Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Para que serve a literatura, o cinema, a música? (E Oxford com um livro na mão.)

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LIVROS NA BAGAGEM. Capítulo 5.

Ora, há uns dias contei-vos como encontrei Londres na Andaluzia. Hoje, queria mostrar-vos como é possível usar um livro espanhol para conhecer melhor Oxford.

Mas, antes, uma discussão muito profunda sobre o significado da palavra «cultura». Aqui vai: «cultura» quer dizer muitas coisas e é uma palavra perigosíssima. Mas gostava de falar de «cultura» no sentido que tem no nome do ministério que andou nas bocas do mundo por causa dumas bofetadas. Ou seja: cultura como arte e ciência e mais umas quantas coisas. Fim de discussão semântica (menos profunda do que queria, afinal).

Ora, para que serve essa cultura que até tem ministério? Tinha aqui pano para mangas e assunto para um livro inteiro. Ou muitos, aliás. Mas fiquemo-nos com uma humilde opinião: a literatura, o cinema, o teatro, a música, a ciência, o ensaio, tudo isso serve também para nos ajudar a ver mais coisas no mundo.

Explico com um exemplo concreto.

Fui a Oxford pela primeira vez há uns anos, enquanto estava a ler Todas las Almas, de Javier Marías.

Sei que há muitos portugueses que não conhecem este escritor, porque somos muito desatentos ao que se passa do lado de lá da fronteira. Às vezes, parece que temos uma certa pena de não sermos uma ilha. Mas acreditem se vos disser que é um escritor muito importante por terras espanholas. E peço-vos que acreditem que não vos falo dele só para dizer «olhem, até conheço escritores espanhóis» — todos nós desconhecemos coisas que os outros acham essenciais, por isso, quem sou eu… Não, falo de Javier Marías neste capítulo porque o seu romance ajudou-me mesmo a ler melhor aquela cidade.

TODAS LAS ALMASA questão é que o romance se passa em Oxford. Enquanto andava pelas ruas, fui encontrando lugares do livro que estava a ler — e, confesso, vi muito mais coisas do que teria visto se não estivesse a ler aquele livro. Depois de sair de Oxford, acabei o livro e as últimas páginas passavam-se numa cidade que eu já conhecia.

Esta mistura entre ficção e realidade deu-me um prazer muito particular. Imaginem o que é sair dum café e ver, do outro lado da rua, a montra à frente da qual, na noite anterior, o narrador do livro que tinha na mão encontrara uma das raparigas da história. O livro ficou mais real e Oxford ainda mais interessante. A coisa também funciona com filmes, teatro, música — e até quadros, esculturas e outros que tais. A variedade é grande, mas cada um tem as suas preferências.

Continuando: esta contaminação foi um exemplo extremo daquilo que acontece muitas vezes. Quando vamos pela primeira vez a uma cidade sobre a qual já lemos muito ou na qual se passam muitos filmes que vimos, é um pouco como se voltássemos a ler esses livros e a ver esses filmes — e é também uma forma de vermos a cidade com mais atenção.

Por outro lado, ler sobre cidades que conhecemos é continuar por lá e aumentá-las — parece que estamos a visitá-las de novo ao ler.

Podemos ainda ter memórias de sítios onde nunca fomos — tenho saudades de Tóquio, por exemplo, e nunca fui ao Japão.

Quem acha que a arte é uma forma de fugir da vida não percebeu nada. A arte é uma forma de viver mais — não necessariamente de viver melhor (isso já é outra história).

Imaginem uma pessoa que não gosta de ler, não gosta de cinema, não gosta de música e, por isso, nunca leu um livro sobre Londres, nem viu um filme sobre a cidade ou ouviu alguma música que refira a capital britânica. Agora imaginem que essa pessoa vai pela primeira vez a Londres. Aparentemente, encontra a mesma cidade que uma pessoa interessada, mas, no fundo, não vê quase nada. Acha tudo muito «chato», porque Londres não passa duma cidade, com mais ou menos edifícios, mais ou menos história, mais ou menos museus, mais ou menos pessoas.

Quem leu, viu ou ouviu muita arte sobre essa cidade já vai andar pelas ruas com outro brilho no olhar. Vai estar a viver muito mais.

Termino com um parágrafo que parece desligado do que vem antes, mas tem tudo a ver: o mundo parece desinteressante àqueles que são desinteressantes — e as pessoas interessantes parecem aborrecidas aos verdadeiramente chatos. (Escusado será dizer que a divisão entre uns e outros está nos olhos de quem divide, mas isso agora não vem ao caso.)

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Já que falei do escritor espanhol, fiquem agora com uma promessa (sei que ainda tenho algumas por cumprir): no próximo capítulo desta história, falar-vos-ei dum reino das Caraíbas cujo rei é, precisamente, Javier Marías. A vida da literatura, entre a ficção e a realidade, é muito interessante. Apesar de haver quem ache isto tudo muito aborrecido…

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. Paulo

    Os portugueses têm receio de Espanha da mesma forma que os mexicanos têm receio dos USA ou qualquer país mais pequeno têm receio do seu vizinho enorme.

    E Espanha desdenha Portugal porque não percebe como é que a peninsula não é toda ela um único país.

    Psique colectiva.

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