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Há pouco, numa qualquer daquelas discussões absurdas em que alguém tenta provar que esta ou aquela expressão não está correcta «porque não está e eu é que sei e quero lá saber se os grandes escritores a usaram ou não», li um argumento que me feriu pessoalmente: saber se José Cardoso Pires usou ou não determinada expressão não interessa porque ele não sabia escrever bem em português. Escrevia mal, não no sentido estético com que podemos apodar a obra dum qualquer escritor, mas no sentido rasteiro de dar muitos erros, como mau aluno da primária. Apeteceu-me dar um grito. Mas não dei. Estava a caminhar pela faculdade com o telemóvel na mão e um grito era coisa para assustar os incautos utentes da famosa esplanada.

Sim, tenho de fazer uma declaração de interesses para perceberem o choque que foi ler tal argumento. José Cardoso Pires é um dos meus escritores: andei anos às voltas com as obras dele, para uma dissertação de mestrado que foi um prazer irrepetível. Ora bem, conhecendo eu a obra do autor de trás para a frente, perante tão absurdo argumento, desvendou-se-me num relance a pobreza de espírito de muitos desses inseguros da língua — que preferem ter uma língua ali muito certinha com regras de etiqueta propaladas por este ou aquele sábio mal amanhado e desprezam a língua que lemos nos romances de José Cardoso Pires.

E que há por lá, nessas obras escritas em «mau português» (enfim)? Não tenho espaço aqui, mas abram a Balada da Praia dos Cães: lá está o português dos autos judiciais, o português de certas ruas de Lisboa, o português dos polícias à caça de pistas improváveis por esse país fora, o português dum homem a espreitar uma mulher pelo buraco da fechadura, o português irónico e ferido que não sabemos bem se é o do autor, o português que é muito mais, mas mesmo muito mais, para lá do que posso aqui dizer, do que o português de quem cumpre todas as regrazinhas encafuadas neste ou naquele compêndio cheios de pó. Quem não sabe que a língua é mais do que aquilo que está nos dicionários e gramáticas passa ao lado dos prazeres perigosos dum escritor como este. Dificilmente percebe, de facto, o que é a literatura.

Mas tudo o que disse acima vai muito além das obras de José Cardoso Pires. O romance enquanto género é um óptimo lugar para vermos esse bicho selvagem que é a língua. Disse bicho selvagem? Enganei-me. A língua da boa literatura, às vezes, são vários tigres numa luta de morte. Um esplendor que encontramos nos bons escritores, aqueles que usam bem a língua, sim senhor, mas usam também as várias linguagens que se escondem nessa mesma língua, por vezes de costas voltadas ou em lutas na lama.

José Cardoso Pires é um desses escritores e é um génio — podem discordar, claro: agora não o descartem como quem chumba um aluno da primária porque não sabe escrever bem. Sabem o que é isso? Uma visão amesquinhada da língua. Saiam cá para fora e leiam bons livros. Isso passa.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.