cropped-typewriter-801921_1920-2.jpgDe vez em quando, lá encontro alguém que escreve coisas como «custa nada» em vez de «não custa nada» ou «há nada dentro daquela caixa» em vez de «não há nada dentro daquela caixa». São os mesmos que evitam «não há nenhum» e outras construções dessas, perfeitíssimas.

Ora, como a sintaxe natural da língua não é essa, só posso concluir isto: estas pessoas devem ter passado por algum daqueles inventores de erros que têm medo das orações em que o valor negativo se expressa com duas palavras. Se as duas palavras começam com «n», ficam em pânico. Acham que o nosso cérebro vai ler ali duas negativas e ficar confundido.

Acalmem-se. Respirem fundo. O nosso cérebro sabe perfeitamente que duas negativas dão uma positiva («não há ninguém que não ache» = «todos acham») e isso não tem nada a ver com as manias sintácticas da nossa língua, que por vezes nos obriga a usar duas palavras para construir uma oração negativa.

Não: mudar a forma como construímos orações negativas não nos obriga a pensar melhor. Mas estraga as frases de pessoas que até escrevem bem: começam a dizer «custa nada» e coisas dessas. Não há nenhuma razão para fazer tal desfeita à nossa pobre língua!

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.