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Ainda há pouco ouvi, novamente, a ideia de que hoje só usamos X palavras. Desta vez, eram 500: na cabeça de algumas pessoas, os portugueses só usam 500 palavras diferentes. Mas também já ouvi 150 e há dias em que alguém inventa números mais bicudos: 800 ou 700 ou 234.

Ora, estes números fazem-me confusão, porque revelam certezas onde tenho muitas dúvidas.

Há umas semanas, só para experimentar, escolhi 10 artigos dos blogues do Sapo e contei as palavras diferentes. Eram só 10 artigos e escolhi-os aleatoriamente… Saíram-me 1500 palavras. Palavras diferentes, diga-se! Em 10 artigos de blogue! Lembrem-se ainda que usamos menos palavras na escrita do que na oralidade, onde somos todos muito mais criativos e desenrascados do que pensamos.

Também fiz a experiência de contar as palavras deste blogue: escolhi uns meses de amostra, descarreguei, contei e saíram-me 12 000 palavras diferentes!

Terei sido pouco rigoroso na contagem? Talvez. Mas mesmo que me tenha enganado à grande, tirem 50% dessas palavras e ainda ficamos com 6000. Doze vezes mais do que as tais 500 palavras que, pelos vistos, são o vocabulário típico do português de agora.

Talvez tenha um vocabulário doze vezes superior ao típico… Mas desconfio que o problema é outro: o vocabulário típico não é tão mau como o pintam. Mas, lá está: neste assunto, acho avisado ter mais dúvidas do que certezas.

Agora, um desabafo: custa-me ver algumas pessoas a reclamar, de manhã, contra o empobrecimento do vocabulário (e compreendo a preocupação) e, à tarde, a querer proibir esta ou aquela expressão. Ou bem que querem uma língua mais rica ou bem que querem uma língua mais limitada. As duas coisas é difícil.

Já agora, para quem estiver com vontade de dizer que estou a defender um vocabulário pobre (livra!), pedia-vos que lessem este artigo sobre a importância das palavras na educação das crianças.

E, sim, confesso já: gosto de literatura com muitas palavras diferentes, gosto de ler bons clássicos, gosto de ler textos difíceis. Mas também gosto de ler ideias complexas explicadas em palavras de todos os dias, gosto de cartas directas, às vezes até de livros de linguagem aparentemente limitada, mas que no fundo são o fruto da antiga arte de fazer muito com pouco. Enfim, gosto de muitas coisas diferentes. A língua é, felizmente, muito mais flexível e rica do que dizem por aí. E, se estamos preocupados, temos bom remédio: meter mãos à obra e escrever, escrever, escrever…


Como não podia deixar de ser (um autor não pode ficar parado), aqui fica um excerto sobre o assunto:

A verdade é que todas as línguas europeias sofrem deste vírus: a ideia de que o vocabulário está a diminuir.

O linguista David Crystal, por exemplo, conta que um dia ouviu alguém dizer que o leitor típico do The Sun só consegue ler umas 500 palavras diferentes. Não será difícil de acreditar: estamos a falar dum tablóide.

Mas os linguistas são gente tramada. David Crystal pegou num exemplar do jornal desse dia e contou as palavras. Resultado? Umas 8000 palavras diferentes!

Como comparação, David Crystal diz-nos que a King James Bible, uma obra importantíssima para a língua inglesa, tem também umas 8000 palavras diferentes…

David Crystal diz-nos ainda que, na verdade, o vocabulário típico de um adulto rondará as 50 000 palavras. Este vocabulário não é usado todos os dias, claro está. Depende da situação em que cada pessoa está. Se se vir em apertos, até é capaz de inventar palavras novas, que nós somos um animal muito criativo…

Bem, haverá sempre quem diga: «Ah, mas isso é na Inglaterra!» Ora, sim, mas nisto somos todos mais parecidos do que pensamos. Seja como for, se alguém quiser insultar os portugueses afirmando que temos um vocabulário que é apenas um quinto do vocabulário do inglês típico, ainda fica com 10 000 palavras, bem mais do que dizem as más-línguas que andam por aí.

Antes de continuarmos, um aviso: é óbvio que um vocabulário rico é bom e necessário — e ajuda em quase tudo. Mas daí não podemos concluir que os jovens de hoje conheçam menos palavras do que os jovens de há 100 anos, pouquíssimos dos quais iam à escola…

Sim, quem quiser defender a ideia da decadência do vocabulário pode usar a estratégia de comparar todos os jovens de hoje, de todas as origens sociais e situações familiares, com os jovens seleccionados de antigamente (os pouquíssimos que iam à escola). Mas isso é um erro quase tão grande como comparar-nos a todos com Eça e Camilo.

[…]

Sim: um escritor pode usar toda a paleta de palavras que a língua lhe oferece. Mas, por outro lado, um formulário do Estado ganha muito em ser simples e fácil de compreender por todos.

Sim: um adolescente parece debitar apenas e só monossílabos quando fala com alguns adultos — mas ponham-se à escuta quando o mesmo adolescente conversa com os amigos e vão ficar com os ouvidos a arder de tanta palavra nova e desconhecida.

O nosso vocabulário está cada vez mais pobre? Tenho dúvidas, tenho mesmo muitas dúvidas…

(Excerto de Doze Segredos da Língua Portuguesa)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.