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Enquanto ando a preparar aulas sobre a gestão de projectos de tradução, sento-me um pouco a pensar em como explicar esta profissão a quem nunca ouviu falar dela.

Afinal, conheço algumas pessoas a quem faz confusão a simples ideia de viver da tradução. Imagino que seja uma consequência da famosa invisibilidade do tradutor. Sim, todos usamos traduções todos os dias (talvez mesmo todas as horas) — e, no entanto, é fácil ignorar este trabalho ou julgá-lo tão fácil que basta estalar os dedos para encontrar pessoas preparadas para o fazer.

Ora, se isto é assim com a própria actividade de traduzir, o que dizer do gestor de projectos de tradução? Se há quem não acredite que os tradutores podem viver da sua actividade, o que dizer de quem gere tradutores? Para quê, dirão alguns? Não podem os tradutores gerir-se a si próprios?

Curiosamente, é fácil encontrar pessoas na própria área da tradução que não vêem grande utilidade nesta outra profissão bem próxima.

E, no entanto, os gestores de projectos andam por aí…


O que faz, então, um gestor de projectos?

Para compreender, é preciso ter noção, por um lado, da extrema complexidade dos projectos de tradução e, por outro, da necessidade de concentração do tradutor naquilo que faz bem: traduzir. É natural que tenda a haver uma separação entre a actividade de traduzir e a actividade de gerir a complexidade inerente a tudo o que rodeia a tradução e que não é a tradução em si.

Ou seja, enquanto o tradutor tem textos e problemas a resolver relacionados com a dificuldade de ligar duas línguas, o gestor de projectos tem clientes, ficheiros, software, recursos (tradutores e não só), controlo de qualidade, entregas e muitas outras coisas.

(Sim, eu sei: os tradutores freelancer também têm muito disto — mas isso é porque são, eles próprios, gestores dos seus próprios projectos, principalmente quando trabalham para clientes finais. E o certo é que, no final, tem de sobrar cabeça para traduzir, dê por onde der.)


Um exemplo de projecto

Uma fábrica de componentes automóveis alemã precisa de traduzir o seu manual para cinco línguas: inglês, francês, italiano, espanhol e português.

O que faz?

Começa por contactar a sua empresa de tradução favorita (também pode ter tradutores internos ou gestores de projecto internos — acontece muito mais do que pensamos).

O gestor de projectos dessa empresa olha para o manual, que está em PDF. Pede a versão original ao cliente. O cliente lá encontra o ficheiro Word a partir do qual criou a versão.

Maravilhoso!

O gestor de projectos faz o orçamento e enviar para o cliente, ficando à espera da aprovação, que chega pouco depois, mas com um aviso: a tradução tem de ser entregue dois dias antes do prazo proposto.

O gestor faz umas contas, fica um pouco assustado, mas chega à conclusão que é possível.

Tudo confirmado, o gestor de projectos  —  chamemos-lhe João  —  abre o projecto na base de dados de projectos da sua empresa (a empresa usa uma base de dados criada internamente, enquanto outras usam programas como o Plunet, o XTRF, o OTM, etc.). O cliente já é cliente habitual, tudo é feito em poucos segundos.

O João começa a preparar a tradução em si. Importa os ficheiros para uma ferramenta de tradução (por exemplo, o memoQ). Abre o ficheiro no ambiente de tradução, corrige a segmentação, escolhe as bases terminológicas correctas, vai procurar a memória de tradução do cliente. Faz contagens, vê o aproveitamento que tem, faz mais contas.

Prepara as instruções adequadas e começa a procurar os tradutores para cada uma das línguas. Usa a base de dados de tradutores e envia emails aos tradutores com quem quer trabalhar. No caso de três das línguas, recebe respostas positivas em poucos minutos. As outras duas línguas demoram um pouco mais.

No final do dia, já está tudo atribuído. O projecto demora alguns dias. Vai recebendo algumas dúvidas, vai respondendo. A certa altura, tem de enviar uma lista de dúvidas ao cliente, já trabalhadas por si, para não enviar nada em duplicado. Reencaminha as respostas para os vários tradutores. Tenta perceber se todos as receberam e implementaram.

À medida que os tradutores terminam as traduções, vai recebendo notificações do programa de tradução. Vai procurando os revisores adequados. Repete-se todo o processo de atribuição.

No final, faz uma série de verificações (terminologia, ortografia, etc.), exporta os ficheiros, abre para ver se está tudo bem  —  e cria um ficheiro .zip bem organizado, que envia para o cliente.

Falta receber as facturas dos tradutores e revisores (excepto no caso da tradução feita internamente, que neste caso foi a tradução para inglês  —  ele tem a sorte de ter uma tradutora interna de língua inglesa)  —  e falta ainda emitir a factura para enviar ao cliente.

Se tudo tiver corrido bem, o projecto terminou. Há que arquivar ficheiros, memórias, glossários… E esperar para ver se o cliente também acha que correu tudo bem.


Isto que vos descrevi é um projecto que corre bem. Ora, há imensa coisa que pode correr mal.

Reparem: só neste caso, tivemos cinco tradutores e cinco revisores. Tivemos um só ficheiro (o que é raro)  —  mas também o glossário e a memória de tradução. Todos estes pontos  —  e ainda o software, as bases de dados  —  representam riscos de alguma coisa correr mal.

O cliente pode não ter a versão original (e lá temos de converter o PDF em Word), pode ser difícil encontrar tradutores, o revisor pode recusar a tradução acusando-a de falta de qualidade insanável, as instruções podem ficar esquecidas ou não ser enviadas, as dúvidas dos tradutores podem nunca ser respondidas, as memórias podem conter erros, os termos podem já não estar actualizados, os computadores podem falhar, o cliente pode enviar uma nova versão a meio do projecto, o nosso filho pode ficar doente, o tradutor interno pode começar numa sessão de pânico tradutório, quem fez o orçamento (às vezes não é o gestor de projecto) pode ter-se enganado nas contas  —  e toda a infinidade de problemas que ninguém pode prever. Esta é uma profissão de gestão de risco e de resolução de problemas.

Ora, claro está, é muito bom separar este caos de quem está a traduzir. É mesmo muito difícil traduzir e estar a pensar nos dez projectos que temos entre mãos e que podem falhar a qualquer momento. O gestor de projectos é aquela pessoa que tem entre mãos tudo o que difícil há neste sector  —  excepto a tradução em si.

O gestor de projectos, no fundo, resolve problemas: resolve os problemas do cliente e tenta resolver os problemas dos tradutores. Está, se repararem bem, no meio ou entre mundos  —  o que não deixa de ser uma posição bem típica da nossa área…

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.