Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

A língua no café e a língua nos livros

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Como se responde a uma dedicatória? Com uma citação. Mas que fique claro que a citação não vale o texto inteiro, que está à vossa espera no blogue de Luiz Santos-Roza:

É bastante fácil usar-se linguagem abstrusa para tornar algo simples misterioso. Mas para quê “tempos hodiernos” em vez de “actualidade,” “tríduo coloquial” em vez de “colóquio de 3 dias,” e afins? É fácil mas não vejo utilidade em fazê-lo, fora de um contexto lúdico, satírico ou literário. Há géneros de discurso e texto onde a clareza, a concisão e o rigor são essenciais: meios de comunicação, ensaísmo, marketing, formulários das Finanças, debates parlamentares. Subjugam a forma ao conteúdo, em oposição à literatura, que dá primazia à forma em detrimento do conteúdo. Paul Valéry terá afirmado que nunca seria capaz de pôr num romance a frase “A marquesa saiu às cinco,” o que seria o ápice da banalidade burguesa. Adolfo Casais Monteiro retorquiu anos depois que foi por isso que ele nunca escreveu nenhum romance. Embora eu me incline para a exigência de Valéry, dou razão a Casais Monteiro; há coisas que não dá para enrolar. Para mim, a prosa de Vladimir Nabokov representa o mais perfeito estado da guerra contra o cliché e o estilo raso. Mas em Fogo Pálido que frase usou o exímio estilista para dizer que estava a chover?

“Estava a chover.”

Portanto sejamos tolerantes dos falantes e exigentes com os escritores; falemos sem afectação e busquemos a literatura mais afectada possível; sejamos simples a pedir pastéis de nata e desprezemos os gurus do simplismo na literatura.

Vá, este excerto não vale o texto todo nem mostra as ideias do autor em toda a sua subtileza. Leiam lá o resto. Sim, é um texto grande, mas nenhum dos leitores deste blogue tem preguiça de ler, certo?


Já agora, meto uma colherada. O Luiz diz a certa altura:

(…) para eles não há diferença nenhuma entre a fala quotidiana, a escrita em jornais, o teleponto do telejornal, e uma obra literária. Para mim, há. Eu gosto de ver todos os recursos do idioma usados na criação de literatura precisamente porque não vejo motivo para o serem noutros tipos de escrita onde o pragmatismo, e não a estese, são o objectivo. Um romance, um conto, uma peça teatral, um poema são lugares privilegiados onde se traz a linguagem para a desfamiliarizar. Isto inclui múltiplas estratégias: o uso de arcaísmos, regionalismos, gíria interpolada com léxico erudito, cenismos, metáforas imprevisíveis, rimas internas, aliteração, neologismos, trocadilhos (equívocos, como diria D. Francisco Manuel de Melo), lipogramas, anagramas, palíndromos e tantas outras possibilidades. Mas o sucesso desta desfamiliarização pressupõe a utilização de uma linguagem familiar a todos que acumula lugares-comuns, frases feitas, catacreses e os ditos plebeísmos e que nós usamos automaticamente.

Concordo. Como é que pode haver desfamiliarização sem haver, primeiro, uma linguagem familiar e às vezes banal? Mas diria ainda: há também por aí, nas conversas, nos textos, no que dizemos quase sem pensar, muito de criatividade que muitos ignoram, precisamente porque andam convencidos que todos falamos mal.

A literatura é uma elaboração imensa da língua, mas precisa das palavras usadas no dia-a-dia para se alimentar. Os bons escritores pegam na língua inteira, nos regionalismos, nos arcaísmos, nos neologismos, nos estrangeirismos, nos solecismos, e com isso criam qualquer coisa de novo. E, reparem, também usam as palavras simples e banais, quando são essas que lhes servem.

Mais: os bons escritores ouvem melhor do que nós as vozes diferentes em tensão permanente, as palavras de uns a gozar com as palavras de outros, os discursos vazios em que entramos sem querer, e tudo isso é material para o festim com que nos deliciam. Não todos, claro. Mas alguns deles fazem isso mesmo e isso é bom.

E, por fim, lá está: os bons escritores até ouvem os arremedos de génio que às vezes se perdem à mesa do café — tudo isso está à nossa volta, mas invisível, até nos ser revelado pela boa literatura.

Sim, eu sei: há quem escreva histórias com a língua dos formulários das finanças, sem sair disso (não que um formulário das finanças não caiba na literatura, mas se nos ficarmos por isso, ficamos mal). Mas esses interessam pouco (talvez para distrair na fila das finanças, para por fim preenchermos o tal formulário). O que interessa são os escritores que pegam em tudo o que ouvem e criam qualquer coisa de novo. Esses usam o formulário das finanças e o português quinhentista, na mesma frase se preciso for: e ainda o discurso do marketing, os autos dos tribunais, a linguagem dos amantes, as palavras dos adolescentes. Usam o simples e o complexo, o antigo e o novo, o difícil e o fácil, o claro e o obscuro, a dor e o prazer, o café e o discurso e ainda contam uma história lá pelo meio.

