Será que os livros e a praia combinam? Nem por isso, se pensarmos bem. Temos, por um lado, a areia a enfiar-se pelas páginas ao mínimo levantar do vento ou às passadas indiscretas de alguém. Depois, convenhamos que é difícil encontrar uma posição confortável. Há os gritos e o sol a queimar a nuca — e as inevitáveis distracções.

Enfim, lá se consegue, às vezes, um ou outro momento em que a leitura rola com facilidade e então é um prazer. O som das ondas ao fundo, as crianças a brincar e nós, naquele momento, perdidos na leitura com um calor bom em redor de nós (e uma sombra agradável, presume-se).

Sim, eu sei, há outras coisas para se fazer na praia, mas quem tem este vício não consegue evitar levar sempre um ou mais livros ao lado do farnel…

Digo-vos isto tudo porque há uns dias fui com a minha mulher e filho até à Praia das Maçãs — e, claro, tive de levar dois livros, não fosse o diabo tecê-las e terminar um deles no meio da areia.

Vou ter de confessar esta vergonha: aos trinta e poucos anos, ainda nunca tinha posto os pés nessa praia. O ambiente é um pouco diferente doutras praias. Primeiro, toda aquela zona (Sintra, Colares…) é de ficar apaixonado, como devem saber. Aquela estância balnear, com o terminal do pequeno comboio e o casario a olhar para a praia tem o mesmo sabor da própria palavra “estância” — um Verão de há muitas décadas, no final duma estrada que vem de Sintra, entre famílias que não imaginavam que veriam os netos a ir de fim-de-semana para a Costa da Caparica (isso é onde?), depois para o Algarve e, mais tarde ainda, para as praias doutros mundos, do outro lado do oceano ou mesmo do outro lado do mundo.

Imagino que algumas famílias se tenham mantido fiéis a estas praias da costa de Cascais e Sintra, a olhar o oceano no ponto mais ocidental do continente, num ambiente muito distante das Albufeiras da vida.

Pois, lá fomos até à praia, eu de livro na mão e outro na sacola. O livro que estou a ler é um livro de ciência de Richard Dawkins. Nada tem a ver com praias, como devem imaginar. Mas agora, quando pego nele para continuar a leitura, sabe-me a sal e areia e a dias de Verão (que os que temos agora são de Inverno, como sabem).

É esse um dos poderes secretos dos livros: transportam-nos para os lugares onde os lemos. Mas isso, claro, só sabe quem gosta mesmo de ler.

Malhoa_-_Praia_das_MacasJosé Malhoa, Praia das Maçãs, 1918.

 

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.