Certas Palavras

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Porque choramos uma equipa de futebol que não conhecíamos?


Encontrei por aí quem tivesse ficado muito irritado com a importância que os jornais e televisões deram à queda dum avião na Colômbia com uma equipa de futebol brasileira a bordo. Não morre tanta gente em acidentes sem este escabeche jornalístico?

Por acaso, é raro haver acidentes de avião sem que os jornais falem do assunto. Mas, pronto, eu percebo as críticas: morre tanta gente, em acidentes, guerras e derivados, para não falar dos hospitais e da violência, que esta importância dada à morte duma equipa parece desproporcionada. É fácil pegar nisto e tirar as conclusões do costume: que ligamos demasiado ao futebol, que estamos à mercê das notícias escolhidas ao calhas em redações apressadas, que as redes sociais empolam os sentimentos com consequências imprevisíveis…

E, sim: ficamos em polvorosa com este acidente e deixamos passar outros mortos por razões que nem sempre sabemos explicar — ou às vezes não queremos explicar.

Admito: neste mundo em que ouvimos falar de tanta coisa que às vezes parece que não ouvimos falar de nada, comovemo-nos com este ou aquele desastre de forma que parece cruelmente aleatória… E, sim, eu sei que estas excitações das redes sociais irritam. Sei que todos os dias temos o fim do mundo e o seu contrário e as desgraças todas comentadas com muita indignação de crocodilo.

Mas, vá lá, também podemos ser um pouco mais compreensivos para com estes símios baralhados que somos todos nós. Neste caso, impressiona ver os vídeos daqueles jovens entusiasmados com uma final que nunca viriam a jogar — e de repente sabermos que agora não passam de corpos no meio de metal dobrado no meio duma selva escura, onde os bombeiros chegam com dificuldade.

Sim, não andamos por aí a chorar por todos os que merecem o nosso choro. Mas às vezes vemos uma fotografia dum miúdo morto numa praia e ficamos em pânico como se fôssemos pais dele; às vezes explode uma bomba em Paris e gritamos como se fosse aqui; às vezes cai um avião e vemos lá os nossos amigos e os nossos amores mesmo que nunca tivéssemos ouvido falar daquela equipa — e esta é a nossa maneira imperfeita de lidar com este mundo que nos manda à cara a cada minuto as desgraças que acontecem a oito mil milhões de pessoas — e logo a nós, pobres coitados, que nascemos preparados para viver numa pequena tribo de algumas dezenas de pessoas, onde todos se conhecem e todos choram quando algum de nós morre, mas não estamos preparados para lidar com tudo o que acontece a toda a gente em todo o mundo.

Por isso, sim, acontece de tudo e não choramos por tudo — mas quando ficamos embargados perante a morte duma equipa que não conhecemos, no fundo estamos comovidos com o que acontece a todos nós, meio perdidos neste mundo complicado, em que nunca sabemos quando explode a bomba, onde cai o avião, quando seremos nós a ficar perdidos numa selva qualquer.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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