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Agora, já sabem a minha atrevida opinião: o português não está em decadência e todo o choro pela sua morte é choro de quem recebeu uma notícia falsa. Leiam o artigo anterior para conhecerem os meus mais ou menos lógicos argumentos.

Gostava agora de vos contar uma história, que talvez ajude a compreender melhor por que motivo o português está bem e recomenda-se, mas ninguém vê isso e todos choram a sua morte.

Imaginemos um clube de golfe, ali à saída duma simpática terreola.

Ora, há uns setenta anos, havia nesse clube uns dez jogadores, de famílias que sempre tinham jogado esse antiquíssimo desporto (estou a inventar, perdoem-me as imprecisões desportivas).

Uns quatro jogadores eram muito bons, os outros seis nem por isso, mas cumpriam todas as formalidades, todas as regras de etiqueta e sabiam dialogar como senhores enquanto jogavam e, invariavelmente, perdiam.

Bons e maus jogadores eram colegas e todos se respeitavam. As portas do clube estavam fechadas. Lá fora, todos jogavam chinquilho ou, talvez, mini-golfe, esse jogo de novos-ricos.

Pois os tempos são como são. A sociedade muda e há evoluções, revoluções, mudanças profundas.

De repente, o clube vê-se invadido por mais de cem novos membros, do pessoal da terra, habituado ao chinquilho e ao mini-golfe. Estão agora todos convidados a jogar golfe.

Toda aquela invasão repentina é complicada. Os velhos jogadores coçam a cabeça. Alguns, aterrados com esta invasão, lá continuam a jogar. Alguns desses velhos jogadores até se dispõem a ensinar os novos. Outros, nem por isso.

Não há mãos para tanto taco. Os antigos não chegam para ensinar os novos. Têm de ser os novos a ensinar os novíssimos, sob o olhar reprovador dos mais empedernidos dos antigos, que não gostam de ver como os novos membros do clube não trazem já sabida toda a lição. Não aprenderam com os pais? Paciência: não viessem para cá.

Alguns dos antigos, sem saber o que fazer, julgam que o importante, para aprender golfe, é ensinar as regras de etiqueta do clube e ainda qual é o melhor vestuário para jogar o desporto. Criam manuais e passam tardes imensas a discutir esses aspectos mais ou menos secundários, enquanto alguns novos andam atarefados a treinar a boa tacada de golfe.

Há também jogadores dos novos cheios de vontade de entrar, à força, no círculo dos antigos. Para isso, imitam-lhes os tiques e a roupa — e fazem listas de erros e de obrigações, sem se preocuparem muito em treinar a tacada. São dos mais obcecados defensores das regras de etiqueta desse clube.

Dos novos, alguns aprendem tudo e revelam-se muito talentosos — e, mostrando deferência para com os antigos, lá se sentem mais ou menos bem recebidos pelos velhos jogadores de golfe.

Outros destes novíssimos são jogadores talentosos, mas falta-lhes a paciência para a deferência de antigamente e, embora ganhem algumas partidas, nunca são bem-vistos pelos jogadores antigos (nem pelos filhos dos jogadores antigos).

Quem olhar de fora, verá muitos jogadores velhos e novos bons — e muitos maus, alguns deles a aprender o melhor que podem, outros desinteressados, a usar os tacos só para brincar.

Há muitos que se queixam de que este clube não é tão bom como os clubes vizinhos — outros olham com saudade para os tempos de antigamente, quando havia apenas dez jogadores e todos tinham os meus hábitos, os mesmos truques e não se sentiam ameaçados uns pelos outros.

Mas, vejamos: dos cento e dez jogadores de agora (os dez de antigamente e os cem novíssimos), podemos observar, talvez uns 20 muito bons, uns 40 assim-assim e uns 50 sofríveis ou desinteressados.

Para os velhos, isto é horrível. Têm de aturar muita coisa má. Mas esquecem-se que, mesmo entre os dez de antigamente, só uns quatro eram mesmo bons. «Ah, sim, mas tinham maneiras…» Pois, agora, só há uns 30 com maneiras (e um ou dois dos antigos que parecem perder as estribeiras cada vez que falamos disto).

Trinta não é melhor do que dez? Sim, é, desde que aceitemos que o clube agora tem as portas abertas e temos de olhar também para quem não joga bem.

Seria preferível um clube restrito a dez pessoas?

Se soubermos que estamos a falar do português-padrão e não de golfe, a resposta só pode ser «não»: é bom que muitos o usem, cada vez mais. E é bom que experimentem, que aprendam, que saibam dar as tacadas certas — e, pelo caminho, que aprendam também as regras de etiqueta do clube, que dão muito jeito.

Também é bom que os velhos jogadores tenham a tolerância e o civismo necessários para garantir que estas mudanças se façam da melhor forma possível, sem gritos nem demonstrações de superioridade bacoca, de quem preferia jogar mal ou bem com dois ou três do que viver num mundo de portas mais abertas, onde todos são convidados a entrar e a jogar.


Depois desta história toda, pergunto-vos: nessa terra simpática, o golfe está em perigo? Agora que todos o jogam (ou tentam jogar), está em pior estado do que quando só 10 tinham direito a tentar?

Não creio. Tal como não creio que seja justo afirmar que o português está em perigo. Não: está mais vivo do que nunca.