Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

O galego e o português são a mesma língua?

Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal. Podemos viver, neste país, uma vida inteira descansados e felizes (tanto quanto o pequeno rectângulo nos permite) sem que nos entre pelos ouvidos um eco que seja desta batalha linguística.

E, no entanto, ali acima do Minho, há uma discussão acérrima sobre a nossa própria língua!

Então, mas o que se passa? Para um português, a questão da divisão das línguas é bastante clara: nós falamos português. Os espanhóis falam espanhol. Os franceses falam francês. Podemos acenar com a miríade de confusões que desmancham a limpeza do nosso mapa linguístico. Não importa: a questão é fácil, pelo menos no que toca à nossa língua: português é português. Qual é a dúvida?

Então e o galego? Dirão muitos: «Chama-se galego, não se chama? Então não é português. Ainda por cima soa a espanhol…»

O problema é que, no caso de línguas muito próximas, os nomes que lhes damos não são um bom critério para avaliar a diversidade ou a unidade das ditas. Vejamos dois casos…

Rumamos a Valência

Comecemos pela situação linguística na Comunidade Valenciana.

Em Valência, para lá do espanhol, há outra língua oficial, denominada no Estatuto de Autonomia como «valenciano».

Ora, a grande discussão lá por terras de Valência é esta: será o valenciano um outro nome para o catalão? Ou será uma língua própria? Note-se que os valencianos — aqueles que falam a língua — não mudam de maneira de falar de acordo com aquilo que pensam sobre a questão. Por outro lado, a compreensão mútua entre valencianos e catalães está assegurada.

Então, que consequências tem esta discussão? Tem algumas. Por exemplo, os defensores duma língua valenciana separada não aceitam que se apresentem aos alunos livros da literatura catalã nas aulas de valenciano; afinal, é uma língua separada. Já os valencianos que defendem o valenciano como outro nome para o catalão acham muito bem que se estudem obras catalãs nas salas de aula de Valência. Depois, temos a norma: os que defendem a separação entre as línguas defendem uma ortografia e um léxico que se afastam propositadamente da ortografia oficial catalã e do léxico usado na Catalunha.

Já os catalães, diga-se, consideram o valenciano como outra forma da sua própria língua e, nas escolas, as obras valencianas são dadas nas aulas de literatura catalã. Basta pensar em Tirant lo Blanc, uma das obras mais famosas da literatura nesta língua, escrita pelo valenciano Joanot Martorell.

Quem estiver interessado em saber mais sobre as tensões que se escondem por trás do nome que se dá a uma língua, comece por ler o livro Quem fala a minha língua? (Através, 2013), uma colecção de ensaios de vários autores sobre este assunto.

Não é difícil criar uma língua

Olhando para a nossa língua, antes de nos abalançarmos para a discussão que está no título deste pequeno texto, rumemos ao Brasil.

Teria sido possível, no momento da independência, criar uma língua nova. Bastava integrar na norma algumas formas populares do português brasileiro (falo do vocabulário e estruturas gramaticais), estabelecer uma nova ortografia e criar o nome de «língua brasileira». Pronto: estava feito. 

Note-se: num mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado uma língua brasileira, ninguém teria mudado a maneira de falar no momento da decisão. Os brasileiros continuariam a mesma língua, mas dar-lhe-iam outro nome. Claro que aquilo que falavam seria facilmente distinguível do português de Portugal, mas isso também acontece na nossa versão do mundo, em que o nome da língua é o mesmo. Independentemente do nome da língua, portugueses e brasileiros foram falando, escrevendo e desenvolvendo a língua à distância de um oceano e com influências diversas.

Este afastamento não é suficiente para que deixemos de nos compreender — e também não seria no mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado a tal língua brasileira. O nome que se dá à língua e a criação de uma norma autónoma não cortam, de imediato, a possibilidade de comunicar. Nem de imediato, nem durante muito tempo… Mas criam, claro está, uma barreira mental e política que alimenta o distanciamento linguístico.

