Sim, eu sei. Todos nós queremos falar melhor e pensar de forma lógica.

Ora, este desejo muito louvável leva muitos a condenar esta ou aquela expressão porque parecem pouco lógicas.

Uma dessas vítimas é o «espaço de tempo», que algumas pessoas condenam por ser uma mistura imperdoável de dois conceitos físicos muito diferentes: o espaço e o tempo.

Ainda hoje recebi um comentário ao artigo em que falo disto que dizia o seguinte:

Penso que não tem razão. Concordo que não estejamos perante erros de gramática, mas do ponto de vista lógico fará muito mais sentido dizer «intervalo de tempo» do que «espaço de tempo», que confunde duas grandezas físicas diferentes.

O problema é que o ponto de vista lógico deve ser usado quando estamos a pensar, mas não quando estamos a analisar cada uma das expressões da nossa língua, que é uma floresta de hábitos antigos (que lógica tem, por exemplo, «chover a potes?»; ou a conjugação do verbo «ser»?; ou os pronomes; ou praticamente tudo o que toca à língua?).

Reparem: ninguém fica a pensar de forma mais lógica por evitar esta expressão.

Por outro lado, dizer «espaço de tempo» não implica que o nosso pensamento seja menos lógico ou que aquilo que dizemos seja menos claro. É uma imagem! Tal como dizer «vamos em frente» quando falamos de determinado projecto ou «não vamos andar para trás» quando falamos de alguma lei ou hábito que não queremos recuperar.

Presumo que não haja um único falante da língua que não saiba distinguir perfeitamente o tempo do espaço. Mas, por outro lado, muitas das línguas do mundo usam metáforas espaciais para lidar com o tempo, que é uma grandeza invisível. É uma tendência do nosso cérebro.

Perceber isto ajuda-nos a ser mais claros.

O nosso cérebro linguístico está constantemente a ir buscar palavras que têm um significado específico para expressar outro significado. A língua expande-se também de forma metafórica e, normalmente, ninguém se importa com isto.

É só quando alguém, de forma bem intencionada, repara numa aparente falta de lógica que o problema surge — e, depois, alimentado pela nossa natural preocupação com a língua, torna-se um mito linguístico.

Reparem nisto:

  • «Sinto-me vazio…» — Será que a pessoa que diz isto se sente mesmo sem órgãos internos?
  • «Sinto-me nas nuvens.» — Será que… Já perceberam a ideia, presumo.

Mas continuemos com o tempo:

  • «Sinto que andei a perder tempo.» — Será que nos esquecemos do tempo nalgum lado?
  • «Tenho o dia todo preenchido.» — Será que o dia é um recipiente para se encher?
  • «Esta tarefa está a tomar-me um espaço de tempo cada vez maior.» — Será que o tempo é um espaço?…

Cá está: se vamos condenar «espaço de tempo», temos de condenar «preencher o tempo», «perder tempo» e por aí fora.

A linguagem é muito metafórica. Insistir na eliminação de expressões como «espaço de tempo» não melhora a língua e não nos deixa a pensar de forma mais lógica — é, no mínimo, uma perda de tempo e, no pior dos casos, uma forma de tornar a língua menos clara, porque foge à natural tendência do cérebro para pensar no tempo usando imagens espaciais.

Não se tente pentear o que é despenteado por natureza. Não tentem ajardinar a Amazónia.

Vou insistir: evitar esta ou aquela expressão não nos ajuda a pensar melhor. Mais vale gastar o tempo a perceber como funciona a língua e a usá-la de forma cada vez mais clara e saborosa.