Viagem pelas línguas da Europa: Episódio 2

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Há uns tempos, comecei uma viagem blogueira pelas línguas da Europa. A viagem (ainda) não passou dos Pirenéus — e também não é hoje que sai da nossa península.

Deixem-me, no entanto, contar-vos como encontrei um amigo que nunca vira, no meio de Barcelona, por causa de um balde de Chupa Chups.

Como vos disse nesse primeiro episódio, ganhei uma grande pancada pela cultura catalã numa viagem que fiz a Andorra com os meus pais em 1993.

Por causa dessa pancada, comecei a ler muito sobre a Catalunha e o catalão e aproveitei a moda dos primeiros chatrooms internéticos para falar sobre o assunto — acabei por ficar amigo de alguns catalães (e não só), incluindo o Ricard, um barcelonês que achava muito estranho o interesse dum adolescente português pela sua cultura, e ainda uma polaca, a Joanna, que partilhava comigo a maluqueira por essa cultura (sim, há geeks para tudo).

Pois bem, em 2001, alguns anos depois de todas estas conversas, fui a Barcelona com os meus pais e combinei com o Ricard para, finalmente, nos encontrarmos.

Mas como nos reconheceríamos, se nunca nos tínhamos visto?

Ora bem, ele iria estar à porta de um dos vários El Corte Inglés da cidade com um balde enorme de Chupa Chups na mão.

Exacto, um balde de chupa-chupas!

Se não sabem, ficam a saber que a Chupa Chups foi fundada por um catalão, o logo foi desenhado pelo Dalí (um catalão) e o seu primeiro slogan foi uma frase também muito catalã: És rodó i dura molt, Chupa Chups (vejam aqui o artigo wikipédico sobre a marca, na versão catalã). Do nome da marca, fizemos nós, portugueses, o nome comum do doce em Portugal (presumo eu [e presumo mal, como muito bem me ensina Fernando Venâncio num comentário do Facebook — ainda dizem que o Facebook não serve para nada!]).

chupa chups

Porquê esta forma estranha de nos encontrarmos? Porque ele trabalhava na Chupa Chups e podia, assim, oferecer-nos chupas para dar e vender.

A minha irmã, que tinha 8 anos na altura, adorou a ideia e ainda hoje fala desse meu amigo que lhe ofereceu tantos chupas que duraram meses, dentro dum balde de metal que não sei por onde anda, mas era quase uma obra de arte (os catalães não fazem mesmo por menos e até um balde de chupas é coisa para recordar).

Lá nos encontrámos como combinado. A provar a estranha capacidade que todos temos de comunicar mesmo entre línguas diferentes (para mais, todas latinas e ibéricas), conversámos todos um pouco, numa cena peculiar em que uma família de portugueses e um catalão comunicam numa mistura estranha de línguas: talvez portulão? Ou cataguês?

Depois, o Ricard e eu lá nos sentámos com mais calma num café e estivemos a conversar um pouco ao vivo, depois de anos de conversa online, enquanto os meus pais e irmãos exploravam a zona.

Para a conversa, tentei usar o meu melhor catalão, e não correu muito mal. Hoje, julgo que não conseguiria ser tão desenvolto, a não ser que tivesse bebido alguma coisa antes.

Pois, exacto. Convém fazer agora uma confissão: há muitos anos, ali para os lados da Tunísia, os meus amigos perceberam que, quando bebo um ou dois copos, começo a falar outras línguas latinas na perfeição.

Bem: diga-se que, nessa mítica noite tunisina, só experimentei o catalão e o francês (para lá do português). E convém também dizer que quem me ouvia também já estava com os ouvidos um pouco encharcados e pode vir daí essa ideia de que eu estava a falar catalão e francês na perfeição. Seja como for, fica como medida da minha pancada catalã o facto de ter andado de táxi pelas estradas da Tunísia a falar em catalão com uma amiga minha bem portuguesa.

Ora, voltando a essa tarde barcelonesa do início do século…

Antes de nos despedirmos, o Ricard decidiu oferecer-me um livro. Afinal, para um catalão, todas as oportunidades para espalhar a sua cultura são de aproveitar.

O livro que escolheu, na livraria mais próxima, foi este:

visions

Tive direito a dedicatória e tudo:

2001

Entretanto, o Ricard foi viver para a China, para Xangai — para isso, esteve anos a aprender chinês, o que é mais inteligente da parte dele do que, para um português, aprender catalão…


Agora, olhem para o livro. Não sei se conhecem Joan Maragall. É um dos grandes poetas catalães — e, por curiosidade, avô de Pasqual Maragall, presidente de Barcelona durante os Jogos Olímpicos de 1992 e presidente do governo catalão anos mais tarde, entre 2003 e 2006.

O poema mais conhecido do poeta é «Oda a Espanya». Nesse poema, Maragall repreende Espanha por se recusar a escutar aquele filho (a Catalunha) numa língua diferente. O poema é de 1898 — a questão catalã não é moda recente…

Espero não ser abuso deixar-vos aqui todo o poema:

Oda a Espanya (1898)

Escolta, Espanya, — la veu d’un fill
que et parla en llengua — no castellana:
parlo en la llengua — que m’ha donat
la terra aspra;
en ‘questa llengua — pocs t’han parlat;
en l’altra, massa.

T’han parlat massa — dels saguntins
i dels qui per la pàtria moren;
les teves glòries — i els teus records,
records i glòries — només de morts:
has viscut trista.

Jo vull parlar-te — molt altrament.
Per què vessar la sang inútil?
Dins de les venes — vida és la sang,
vida pels d’ara — i pels que vindran;
vessada, és morta.

Massa pensaves — en ton honor
i massa poc en el teu viure:
tràgica duies — a mort els fills,
te satisfeies — d’honres mortals
i eren tes festes — els funerals,
oh trista Espanya!

Jo he vist els barcos — marxar replens
dels fills que duies — a que morissin:
somrients marxaven — cap a l’atzar;
i tu cantaves — vora del mar
com una folla.

On són els barcos? — On són els fills?
Pregunta-ho al Ponent i a l’ona brava:
tot ho perderes, — no tens ningú.
Espanya, Espanya, — retorna en tu,
arrenca el plor de mare!

Salva’t, oh!, salva’t — de tant de mal;
que el plor et torni feconda, alegre i viva;
pensa en la vida que tens entorn:
aixeca el front,
somriu als set colors que hi ha en els núvols.

On ets, Espanya? — No et veig enlloc.
No sents la meva veu atronadora?
No entens aquesta llengua — que et parla entre perills?
Has desaprès d’entendre an els teus fills?
Adéu, Espanya!

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.