É por isso que acho tão redutor olhar para a língua com ânsias de a limpar e corrigir, com vontade de lhe tirar o sumo e o sabor até ficar um esqueleto muito lógico e muito frio. Tenham tino e leiam mais da boa literatura que há por aí.

Não sei se me estou a explicar bem, mas não interessa: aqui fica o meu agradecimento e os meus parabéns a Luiz Santos-Roza.

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4 Comentários

  1. Persis

    Escrever é algo mais sublime do que meramente expor pensamentos de modo singelo; às vezes é, também, compor uma sinfonia de palavras que se revela em ode intraduzível.
    Há leitores que se simpatizam com esse linguajar castiço mais rebuscado e conseguem sentir a métrica e se deliciar com a sonoridade e o ritmo poético criados ao se lidar com o verbo. Eu escrevo por prazer e gosto de sentir a melodia eclodindo no suceder das palavras e a harmonia fluindo da cadência das orações.
    E é preciso que seja assim a fim de se evitar o empobrecimento do nosso idioma, primeiro, pelo uso incontrolado de barbarismos, cujos redatores usam siglas por total incapacidade de criar um mero neologismo, substituindo precariamente vocábulos precisos do nosso vernáculo, já existentes e há muito consagrados; segundo, pelo emprego exagerado do estilo jornalístico na redação de qualquer tipo de publicação.
    Discordo dos que dizem que todo livro deve ser enxuto e limitado rigorosamente ao essencial. Não seria uma obra de arte mas apenas um solo sem brilho, sem ritmo e sem acompanhamento, como uma pretensa sinfonia tocada por um só instrumento.
    Adjetivos são o tempero do texto; é a riqueza vocabular que dá sabor a uma boa prosa, como a variedade de instrumentos da orquestra que cercam o solista embeleza e enriquece a composição.
    Palavras são criadas para serem usadas. A arte das letras está em saber lavrá-las.
    O estilo jornalístico não é arte e a linguagem cotidiana deve ficar restrita aos jornais – que ficam obsoletos em um dia, – e aos livros pragmáticos.
    A depender do assunto a ser tratado e do público ao qual o trabalho é voltado, este fato pode significar uma desconsideração para com o leitor. Além de ofensivo, por pressupô-lo ignorante e madraço, pode, também, ser interpretado pelos mais críticos como inépcia do autor.
    É, outrossim, um desrespeito para com quem escreve por ser uma espécie de patrulhamento normatizante sobre o escritor e seu estilo. Um dirigismo metodológico fascistoide que, por razões estritamente comerciais, o restringe no livre exercício da sua arte, limita a ampla expressão dos seus valores estéticos e impede o pleno desenvolvimento de toda sua criatividade.
    Eu não cometeria tal heresia. O leitor inteligente não precisa de tutela.
    As nuances da arte verbal não se coadunam com o estilo jornalístico. As grandes obras literárias que se eternizaram não foram escritas em linguagem cotidiana. Um trabalho de fôlego há que ser mantido num elevado padrão de qualidade e redigido em primoroso estilo literário.
    Bem enunciou Guimarães Rosa quando disse que em seus escritos queria “chocar o leitor e obrigá-lo a sentir a novidade nas palavras”.
    Eu vou além. Quero que a cada releitura o leitor encontre um novo livro.

  2. Paulo

    Não concordo!
    Ou seja, concordo com a generalidade da ideia “Um livro PODE ser/ter algo mais que a lingua banal”, mas não concordo com “um livro TEM DE SER algo mais que linguagem banal para ser um BOM LIVRO”.

    E dou o exemplo dos livros do JRS. Têm bastante mais que linguagem banal, mas não são bons livros….

    disclaimer) as opiniões das caixas de comentários, mesmo aceites pelo dono do blog, não são necessáriamente as mesmas opiniões do dono do blog

    • Marco Neves

      Pois não, mas se concordássemos com tudo, também não tinha graça! 😉

  3. Olá, Marco.

    “Mas diria ainda: há também por aí, nas conversas, nos textos, no que dizemos quase sem pensar, muito de criatividade que muitos ignoram, precisamente porque andam convencidos que todos falamos mal.”

    Concordo plenamente; eu aludo a isso algumas vezes, quando falo em misturar-se gíria com erudição, e sobre como Tomaz de Figueiredo anotava os plebeísmo e regionalismos que ouvia das pessoas do povo. É um recurso tão fascinante como qualquer outro. E eu próprio, a pensar na minha humilde ficção, oiço as pessoas à minha volta para apanhar uma frase ou expressão de grande poder expressivo e criativo. Vai tudo para folhas de excel.

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