Em relação ao Brasil, temos a distância e a indiferença, mas a língua é ainda vista como comum por grande parte de portugueses e brasileiros (quando pensam nisso) e as duas normas ainda estão muito próximas. Assim, há leitura de alguns livros brasileiros nas escolas portuguesas, ouvimos os brasileiros na televisão sem precisar de legendas, não traduzimos livros de literatura brasileira (embora, em certo tipo de livros, se note algum tipo de adaptação) e conversamos bem uns com os outros, para lá das picardias típicas de povos próximos e de algum medo do Brasil que uns quantos portugueses apresentam como sintoma de alguma insegurança (digo eu). A língua continua a divergir, mas continuamos a aproveitar as proximidades — o que se faz de forma muito mais saudável quando não há imposições de unidades artificiais.

Portanto: o nome da língua pode sublinhar diferenças ou manter uma unidade decidida para lá do uso real da língua. Com diferenças comparáveis às diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil (provavelmente, as diferenças até serão menores), alguns valencianos pretendem criar uma língua separada. Mas claro que a questão não é estritamente política: é política e é também emocional…

E enquanto discutimos os nomes e as divisões, as línguas, na boca dos falantes, vão mudando ao seu ritmo próprio.

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas. 

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

Mas são a mesma língua ou não?

Antes de tentar responder, podemos olhar para aquilo que é factual. Primeiro: esta pergunta só se faz naqueles casos em que as línguas estão tão próximas que podem funcionar como língua única (se houver vontade).

Segundo: existem galegos, hoje em dia, que olham para o português e o galego e optam por vê-los como a mesma língua. Vêem televisão portuguesa, lêem livros portugueses, etc. Aqui fica uma sugestão de um livro que mostra esta perspectiva: O galego é uma oportunidade, de José Ramom Pichel e Valentim Fagim, um livro que tenta mostrar aos galegos como a sua língua lhes abre os horizontes para um espaço de 200 milhões de falantes. 

Terceiro: se consideramos o português e o galego como línguas separadas, serão certamente das línguas mais próximas que encontraremos em todo o mundo.

Ainda uma curiosidade: há milhares de galegos que se inscrevem para aprender português nas escolas de idiomas da Galiza. Porquê? Tentei responder neste artigo. Note-se que este interesse pela língua portuguesa vai muito para lá das divisões entre as duas normas da língua galega.

E nós, em Portugal? Podíamos considerar o galego como outra variedade da nossa língua, com outro sotaque, algum vocabulário diferente e outro nome? Podíamos, mas não vai acontecer: não há nem conhecimento suficiente entre os portugueses nem interesse da nossa parte. Para nós, os galegos são espanhóis e isso, para a nossa consciência histórica, é algo que nos impede de imaginar qualquer tipo de comunidade, mesmo que meramente linguística. 

Da minha parte, não tenho qualquer interesse em alimentar uma relação de cariz político entre Portugal e a Galiza — e também não quero andar a dar conselhos sobre a ortografia e o vocabulário que os galegos devem usar. Andar a propalar a unidade do galego e do português em Portugal quando, a esse propósito, nem os galegos se entendem parece-me não só inútil como contraproducente.

Mas o belo da questão, do lado português, é que não temos de nos meter na discussão galega nem proclamar a tal unidade: cada um de nós pode aproveitar-se impunemente da proximidade entre o galego e o português. Sem grande dificuldade, podemos aceder a outra literatura e conversar, sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos — ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades.

Pessoalmente, ando a aproveitar esta proximidade. Tenho lido em galego, tenho conversado muito com galegos, tenho até viajado pela Galiza. Todo este texto serve como convite para que mais portugueses aproveitem esta ponte linguística.

O primeiro artigo deste blogue foi sobre Manuel Rivas, um escritor galego, e foi esse escritor que escreveu as primeiras palavras que li em galego, num livro chamado Ela, maldita alma, que um dia comprei num supermercado de Vigo só porque sim:

«Aquela primavera chegara axiña e en demasía. 

Á hora do café, pola fiestra que daba á horta, Chemín mirou a festa de páxaros na vella maceira florida.»

Note-se que esta é a ortografia do galego mais distante da nossa. As opções vocabulares soam-nos estranhas — mas deliciosas. Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças, tal como não precisei de aulas para ler o livro Outra idea de Galicia, de Miguel-Anxo Murado. Foi a minha leitura de há umas semanas e recomendo-a vivamente. É um livro interessantíssimo para quem gosta de boa escrita, queira ou não saber mais sobre a Galiza.

