Sim, eu sei, não devia confessar tal crime: mas às vezes, ao tentar escolher um livro para ler, vou directamente ao final. E às vezes acabo por julgar um livro por esse fim, o que pode ser precipitado. Não podendo comprar todos os livros, sempre é melhor do que julgar um livro só pela capa, ou não será?

Ao encontrar este artigo de Desidério Murcho no De Rerum Natura sobre Sapiens, de Yuval Harari (em português: História Breve da Humanidade), lembrei-me de um episódio no Aeroporto de Stansted, quando estava a voltar de uma visita ao meu irmão, cunhada e sobrinha, em Outubro último. Estava à espera do voo e lá acabei a folhear livros nas papelarias de aeroporto (que, na Inglaterra, são autênticas livrarias, com livros de aeroporto, mas também livros bem mais interessantes).

Encontrei o tal livro, Sapiens, e pus-me a folhear, interessado. Acabei por olhar para a última página e, confesso, fiquei incomodado:

“[…] despite the astonishing things that humans are capable of doing, we remain unsure of our goals and we seem to be as discontented as ever. We have advanced from canoes to galleys to steamships to space shuttles — but nobody knows where we’re going. We are more powerful than ever before, but have very little idea what to do with all that power. Worse still, humans seem to be more irresponsible than ever. Self-made gods with only the laws of physics to keep us company, we are accountable to no one. We are consequently wreaking havoc on our fellow animals and on the surrounding ecosystem, seeking little more than our own comfort and amusement, yet never finding satisfaction.

Is there anything more dangerous than dissatisfied and irresponsible gods who don’t know what they want?” (Sapiens: A Brief History of Mankind, Yuval Harari, 2014.)

Ora, isto está extraordinariamente bem escrito, mas parece-se demasiado com uma certa retórica anti-humanista que pessoalmente acho muito difícil de engolir.

Mas vejamos, ponto por ponto, este final:

“[…] despite the astonishing things that humans are capable of doing, we remain unsure of our goals and we seem to be as discontented as ever. We have advanced from canoes to galleys to steamships to space shuttles — but nobody knows where we’re going. We are more powerful than ever before, but have very little idea what to do with all that power. […]”

Certo: mas por que razão temos de saber para onde vamos enquanto espécie? Não será suficiente resolvermos os problemas (que já são tantos) e deixar cada humano encontrar o seu caminho, em grupos livres ou individialmente? Não serão aqueles iluminados que vêem um objectivo último para a humanidade responsáveis pelas grandes desgraças colectivas que todos conhecemos?

[…] Worse still, humans seem to be more irresponsible than ever. […]

Em que sentido seremos mais irresponsáveis do que quando nos matávamos ainda mais do que hoje? Quando andávamos quase todos a fazer aquilo que agora nos horroriza? Aquilo que o ISIS fez ao piloto jordano era o pão nosso de cada dia em Lisboa, ainda há uns séculos: as famílias iam assistir… Será que hoje, quando falamos do ambiente, tentamos controlar o nosso impacto, discutimos o futuro e tentamos melhorar os indicadores económicos e ambientais (com alguns resultados), somos mais irresponsáveis? Os outros animais fazem o que têm a fazer sem grandes preocupações com o impacto que têm. Nós somos os primeiros animais a olhar em volta e a ficar preocupados com o planeta na sua globalidade. Somos ainda muito irresponsáveis, mas mais do que nunca? Parece-me um exagero.

[…] Self-made gods with only the laws of physics to keep us company, we are accountable to no one. We are consequently wreaking havoc on our fellow animals and on the surrounding ecosystem, seeking little more than our own comfort and amusement, yet never finding satisfaction. […]

Aqui dói-me, por ser verdade a parte da destruição da natureza, mas também somos a primeira espécie que se preocupa com isso, a primeira espécie em que (pelo menos parte) dos indivíduos tenta tomar consciência e minorar as consequências do que fazemos. Sim, não somos responsáveis, enquanto espécie, perante ninguém, mas que outra opção temos? Entregarmo-nos todos nas mãos de um deus de alguma religião do mundo? Cada um pode fazê-lo (ou não), mas deve a Humanidade, enquanto espécie, optar por isso? Se não for essa a ideia do autor, a verdade é esta: não temos ninguém a mandar em nós e, mesmo assim, acabamos preocupados com o que estamos a fazer. Lembrem-se: todas as espécies procuram pouco mais do que o seu próprio conforto e divertimento. Nós também procuramos conforto e divertimento (e depois?), mas também conseguimos ver mais além e preocuparmo-nos com o mundo. Devíamos fazê-lo ainda mais? Sem dúvida: mas este ataque impiedoso está, simplesmente, a acusar os humanos de não serem os anjos perfeitos que nunca fomos.

