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“Não hajas como uma galdéria”: erro ou gralha?

Encontrei hoje, no grupo Tradutores Com Vida, uma imagem dum erro crasso mesmo ali no meio duma legenda. A frase era “Não hajas como uma galdéria.”

Obviamente, a legenda foi objecto de críticas assassinas. Um tradutor não pode dar-se ao luxo de ser ignorante da língua, que é o seu material de trabalho.

Claro que não pode. Este é, objectivamente, um erro grosseiro. Merece, certamente, que a estação seja avisada (ou o próprio tradutor), para a correcção em futuras emissões do episódio.

No entanto, nos comentários, surgiu a dúvida: será isto uma gralha (erro por distracção) ou um erro (erro por ignorância)? Muitos comentadores inclinaram-se para a segunda hipótese, pois não parece possível que alguém coloque ali um “h” por mera distracção. Todos se lembrarão, certamente, da confusão entre “há” e “à”, o mais famoso erro por ignorância da nossa língua. Isto só pode ser prova de imperdoável ignorância.

A minha pergunta é: estará o tradutor convencido que a forma “hajas”, naquele contexto, é correcta? Ou seja, estará convencido que o verbo em questão se escreve “hagir”? Não me parece. O que se passa é uma confusão momentânea entre “hajas” do ver “haver” (“espero que não hajas feito nenhum disparate” — é uma construção rara, mas legítima) e “ajas” do verbo “agir”.

É um erro semelhante à confusão entre “houve” e “ouve”. Quem tem um mínimo conhecimento da língua sabe distinguir perfeitamente as duas formas. Mas, no momento da escrita, é perfeitamente possível haver uma confusão momentânea e lá aparece um “h” onde não devia. Basta reler e o erro desaparece, claro. Mas um erro destes não prova acima de qualquer dúvida que a pessoa não saiba escrever. O uso do “h” é propenso a distracções e a gralhas. Por isso é tão importante a revisão no final — e ainda uma revisão por outra pessoa.

Poderá o tradutor desta legenda estar realmente convencido que é assim que se escreve? Estaremos perante um caso de ignorância gritante da ortografia da nossa língua? Não é de excluir a hipótese, mas, se for esse o caso, o episódio deverá apresentar outros erros. Aliás, se o tradutor está mesmo convencido que o verbo “agir” se escreve “hagir”, o episódio deve estar pejado de erros gritantes. É uma questão de verificar. Tomar este erro como prova irrefutável de desconhecimento da língua pode ser precipitação.

Alguns dirão: “Não podemos desculpar o tradutor. Isso seria um imperdoável facilitismo.” Ora, não se trata de desculpar ou deixar de desculpar. Considerar este erro como uma gralha só nos pode levar a ser mais exigentes connosco próprios: qualquer um de nós pode cair num erro destes. Podemos ter a ortografia na ponta da língua e escrever, num dia aziago, “não hajas como uma galdéria”. Por isso, para sermos exigentes connosco próprios, devemos pressupor que qualquer um de nós pode cair neste tipo de erro — nada de baixar a guarda só porque temos confiança naquilo que sabemos.

Não nos podemos esquecer que, para o espectador, seja erro ou gralha, vai dar ao mesmo: o que tem à sua frente é um erro tremendo. Por isso, custe o que custar, devemos evitar estas situações. Devemos ser muito pouco tolerantes connosco próprios. Pensar que só acontece aos outros é meio caminho andado para termos um erro destes escarrapachado no ecrã de televisão.

Isto será certamente um bom motivo para discutir a forma como os erros nas legendas são muito visíveis e têm consequências muito claras na imagem pública da profissão do tradutor. Tanto assim é que estou convencido que as legendas deviam ser sujeitas a revisões e controlos de qualidade muito mais apertados do que outro tipo de traduções — mas acontece exactamente o contrário.

Fica para outro dia.

Um espectador perante um erro numa legenda.

Adenda
O meu colega +Nuno fez-me ver uma coisa interessante: todos olhamos para o erro ortográfico gritante, mas esquecemo-nos doutro problema naquela frase: a expressão “não ajas como uma galdéria” é muito pouco natural. Fica para outro post a discussão sobre as condicionantes da legendagem que levam a estas frases tão estranhas…

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3 Comentários

  1. Já me dei conta de tantos erros muito mais &#39;imperdoáveis&#39; nas legendas de inúmeros filmes.<br />Este caso poderá ser um excesso de confiança do tradutor. Eu traduzo quase diariamente e em 3 línguas, o que de vez em quando me traz alguns dissabores pois o que parece estar absolutamente correcto, numa leitura mais cuidada pode quase cegar-nos!

  2. Anonymous

    E, também aqui, encontro um erro na sua escrita: &quot;minimo&quot;. Não deveria ser &quot;mínimo&quot;?

    • Não encontro onde está o erro. No texto, aparece &quot;mínimo&quot;, correctamente. Estarei a ver mal? <br /><br />Não percebi o &quot;também aqui&quot;. 🙂

Os comentários estão fechados.

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