Para terminar, uma confissão: não consigo aprender galego. Ou seja, por mais que leia galego e converse com galegos, as palavras que me saem são sempre as minhas… E chegam! Talvez esta confissão seja a minha resposta — pessoalíssima — à pergunta do título.

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26 Comments

  1. Mais um excelente artigo 🙂

  2. Alzira Serra

    então os espanhóis não falam castelhano?

  3. Alzira Serra

    Que maravilha de texto! E, como sempre, muitíssimo bem escrito, de uma clareza e interesse extraordinários, para além do sorriso e, algumas vezes, da gargalhada que temos obrigatoriamente de darpela fina ironia que lhe encontramos. Mais uma vez: Parabéns!

  4. jose francisco

    ” Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças”.
    Esta declaração sua também me serve, como galego, pela primeira vez que leim uma revista ou um livro em português. As diferenças gramaticais são facilmente superabeiss . Curiosamente, as fonéticas menos. O falante brasileiro ou o moçambiquenho estão mais perto de nós do que o nativo de Lisboa. Não asim aqueles de além do Minho ou de Bragança. A sua fronteira do norte sempre foi muito permeável.

  5. cristina bluemel

    Em criança eu falava galego (galaico-português…) e português. Porque nas aldeias do Minho e Douro Litoral, o português “parolo” que se falava, versus o português académico, das cidades e de quem estudava, não era mais que o galego (galaico-português…). E a compreensão entre quem usava cada um dos dois “tipos” de português era semelhante à compreensão atual entre galegos e portugueses. Espero estar correta! Já alguém se debruçou sobre isto? Ou continua sendo visto como uma versão “parola” do português, que na verdade está desaparecendo?

  6. Patrícia Jorge

    Excelente artigo! Sempre que vou à Galiza, sinto-me em casa, em todo o lado ouço uma língua que me é familiar, nunca tive uma sensação de estranheza, de estar noutro país. Um dia, quando lá estive, um galego disse-me: “vocês foram fazendo a conquista do território para sul e esqueceram-se de nós aqui em cima. Quando é que nos vêm cá buscar?” Da minha parte, interesso-me cada vez pelo galego e a primeira vez que o li, só me apercebi que estava a ler galego depois de uma ou duas frases. A mesma língua ou outra língua, mas próxima, o mais importante será mesmo preservar essa riqueza.

  7. Anxo Grande

    Artigo excelente e duma grande lucidez. Parabéns.
    Chama a atenção que os que dizem que galego / português e Catalão da Catalunha / Catalão de Valência são línguas diferentes sejam os sectores mais centralistas e menos interessados nas outras línguas do estado espanhol. A sua política baseia-se na estratégia do DIVIDE E VENCERÁS. Em palavras de Artur Alonso Novelhe:
    “Normalmente não reparamos em que os fortes dividem, enquanto eles (por interesses escuros comuns) continuam unidos, em este mundo de guerra – concorrência (Divide e venceras). O mesmo fazem com as línguas, as quais eles consideram débeis e portanto não respeitam, dentro das mesmas dinâmicas de continuo confronto.
    Assim no Estado Espanhol, catalão, valenciano são línguas diferentes, tal qual galego e português, enquanto o castelhano de Andaluzia e de Castela-Leão ou Castela–La Mancha ou do Peru, são referenciadas como única e indivisível língua (nem sequer falando muito em voz alta de suas variantes dialectais).”

    http://pgl.gal/salvar-nossa-lingua/

  8. Arturo Novo

    Adorei. Nenhum galego o explicaria melhor. O professor Marco Neves sabe muito bem do que fala. Nota-se que conheze a Galiza e aos galegos. E também se nota que nos quere muito bem. O amor é recíproco, pois nós, os galegos, também lhe queremos a ele.
    Se algum dia nos deixam tanto o Estado Espanhol como o Estado português, galegos e portugueses volveremos a nos reconhecer como o que sempre fomos: o mesmo povo!

    • Vicente

      O profesor erra nunha cousa elemental.

      A xente nova xa non fala galego (nin sequera o normativo), polo que, a intelixibilidade ao falar cun portugués é moi limitada.

