Era uma vez uma mulher nua a correr por uma floresta em chamas. Era uma vez um romano transviado que tinha medo de cogumelos. Era uma vez um homem a afogar-se numa praia do Mar do Norte. Era uma vez uma viagem que só terminou muito tempo depois, numa ilha que um dia viria a ser portuguesa.

E era uma vez três amigos e duas crianças num cinema de Lisboa.

A Ana veio a Portugal para as férias de Verão e, nuns dias que ela passou em Lisboa, aproveitámos para irmos ao cinema com os nossos filhos para que eles pudessem brincar e nós pudéssemos conversar e estar um pouco juntos, mesmo quando a vida do dia-a-dia se faz à distância de muitos países.

Falámos então, com pressa (o filme estava a começar), do livro que escrevi há uns meses e que a Ana tinha acabado de ler.

— O que eu gostava mesmo era de saber a história de Miriam… Como é que ela foi ali parar?

Sorri e ia responder — mas o filme começou, com o habitual estrondo de sons que nos deixou iluminados pelo ecrã, onde já se viam os primeiros desenhos animados em grande alvoroço.

O que a Ana não sabia — e eu não lhe pude dizer — é que já andava há uns tempos para contar algumas das histórias que ficaram fora da Baleia. Mas foi por causa dessa conversa que decidi começar pela história de Miriam — embora, para ser sincero, tenha alguma dificuldade em contá-la. O livro, já se sabe, é um rodopio de histórias que, embora com o seu quê de macabro, foram pensadas para toda a família — ora, a história de Miriam tem algumas passagens menos próprias para crianças.

Bem, mas vamos a isto. Como é que Miriam acabou como escrava em Mileto, donde foi salva por Lúcio Arvénio Rústico, que a trouxe até ao nosso país antes de ser o nosso país?

O pai de Miriam  —  revelo agora —  chamava-se Hrathgor e era chefe duma pequena tribo que deambulava por entre florestas, brumas e pântanos do Norte da Europa.

É até lá que temos de viajar. Ajude-me, então, o leitor: faça a viagem com a sua imaginação e aterre, de mansinho, nessas terras governadas por tribos germânicas perdidas entre florestas.

Em Roma, governa o primeiro imperador. Mas estamos fora do Império, mesmo à beira do Mar do Norte, por onde ainda deambulam velhos deuses nórdicos. Esta aventura que agora conto veio a ser a origem de histórias contadas pelas gerações fora  —  e há quem diga que as ouviu da boca dum viquingue nessa mesma ilha portuguesa onde Miriam aportou no fim da história que começa agora.


Um estranho nome de rapariga

Já revelei ao leitor o nome do pai de Miriam. Se por acaso confundir Hrathgor com Hrothgar, que é nome com pergaminhos e bem conhecido, não se preocupe: é um erro comum. À época, poucos se preocupavam com estas manias modernas de registar os nomes por escrito e acertar a ortografia dos mesmos. Nomes e histórias eram coisas que passavam de boca em boca e mais Hrothgar, menos Hrathgor  —  não vinha mal ao mundo.

Mas, diga-se, o pai de Miriam era Hrathgor e tinha o exacto aspecto do seu nome: um homem grande, vestido de peles de caça, com uma áspera língua nórdica na boca —  e tudo o que o leitor quiser associar a tão sonoro nome.

Já o nome da mãe de Miriam era  — dizem-me  — Yrsa.

A menina nasceu nove meses depois da chegada de Hrathgor de uma longa viagem que fez aos confins da Europa, donde trouxe umas estranhas pedras  —  e um gosto peculiar no que toca aos nomes das crianças. É que — convenhamos — «Miriam» não é nome que se dê a uma filha dum bom rei germânico. Mas Hrathgor não vacilou: por razões que hoje terão de ficar por explicar, deu esse nome à menina, por cima das reclamações de Yrsa e dos comentários da tribo.


Uma fogueira na floresta

Miriam nasceu ruiva e feliz e cresceu sem medo durante raros anos de abundância nessas paragens nortenhas.

Uma das suas primeiras recordações era de uma das noites em que assistiu ao seu tio Loki a contar histórias. Miriam ouvia, cabelos ruivos à luz da fogueira, e ficava embevecida enquanto Loki levantava os braços, contava histórias de gigantes e dragões  e intrigas entre deuses, heróis e gigantes. As sombras dos seus braços misturavam-se com o reflexo das chamas nas árvores e Miriam chegava-se mais ao seu pai — e assim ficavam pai e filha a beber as histórias de Loki, o matreiro contador de histórias.

Hrathgor nunca tinha sentido amor como aquele. Aliás, dizia-se pelas tendas daquela tribo, à noite, quando os casais conversavam em voz baixa, que os dois filhos mais velhos  —  Wiglaf e Weohstan  —  não andavam felizes com a atenção que o rei dava à criança mais nova.

