Ah, sim, isto é capaz de assustar aqueles que vêem a língua como uma espécie de donzela que não se dá bem com misturas. Por isso, se for um desses famosos puristas, não veja o vídeo. É bem capaz de não conseguir dormir à noite.

O protagonista do vídeo abaixo é o Quico, filho da Ana e do Telmo, que vive nos Emirados Árabes Unidos (quem costuma ler este blogue ou já andou a folhear as páginas dum certo livro é capaz de se lembrar do nome).

O Quico está a crescer entre o português de casa, o inglês da escola e algum árabe do recreio. O que é surpreendente (daquelas surpresas boas) é que quem vive em ambientes com várias línguas acaba por, em geral, saber lidar perfeitamente com estas misturas e ainda ganha genica mental, alguma criatividade e mais umas quantas vantagens (sim, também há algum esforço adicional, mas acho que ninguém se importa, verdadeiramente).

Há quem tenha medo. Há quem não confie nas capacidades dos cérebros das nossas crianças. Há quem não goste de misturas. Mas a verdade é esta: durante a infância, aprendemos bem todas as línguas em que vivemos — e se há coisa que ajuda a viver melhor num mundo como o nosso é saber falar, escrever e ler em várias línguas. O Quico, por exemplo, já se põe a traduzir o que ele próprio diz quando brinca com o Simão — e é extraordinário como as crianças nunca se atrapalham mesmo entre línguas diferentes.

E, depois, vá, um vídeo como este sempre dá para umas boas gargalhadas.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.