[…] Is there anything more dangerous than dissatisfied and irresponsible gods who don’t know what they want?”

Não conheço muitas pessoas que se considerem deuses, mas tudo bem. Agora, a resposta: sim, há algo mais perigoso do que “deuses que não sabem o que querem”: seres humanos que sabem muito bem o que querem. Todos aqueles que têm um sentido a dar à vida de toda a Humanidade, quer ela queira quer não. Chamem-lhe “califado”, “sociedade perfeita” ou o que for. As certezas daqueles que sabem muito bem o que querem são perigosíssimas. Prefiro seres humanos que vão vivendo sem saber bem o que querem para toda a humanidade. Quer se considerem deuses quer não.

Este final ignora por completo o quanto melhorámos, a queda abrupta da violência nos últimos séculos, a melhoria dos direitos de todos, apesar de todos os recuos e de todas as falhas. Estamos bem melhor do que há 100, há 500 e há 1000 anos. Não andamos a lutar todos por impor um objectivo último ou para cumprir a vontade de Deus aos outros. Ficamos horrizados com aqueles que ainda o fazem. E esquecemo-nos de quanto melhorámos, ficando presos numa narrativa pessimista que este autor parece alimentar e que pode ser mais perigosa do que a banalidade das vidas que não sabem o que querem, mas sabem que não querem lutar por uma humanidade perfeita.

Não sou o único a achar este ataque um exagero. Pelo que leio aqui, o autor“hates “modern liberal culture”, but his attack is a caricature and it boomerangs back at him. Liberal humanism, he says, “is a religion”. It “does not deny the existence of God”; “all humanists worship humanity”; “a huge gulf is opening between the tenets of liberal humanism and the latest findings of the life sciences”. This is silly.”  

Sim, parece-me “silly”. Os humanistas não idolatram a humanidade. O humanismo, como o entendo, é isto: temos de considerar a humanidade toda como base da nossa moralidade: não a nossa tribo, não a nossa religião, mas toda a humanidade — e cada um dos seres humanos em si. Ninguém acha que a humanidade é perfeita: somos um bichos estranhos a levantarem-se da escuridão da evolução das espécies, a tentar melhorar um pouco.

Mas, tenho de me confessar e expiar estes grandes pecados: acabei de criticar um autor com base num parágrafo (!) e com base numa crítica que outra pessoa lhe fez (!). A expiação só pode ser uma: ler o livro, tentar afastar este preconceito inicial que já tenho, e depois relatar o que achei, no fim de tal provação. Não se preocupem: pode acontece que acabe por adorar o livro. Já me aconteceu antes isto: vou com um pé atrás, acabo rendido.

E, para dizer a verdade, Desidério Murcho (autor de que gosto) não lhe poupa elogios:

“O  livro surpreende a cada passagem pela simplicidade da sua linguagem, pela profundidade da visão do seu autor, e também pela verve, que põe ao serviço da compreensão de ideias profundas e por vezes difíceis. É um livro inteligente, pleno de ideias surpreendentes, de explicações iluminantes e de perspectivas novas. Desmontando sempre que pode muitas ideias feitas que hoje afogam o pensamento comum (como a ideia de que os seres humanos eram ecologicamente correctos antes da industrialização, ou a ideia de que só as relações heterossexuais são “naturais”), este livro presta um serviço inestimável ao esclarecimento da humanidade. Aconselho vivamente a sua leitura, e releitura, e penso tratar-se de um dos mais importantes livros de divulgação científica publicados nos últimos dez anos.”

Ora, fico já a pensar que, se calhar, me precipitei um pouco: de facto, todas essas ideias feitas estão erradas. Serve o artigo de Desidério Murcho para já não ir de pé tão atrás. Um livro lê-se e depois critica-se. Até porque o autor pode acabar por me convencer, mesmo no que toca ao parágrafo assassino que pôs no final.

Vamos a isto.