      O uso do castelán e maioritario, e mesmo moitos portugueses preferen ao vir a Galicia falar cos galegos en castelán, posto que descoñecen o tema e ata achan é mellor face-lo así (por educación pode ser… ou descoñecemento)

      Ata que o goberno da Xunta de galicia non quera facer da lingua algo útil, isto vai ir a peor, segundo a UNESCO (acho agora de memoria, non lembro exactamente tesme que perdoar) o Galego está en perigo de extinción, sobre o ano 2050 máis ou menos quedará pra falar somentes na administración.

      Unha mágoa, espero equivocarme.

      Un saúdo.

  9. Christian

    “línguas mutuamente inteligíveis” !!!

    Aprendi recentemente essa expressão. A outra palavra foi “diassistema”. Muito bem, mas o que o o por que disso?

    Na prática é por que Estados adoram dar nomes diferentes a mesma língua, para separarem ou criarem identidades próprias, como Catalão e Valenciano, Romeno e Moldavo, Neerlandês e flamengo, búlgaro e macedônio, sérvio e (sérvio) croata, tcheco e eslovaco, hindi e urdu, malaio e indonésio, GALEGO E PORTUGUÊS…sim, eles têm sotaques, segundo a sua história, influências vizinhas, invasões, etc.

    Como foi escrito na matéria de uma revista, ” Para criar um idioma que possam chamar de seu, nações criam, matam em ressuscitam seu jeito de falar”.

  10. Tiago Vasquez

    Os Portugueses do Norte de Portugal sentem uma grande proximidade aos Galegos. No fundo, eramos todos Galegos no Séc. XI. Separados artificialmente por uma rixa familiar, conquistámos, já como Porto-Gaienses, os territórios ocupados pelos mouros. Estes territórios novos e exóticos foram absorbidos mas eram bastante diferentes. Seja por causa do clima humido e verde, pelas montanhas, pela gastronomia muito virada ao peixe, seja pelas pessoas, e também claramente pela língua, Porto-Gaia mantém uma forte ligação à Galiza. A importancia que Lisboa teve com o crescimento da televisão e da rádio veio-se intrometer e reduzir a relação linguística com a Galiza, mas culturalmente essa relação será sempre forte. E havendo uma Regionalização, havendo essa libertação da autoridade artificial de uma Lisboa muito distante da Galiza, vamos rapidamente voltar e aprofundar os laços com os irmãos Galegos. A Galiza representa para nós algo como o fado e as touradas para Lisboa, que a Norte causam indiferença, mas a Sul são muito importantes.

    • Carlos Cao

      obrigado irmao portugués, eu penso o mesmo, os dous gobernos portugués e español teñen muito interese en que galiza e norte de Portugal fiquen afastados cultural e politicamente.
      En canto ao artigo en xeral e moi bó coma todolos seus e concordo ao 90 por cento.
      Xa teño falado en canto ao vocabulario galego que a presenza dun goberno autónomo inimigo (de “coraçao”)do galego tomou a decisión de facer a escolla para que as muitisimas palabras comúns foran esquecidas e cambiadas polas menos parecidas: onde deciase segunda feira pasouse a decir luns (galeguizando o castelhano lunes, onde deciase bon agora hai que decir “bó” e así centos de palabras, e non digamos a guerra dos apelidos e nomes xeograficos como mudaron criminosamente Outeiro por Otero, Niño d¨Aguia por EL NIÑO DE LA GUIA (non e brincadeira, e certo) e milleiros mais. Pero finalmente alguns galegos non esquecemos a nosa irmandade cos portugueses, sobre todo os do norte, mais a maioria (un 70 por cento) dos nosos cidadans non teñen interese pola sua cultura e lingua e as veces escoitalos falar ninguén diría que son galegos/as.
      Algo positivo a dizer?? fixeron bastante ben os cambios na toponomia como falamos antes, non foi algo perfeito pero esta basante ben e as salvallladas ou burrradas do pasado van esquecendose. Ainda así o noso presidente nacional que e galego non se lle coñece dixera algunha palabra na lingua galega e fala da sua vila turística coma SANGENJO en troques de SAN XENXO ( san Ginés en castelhano),

      saudos aos meus irmaos portugueses e doutros pobos do estado español

  11. Vicente

    O idioma galego ten semellanzas co portugués, máis non son nin de preto segundo as normativas oficiáis da Real Academia Galega (RAG) as que achegan os idiomas pra favorecer a intelixibilidade mútua.

