Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Não escrever para não errar?

Fernando Venâncio, que tem um perfil de Facebook interessantíssimo e que deixa a milhas o que por aí se diz sobre língua portuguesa em blogues e artigos de jornal, lembra-se, uma vez por outra, de partilhar connosco exemplos do inventor de regras de português. O último exemplo foi Manuel Monteiro (revisor), autor do Dicionário de Erros Frequentes da Língua, que desata a condenar expressões da língua portuguesa como “pelos vistos” e “tenho saudades tuas” sem que tais expressões lhe tenham feito algum mal.

Os puristas deste calibre estão muito longe da velhinha dicotomia entre prescrever e descrever: eles não prescrevem, não descrevem, não fazem nada — dão umas opiniões sem fundamento sobre a forma como devemos falar e escrever, indo beber a algum vago fantasma de professora de primária, que provavelmente era bem mais sábia que estes inventores de regras absolutas.

Estes puristas pressentem (como médiuns) alguma lógica interna que todos os outros não comprendem (só eles, iluminados) e começam a exigir-nos que agora passemos a dizer “pelo visto” e não “pelos vistos” — porque, pelos vistos, “pelos vistos” está errado. Porquê? Porque sim, pode ser?

Lembro-me, há anos, de ter lido numa coluna de jornal que os portugueses estavam cada vez mais ignorantes porque agora se dizia por aí “terramoto”, quando o correcto é, sempre foi e sempre será, até ao final dos tempos, “terremoto” — que os outros milhões de portugueses digam “terramoto” é apenas prova que os portugueses não percebem nada de português. Na mesma coluna, o autor dizia que Fernando Pessoa era mau poeta porque inventava palavras… Ainda hoje sinto calafrios ao lembrar-me de tal leitura.

O triste é que estas pessoas acabam por prejudicar a própria língua de que se julgam defensores. Nada há pior para quem escreve ou para quem está a começar a escrever do que imaginar gente de lápis vermelho na mão, a inventar regras à pressão só para poder criticar os usos e costumes da língua, acusando-nos de insanável ignorância apenas porque estamos a usar a nossa língua — isto enquanto ignoram olimpicamente o que quer que seja que estejamos a tentar dizer.

Para esta gente, mais vale estar calado do que cair num destes “erros” que nos tentam impingir. A língua, para eles, é um daqueles copos de cristal que mantemos guardados num qualquer armário e nunca usamos para não estragar — ou só usamos debaixo de forte supervisão superior, não vá dar-se o caso de usarmos os gestos errados.

A língua não é sagrada: é bem humana, impura e ilógica — e ainda bem.


Foi corrigida a referência ao purista em questão após simpática correcção de Fernando Venâncio, que muito me honra com as suas visitas a este blogue.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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2 Comentários

  1. Maria Cêncio

    A língua é um instrumento vivo e ainda bem.

  2. José Júlio Costa-Pereira

    É sempre um prazer ler e aprender com ese blogue, dos melhores que temos a um nível mesmo de outras áreas.Devo confessar que sou um fanático como fundamentalista da nossa língua, por isso para tentar curar-me, jamais deixarei de aqui vir regularmente. Pecado confessado.

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