O certo é que a menina cresceu feliz, sem notar essas conversas sussurradas. Aos quinze anos, era já a melhor e mais activa conselheira do seu pai. O rei treinava-a para batalhas e para negócios  —  e, no seu íntimo, andava já a magicar uma maneira de a tornar sua herdeira.

Miriam tentava participar em tudo  —  e Hrathgor só não a levou para uma batalha porque não queria aquela menina perto de espadas e cavaleiros. Pois a filha chorou por aventuras. Não queria ficar sempre para trás, ela que já quase governava a tribo, para horror dos seus irmãos, que não aceitavam uma mulher a mandar.

Hrathgor levou-a, então, de viagem até uma ilha onde viviam romanos. Foi a primeira vez que a miúda viu um romano — e ficou admirada com as togas e o ar alheado dos civilizados cidadãos. Mas decidiu ali mesmo que gostava mais das peles de animal que o pai vestia, dos javalis assados e servidos com leite, da floresta que ela conhecia como ninguém, dos acampamentos da sua tribo, das histórias de Loki contadas à noite, das praias frias do Mar do Norte — e dos morangos.


Um bando de romanos transviados

A aventura que agora vou contar começou numa outra noite de histórias à volta da fogueira, muitos anos depois. Miriam tinha já 19 anos e deixava os rapazes da tribo um pouco nervosos quando passava por eles.

Por esses dias, vagueava pelas florestas da zona um soldado romano cujo nome fazia tremer até o mais forte dos reis germanos.

Laio — era assim o seu nome — fora expulso de Roma por ter sido responsável por uma execução pública de escravos que deixou horrorizadas até as consciências habituadas a lutas de gladiadores e mortes em catadupa. Pelo menos, era isso que se contava.

Expulso de Roma, o antigo soldado não se fez rogado e assumiu como sua essa imagem de maldade sem limites. Juntou-se a uns quantos romanos descontentes, germanos irritados e berberes desviados e criou um bando de salteadores. Diz a lenda que a primeira batalha desse bando foi com uns soldados romanos apanhados desprevenidos numa estrada da Gália. Laio ganhou e os soldados dividiram-se entre aqueles que se juntaram àquela legião dos infernos e aqueles que foram cozinhados  —  sim, cozinhados  —  numa noite de festa e muita farra.

Depois dessa vitória de má memória, o bando passou a cumprir, numa vertigem de paródia, todo o ritual militar das legiões romanas  —  mas usava como símbolo uma águia de pernas para o ar e os homens afadigavam-se por deixar de lado qualquer traço de honra ou compaixão.

Aquela gente não defendia nada: os homens de Laio perseguiam alguns viajantes desprevenidos, roubavam acampamentos dispersos, comiam o que calhava — e eram ricos, imensamente ricos, com tesouros escondidos em várias grutas das florestas desse território sem fronteira e que podiam usar para comprar o que quisessem em Roma ou noutra das cidades do Império. Isto, claro, se pudessem entrar no Império.

Eram ricos. Tinham uma vida cheia. Com o tempo, sem família para quem voltar, com as florestas vazias de gente que não os temesse, o que estes homens mais queriam era outra coisa. Tesouros, tinham-nos de sobra. O corpo de uma mulher é que não.

Quando se atreviam a destruir mais uma aldeia, já não iam à procura de ouro ou peles  —  ou carne de javalis  —  mas sim de jovens apetitosas que pudessem saciar uma outra fome bem mais profunda.

Um dia, Laio ouviu dizer que a filha do chefe da tribo de bárbaros daquela zona era linda. Aproximou-se dos seus homens e picou-os, com histórias de mulheres e com pequenos insultos bem preparados para os deixar em ponto de bala.

Um dos seus companheiros avisou então, muito sério, que não deviam meter-se com aquele rei  —  e muito menos com a tal miúda.

Laio riu-se. E lá foram até à aldeia.

Eram quatro  —  sim, do bando que chegou a ter mais de cinquenta homens sobravam agora quatro. Mas as razões dessa diminuição são uma história que terá de ficar para outro dia. É que ainda tenho muito para contar sobre o dia em que Miriam foi raptada. O leitor só tem de saber isto: eles eram, de facto, quatro — mas as tribos da zona estavam convencidas que eram para cima de cinquenta.


Os caçadores de Miriam

Os quatro brutos pisam a neve que caiu durante todo o dia num silêncio desconcertante de corpos gigantescos em bicos de pé. Aproximam-se, devagar, da aldeia de Hrathgor. Nos rostos tensos, relampejam já vestígios das chamas da fogueira com que a tribo se aquece nesta noite fria. Laio sente o coração a bater: aqueles bárbaros não fazem ideia daquilo que os espera.

A certa altura, começam a ouvir a voz de Loki. A história que o velho conta fala de gigantes e de um tesouro escondido há muito tempo numa terra longínqua. As crianças e os adultos da tribo, sem imaginar quem está à espreita, não desprendem os olhos do contador matreiro.

