ufo-1622863_1280Há pouco, deparei com mais um texto com uma teoria da conspiração delirante (de que já aqui tinha falado, aliás, neste artigo). Segundo o autor, o português vem do grego antigo e a ideia de que falamos uma língua latina nasceu com os românticos — e desde então tem enganado gerações e gerações…

Provas? Coisas como a palavra «palavra» ter origem no nome da deusa Pala (é mentira: a palavra «palavra» vem da «parabola» latina) e outras parecenças dessas, circunstanciais, aleatórias… É o tipo de pensamento nebuloso, embrulhado num discurso de aparência coerente e informada, que nos deu tantos e tantos erros e delirantes edifícios intelectuais ao longo da história.

No que toca à nossa língua, estas teorias existem para todos os gostos: o português veio do fenício, veio do árabe, veio do grego, veio disto ou daquilo… Que tantos e tantos estudiosos tenham acumulado toda uma história complexa e ainda não terminada do caminho que a nossa língua percorreu do latim popular até ao português de hoje em dia, passando pelos séculos em que o português e o galego não se distinguiam — nada disso interessa! Há umas quantas palavras de origem árabe? Falamos árabe! Há umas quantas palavras de origem grega! A nossa língua é grego puro!

E, claro, como bons teóricos da conspiração, os factos que apresentamos só reforçam as ideias delirantes dos donos das verdades alternativas. Deve ter a ver com um qualquer mecanismo cerebral, talvez a propensão humana para explicar tudo através de narrativas pessoais: gostamos mais de pensar que somos um herói intelectual num mundo de gente enganada ou enganadora do que passar pelo trabalho de aprender o que já se sabe e, talvez, com o nosso esforço, deixar mais uma pedrinha nessa construção colectiva que é o conhecimento humano.

Sim, eu sei que o progresso do conhecimento humano exige estarmos sempre a pôr em causa o que sabemos: mas pôr em causa não é inventar por inventar — pôr em causa é testar o que sabemos, ou seja, contrariar propositadamente o que pensamos, mas de forma honesta e, acima de tudo, sem ignorar os factos que estão em cima da mesa. As teorias com que explicamos o mundo testam-se e melhoram-se, não se descartam com um gesto displicente. Se alguma delas se revelar errada, não a devemos substituir por outra que explica ainda menos do que a anterior e contraria quase tudo o que sabemos.

Aliás, os cientistas sabem que se provarem que uma teoria reinante está errada ficarão famosos: mas essa prova não se faz mandando umas larachas. Faz-se com trabalho, investigação e cautela. Pouquíssimos são os que conseguem porque a verdade é que aquilo que sabemos depois de séculos de pesquisas costuma aguentar-se à bronca. A Terra nunca mais voltou a ser plana. A nossa língua continua latina… E as teorias da conspiração continuarão a existir enquanto existirem seres humanos!

A história verdadeira da língua é tão interessante: não é preciso inventar um universo alternativo. Até porque, para inventar por inventar, bem podíamos dizer que falamos uma língua extraterrestre. Basta reparar que não sabemos a origem dumas quantas palavras e, a partir daí, explicar ao mundo que o português só pode ser do planeta Xénon. Bem, é melhor estar calado…