre política externa norte-americana — afinal, Chomsky é um crítico implacável dessa política, de tal forma que por vezes raia o extremismo. (Há ainda quem tente dialogar com ele sem grande sucesso.)

Agora, aquilo de que ninguém pode acusar Chomsky é de ser ignorante.

Qualquer anti-americano europeu que se preze tem de conhecer Chomsky. Ele é uma das base intelectuais da crítica àquilo que os EUA fazem no mundo.

Ver alguém a usar Chomsky como exemplo da ignorância dos norte-americanos é das coisas mais retorcidas que já vi por essa internet. Será o mesmo que acusar os europeus de serem pseudo-intelectuais usando o Berlusconi como exemplo.

Aquele comentário anti-americano era uma demonstração profunda de ignorância: qualquer anti-americano que se preze conhece Chomsky.

Eis, assim, um óptimo exemplo de insulto bumerangue: alguém lança um insulto valente a outra pessoa, mas o insulto está construído de tal forma que dá meia-volta no ar e acerta em cheio na cara de quem insulta — sem ser preciso fazer mais nada. É só ficar a rir.