Laio observa a tribo, como um tigre: são algumas dezenas de homens. Quatro gladiadores, por mais furiosos que sejam, não conseguem invadir aquela pequena aldeia. Não faz mal. Laio é matreiro e não há-de sair dali sem a rapariga ruiva que já consegue ver ao lado do chefe daqueles brutos. Lambe os lábios na antecipação do predador a olhar para a presa.

Com sinais de mãos afinados ao longo de anos de aventuras, Laio dá a estratégia aos companheiros. Os quatro sorriem, preparados.

À volta da fogueira, Miriam também sorri: Loki conta uma passagem antiga, que ela já ouvira muitas vezes, mas que só agora compreende na verdade. As histórias que ela ouve são sempre as mesmas e nunca são as mesmas — e, depois do que lhe aconteceu duas semanas antes (e que eu não irei contar), é como se ouvisse todas as histórias pela primeira vez.

É então que, em redor da aldeia, ouvem ruídos de passos. Vêm de todos os lados. Os homens levantam-se de imediato e reluzem espadas e facas vindas não se percebe bem de onde. Algumas mulheres correm com as crianças para as tendas. Loki fica calado, a olhar para a fogueira. Hrathgor olha para o irmão com olhos severos e o contador lá se convence a ir buscar a sua arma.

A julgar pelos sons que ouvem, a tribo julgo estar cercada por várias dezenas de pessoas. Miriam olha em redor. Pega também numa espada.


O mensageiro de Laio

Por entre as árvores, surge então um homem grande, sujo e feio, com ar gozão. Os dois filhos de Hrathgor aproximam-se dele com espadas alçadas, mas o pai, com um gesto, indica-lhes que devem ouvir o que o mensageiro tem para dizer.

O homem aclara a voz e põe-se a cuspir com dificuldade a língua da tribo:

—  Meus caríssimos brutos. Venho em nome de Laio, o Esplendoroso.

Hrathgor treme um pouco. Sabe bem a fama do bicho, desse romano vaidoso que obriga todos aqueles que subjugava a gritar «Avé Laio»  —  e de joelhos! E também já ouviu da boca dum outro chefe as histórias do que ele fazia às mulheres das tribos.

O enviado de Laio explica então, alargando os braços, num sorriso triunfal:

— Aqui em redor estão dezenas e dezenas de soldados romanos. Todos às ordens de Laio! Vamos destruir esta aldeia e matar-vos um a um.

Cala-se por segundos, as labaredas reflectidas na pele e nos metais que veste. A tribo, calada, bebe as suas palavras, como minutos antes bebera as palavras das histórias de Loki.

E, sim, todos acreditam naquela mentira. Porque os quatro romanos manhosos, na verdade, sabem correr em redor do acampamento, com passos multiplicados com as mãos a bater nas árvores e nos metais da farda. É um dos truques de Laio: com poucos homens, sabe criar a ilusão duma legião inteira.

O mensageiro de Laio continua então:

— Há uma solução… Basta que entreguem ali a cria do rei, essa ruiva ali sentada — e aponta para Miriam, que aperta a espada com mais força — e nada acontecerá. Levaremos a miúda e a tribo continuará a vida como se nada fosse.

Os homens e as mulheres da tribo, em terror, olham para o seu rei, que se aproxima do romano.

Rodeia-o como a uma presa — uma presa orgulhosa, é certo — e cospe-lhe na cara.

Diz-lhe então, com voz calma:

— Se são assim tantos, do que estão à espera? Sejam menos cobardes e apareçam. — Grita bem alto, para a floresta: — Apareçam, cabrões! Venham cá! A minha filha é que não entrego e morreremos todos, se preciso for. Mas viva é que não a levam!

O romano sai dali com o desprezo a pingar dos lábios. Laio sorri, por trás duma árvore. Com gestos, pede aos colegas para esperarem um pouco. A coisa resolve-se. Esteve a olhar com atenção para as caras dos filhos do rei…

Hrathgor sabe o que vem aí. Puxa a filha pela mão e leva-a para a tenda principal. Lá dentro, abraça-se a ela e diz-lhe palavras ao ouvido que não posso revelar.

Como disse, Hrathgor julgava saber o que vai acontecer — mas enganou-se. Esperava a morte; talvez o fogo; talvez a espada afiada dum romano transviado. O que ele não esperava era ver os dois filhos a entrar na tenda e a prenderem-no eles mesmos, pegando na irmã à força, para a levar dali para fora. A cara de Miriam era de surpresa — percebeu que seria entregue pelos irmãos como sacrifício àqueles romanos sujos armados em deuses.


A história não fica por aqui, claro — mas isto faz-se tarde e tenho de ir jantar. O fim do relato — que é o início duma outra história que chega aos nossos dias — está no livro A Baleia Que Engoliu Um EspanholMas entre este início que hoje vos contei e o fim que está no livro houve muitas peripécias. Miriam não acabará a viagem sem matar umas quantas pessoas — e ainda nem chegámos à mulher nua a correr pela floresta que prometi no início. Fica essa história para a semana que vem. Se quiser, pode receber os próximos episódios…