barack-obama-1174489_1280Todos nos lembramos das histórias sobre o mau inglês de George W. Bush. Pois sabiam que Obama também é acusado em certos círculos de falar muito mal? Ou, pelo menos, de abusar de pronomes na primeira pessoa: «I», «me», etc. e tal…

Por cá, esta ideia de que Obama fala mal ou abusa dos pronomes nunca se espalhou. Porquê? Talvez porque Obama colhe a simpatia de muitos portugueses e não há gente interessada em achincalhá-lo em número suficiente para fazer rodar por aí este mito. Sim, eis a novidade: a nossa opinião sobre a maneira de falar deste ou daquele baseia-se em grande parte na simpatia que temos por essa pessoa.

Nisso do Bush e do Obama, os linguistas, essa gente chata, foram ver o que se passava. Quanto ao Obama, não há dúvidas: não usa o pronome «eu» de forma mais frequente do que outros políticos. Mas os seus inimigos políticos não querem saber: se ouvem dois ou três «eus», já podem declarar que o homem é egocêntrico. Sim, porque o nosso cérebro funciona assim: se estamos convencidos de alguma teoria, olhamos em primeiro lugar para aquilo que confirma essa teoria. Obama é egocêntrico? Claro: ainda agora usou o pronome «eu» duas vezes no mesmo texto. Que malandro!

Ora, é possível fazer melhor: é possível comparar a frequência de certas palavras no discurso de uma pessoa e depois comparar esse valor com a frequência dessas palavras no discurso doutras pessoas na mesma situação.

Vejam este artigo do blogue Language Log. Mark Liberman, um linguista do M.I.T., analisa um texto em que um tal de Howard Portnoy se queixa do inglês de Obama. Depois de desmontar os argumentos de Portnoy de forma rigorosa (provando que Obama não usava mais pronomes na primeira pessoa do que o seu adversário de há quatro anos), Mark Liberman diz ainda esta frase que descreve bem o desalento que muitos linguistas sentem perante a forma despreocupada como muitos atiram por aí ideias falsas sobre as línguas:

I don’t expect these facts to have any impact on Mr. Portnoy’s complaint (…), but I continue to be surprised that apparently rational adults continue to publish obvious falsehoods about well-defined numbers that are easy to check.

No caso do vocabulário dos jovens, dos erros jornalistas, do uso da língua dos portugueses em geral os números não são assim tão fáceis de verificar. Mais uma razão para termos cautela e não andarmos por aí a acusar toda a gente de não saber falar português.

E Bush? Parece que também não falava assim tão mal. Dá erros, claro, talvez até ligeiramente mais do que outros políticos mais talentosos, mas não nos podemos esquecer que qualquer um de nós teria uma colecção bem jeitosa de erros após oito anos sob escrutínio apertado dos meios de comunicação social.

Para sabermos se estamos a ver erros a mais, temos de ter em conta a quantidade de texto que estamos a analisar — e convém ainda comparar a frequência de erros da vítima com a frequência de erros dos falantes com os quais queremos compará-la.

Olhar só para os erros sem ter em conta a quantidade de texto onde esses erros aparecem é uma forma desonesta de olhar para a questão: se esperarmos tempo suficiente, é sempre possível encontrar um número razoável de erros e aproveitar esses exemplos para atirar lama à cara de qualquer um de nós. (Se alguém acha mesmo que é possível não dar erros, é porque não percebe nada disto.)

E, sim, isto de contar e comparar e pensar um pouco antes de apontar o dedo é muito complicado. Mais complicado ainda é duvidar de ideias que dão tanto jeito nas conversas de café («o Bush não sabe falar!»; «o Obama é egocêntrico!»). Tudo bem. Aceito isso. Mas, pelo menos, não se acuse de facilitismo aqueles que hesitam antes de pronunciar julgamentos definitivos sobre o uso da língua desta ou daquela personagem — e, já agora, sobre o vocabulário desta ou daquela geração e os erros desta ou daquela classe. Porque fácil, fácil é mandar bocas ou cair em discursos empolados sobre a desgraça que é a língua que se fala hoje em dia. E isto é válido para o inglês — e para o português.