    O galego emprega unha ortografía cen por cen do castelán, e digo unha querendo dicir uma, posto que o nh en galego é un “m” portugués, non queremos decir uña en ningún caso, e si, temos ñ no noso idioma.

    Construímos as frases como españóis, posto que é o que somos e como es que fomos educados, non temos no noso abecedario o iota (j) por iso sempre empregamos os X, posto que no castelán o son máis próximo ao g e j portugués simplifícase a “x”, por exemplo, xabarín, hoxe, xornal, Xunta, xeada, xeo…

    Logo, non empregamos lh, empregamos ll, de novo, porque as nosas normas ortográficas están baseadas en adaptar o “portugués” ao “castelán” para facilitar que a xente o aprendera mellor (lembrade, en Galiza ata os anos oitenta tíñamos coma única lingua oficial o castelán).

    Grazas ao decreto Filgueira, nos hoxe en día temos un idioma totalmente castelanizado, dicimos o é e o e do mesmo xeito (é=e=e e non é=e e=i/y) o que provoca a confusión dos portugueses ao falar (Isto é así e o di todo o mundo, entre nos entendémonos).

    Logo, temos as formas verbais moi vellas, por exemplo

    Eu fago
    Tu fas
    El/Ela fa
    Nos facemos
    Vos FACEDES e non faceis
    Eles fan

    Tamén dicir que temos unha grande disputa interna, non temos verbos compostos, non podemos empregar moitas cousas na nosa fala porque soan ou moi castelán ou moi portugués, os nosos políticos así quereron converter a nosa lingua nunha propia cen por cen, excluendo o que a xente fala en realidade, agora non é eu sou se non eu son por exemplo.

    Lémbrome de xente maior ca min, ca falan doutro xeito, até algúns escribían con nhs e sem “ñ”, máis eche o que hai (si, hai, non ha).

    É unha mágoa, tivemos nas nosas máns a oportunidade de facer da lingua galega unha grande ferramenta de comunicación e a perdemos peleándonos coas normativas.

    Portugal xa tiña unha normativa, todos os livros están escritos en portugués, porque o noso goberno ha de reinventar a roda cunha nova ortografía a que por certo hai que traducir todo?

    Eu não tenho porblema nenhum en aceitar a grafía lusa se isso lhe facilita às novas crianças facilidades pra compreender mellor o português.

    O que acontece, hoxe en día, e que a nosa lingua está morta por carecer de utilidade, por non ser nin castelán nin portugués e por pasar 30 anos dicindolle a xente que falaba mal, todos falaban mal agás os señoritos da Coruña.

    Eu, como galego, sei falar galego, pero creo que o mellor que podemos facer para mante-lo con vida e permitirlle copiar todo do seu irmán, ainda que o falemos ao noso xeito coa nosa pronuncia ou sotaque, e non facer caso das asociacións estranas que temos que propoñen achegar a nosa lingua ao português con cousas tan estranas como “umha” ou “estaçom en lugar de estação”, o único que farán con iso e afastar máis a lingua, non so teremos de volver a aprende-lo de novo, se non que tampouco terá unha aplicación real no mundo de novo.

    O futuro pasa por achegarnos cos nosos veciños portugueses, aprender uns dos outros e unificar as cousas e deixar os procesos de balcanización de ter 4 idiomas galegos na propia Galicia admitidos, que si pantalois, pantalós, pantalóns (calças acho é em português), ou ver no diccionario que podes escreber imposible e imposibel, ao teu gosto.

    Un saudo.

    • E que tal se Portugal admite “estaçom” na sua normativa? Seria outra opçom, igual de válida.
      Por que os galegos imos ter d´adotar o estândar lisboeta? Podemos trocar a normativa oficial pola reintegracionista; mais os lisboetas tamém teriam de fazer algũa aproximaçom. E, niste caso, inda máis. Usando vrão, cam e ladrom; os plurais bem se sabe que som vrãos, cães e ladrões. Assim, acabaria-se com erros tam estranhos como verões, refrões, guardiões, vulcões, alemões, irmões…

      • Vicente

        Ola

        Portugal xa ten a sua lingua, moi útil por certo e expandida por medio mundo,
        España xa ten a sua tamén, e aínda máis útil.

