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Será que José Rodrigues dos Santos fez uma piada homofóbica em directo?

Vi o vídeo e fiquei incomodadíssimo: aquilo parece ser o resultado de uma qualquer confusão estranha. De alguma forma, ele pensou que estava a falar da deputada pensionista. Mas naquele momento, sabendo de quem ele estava a falar, também percebi o óbvio: seria quase impossível não cair na tentação de ver ali uma piada sobre a orientação sexual do deputado mais velho da nova Assembleia.

Um qualquer engano estranho (como acontecem tantos a todos nós) parece-me bem mais provável do que ter ali um jornalista a fazer uma piadola fora de contexto, em directo e, ainda por cima, sem se rir ou fazer um dos seus típicos esgares (o que, conhecendo o estilo, teria sido normal caso estivesse a pensar numa piada — se José Rodrigues dos Santos tivesse, de facto, o desplante de fazer aquela piada propositadamente teria também o desplante de, sei lá, piscar o olho ou sorrir com ar malandro).

O engano existiu. Se o deputado mais velho não fosse homossexual, ninguém teria reparado em tal erro. Mas, sendo-o, a interpretação que se cristalizou na cabeça de muitas pessoas, já um pouco predispostas a não gostar do apresentador por outros motivos, foi a de que tínhamos ali um exemplo gritante de homofobia mal disfarçada.

Parece-me que José Rodrigues dos Santos teve um azar tremendo: a ideia não se desvanecerá porque tudo o que disser parecerá desculpa de mau pagador. E o maniqueísmo que anda por aí é tão forte que qualquer tentativa de desdramatizar a situação será vista como pura e dura homofobia.

Ora, não é assim que se combate a real homofobia que existe na nossa sociedade — e que não se revela nesta suposta (e inexistente) «piada».

Fico triste, porque estes linchamentos online parecem estar a ficar cada vez mais frequentes. Parece que andamos todos com sete pedras na mão à procura desesperadamente de gente para o apedrejamento. Ao mínimo deslize ou perante uma situação que possa ser interpretada como deslize, acabam-se as dúvidas: voam as pedras — ou as palavras, que às vezes doem quase tanto como as pedras.

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