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Há uns dias, vinha a conduzir pelas ruas de Lisboa ao fim da tarde (que agora já é noite), quando me apareceu na rádio o Jorge Palma a cantar Rui Veloso.

Aquela junção da voz de Palma com uma canção que sempre ouvi na voz de Rui Veloso, com a sua inconfundível voz portuense, fez-me um curto-circuito qualquer.

Ali sentado no trânsito, à espera que o semáforo passasse a verde, a voz já quebrada de Jorge Palma, dos muitos anos e vida que leva em cima, soou-me ao perfeito timbre lisboeta. Rui Veloso tem o Porto na voz e Jorge Palma tem Lisboa na voz.

Há outra voz que identifico de forma muito particular com Lisboa: Sérgio Godinho. A voz dele tem um outro timbre lisboeta: o da política dos anos 70, dos jovens de vidas a arder na faculdade, com os olhos brilhantes das ideias que mudam o mundo inteiro aqui e agora, entre beijos e cigarros.

Jorge Palma é outra coisa: bebedeiras ao fim do dia, entre quem não quer saber e quem já está cansado, festas de amigos num apartamento da Costa da Caparica ali por volta de 1979, todas essas décadas e toda a cidade a aparecer-me em imagens de vidas que não são minhas.

A música é assim: um rapaz nascido em 1980 acaba com memórias dos anos 70 na cabeça.

Estes timbres, estes imaginários urbanos, estas pequenas memórias que todos temos não são só dos lisboetas (ou dos portuenses): são de todos os portugueses e de quem cá cair por acaso. É assim a vida — e a música.

Fonte da imagem: http://www.guiadacidade.pt/pt/art/jorge-palma-sergio-godinho-juntos-284476-03