        O Galego está na peor posición, a de sobrevivir con cartos públicos, se facemos un exercicio de autocrítica veríamos que non hai nada de malo en facer algunha vez unha “cafrada” cos idomas.

        Italia non fa moito que reunificaran todas as suas linguas, Francia hai mas anos… e vailles moi bien, gozan dunha saúde enorme o Francés e o Italiano a día de hoxe.

        O problema de manter o galego a marxe do portugués é tan simple como que non é portugués nin na mínima expresión, e coa norma reintegracionista o sería? Eu acho tampouco.

        Se queremos dar cultura aos nosos fillos, que falen un bo galego, pero como variadade dialectal do portugués en canto e tanto a léxico, non en orotografía nin gramática que é o que é mais problemático e crea máis distanzamento entre nos.

        E si, iso implicaría que Galicia debería de renunciar á lingua galega como tal, e por outro lado, isto implicaría modernizala ata o punto de converternos aos galegos en persoas con máis de 800 millóns de personas “falantas-ready”.

        Eu sempre defendín o sacrificio, pero calquera dirá que é unha barvaridade, mellor manteñamos unha lingua que pouca xente comprende pra que vale (falo da xuventude, pra nosa desgraza, o interes deles nisto é pequeno pequeno…)

        Un saudo e disposto a conversar sempre que quera.

  12. Mário Herrero

    Mais um magnífico artigo. Nós, aqui, continuamos na nossa lu[i]ta. Quero dizer, na nossa derrota… Mas o Norte não esquece, como dizem os Stark. Ou, antes, alguns do Norte não esquecemos. Parabéns, Professor.

  13. O de discussom acérrima e o de que o reintegracionista é usado por moitas pessoas… Coido que exagerache um pouquinho, nom che parece? Dos 2,7 miliões de pessoas que tem a Galiza; aproximadamente a metade fala galego. Segue sendo máis dum miliom. E cantos reintegracionistas á? A nom ser que passassem das 100.000 pessoas, nom se poderia considerar como “moitos” (levando em conta a porcentagem).
    E o d´acérrimo… Digo-che eu que, na minha zona, as pessoas reintegracionistas (e as discussões que possa aver)se podem contar cos dedos das mãos.

    Por que sítios foche do norte da Galiza? Peró do norte, que máis norte pouco pode ser.

    • Vicente

      A Coruña, Vigo, Pontevedra e Ferrol non falan nin papa de galego.

      De feito, case escoito máis portugués no meu día a día que galego.

      Outro tema ir fora desas cidades, donde ben certo é como ti indicas, que fálase galego por maioria.

      A norma reintegracionista é unha caralhada, non é oficial, non é admitida, é un clube de amigos que loitan cun obxetivo, e eu alégrome un montón por eles aínda que non comparta a súa visión, pero para a sua desgraza, nunca chegou (case por pouco) a ser nada oficial.

      Polo tanto, o número de falantes de galego debe de atenderse aos 3 bloques actuais establecidos, cosas suas variantes e peculiaridades, todo o que estea fora diso é outro idioma non oficial.

      Quen quera empregalo, benvido é, eu sou un primero en cometer lusisnos na miña fala, non serei quen de dicirlles nada, agora, con cabeza, neste momento somos minoria.

  14. Carlos Cao

    E un milagre que un 30 por cento dos galegos siga falando, mellor ou pior, a sua lingua tendo en conta que dos nosos políticos case ninguén ten interese na lingua agás o bloque nacionalista galego e encontro irmandiño que son minoritarios.
    O galego portugués, que así deberia ser chamado segun eu penso e un tesouro histórico e alén diso ten variedades xeograficas e eu sigo a pensar que o galego e unha disas variedades e non vou mergullar mais niste asunto, pero realmente eu sinto ter muito mais en común con un portugués que con un catalán, andaluz etc.

    E parabens a Neves e muito obrigado (que e palabra tan galega coma portuguesa)

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