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Os erros de português dão cabo do pensamento?

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O artigo até começa relativamente bem. Apesar da citação mais do que estafada do poeta que dizia que a pátria dele era a língua (não a vou repetir, claro está) e apesar da acusação desabrida de que os erros são uma forma de traição à pátria, a verdade é que, de facto, para ministros, deputados e outros representantes da Nação, é importante obedecer às regras do português-padrão e às suas convenções e tabus.

Falo do artigo «A insustentável leveza da Língua Portuguesa», de Paulo de Almeida Sande, no Observador (o artigo foi-me enviado por um outro Paulo, leitor deste blogue, a quem agradeço).

Os exemplos de calinadas que o autor apresenta são vários: «fui de encontro», «apesar de não haverem razões», «aonde estás», «vim há dois anos atrás», «’tamos juntos», etc. Todos estes exemplos mostram como a língua está a ser traída e, logo, também a pátria.

Enfim, podíamos discutir longamente o estatuto de erro destas construções. Dou de barato que convém evitá-las quase sempre, com algumas ressalvas:

  • Parece-me um exagero condenar o «’tamos juntos», que quase todos dizemos na oralidade, informalmente.
  • O caso do «aonde» também não é tão linear como parece, pois o «erro» que o autor detecta (usar «aonde» quando não estamos perante uma deslocação) aparece em muitos e bons autores da língua portuguesa.
  • Quanto à questão do pleonasmo «há X tempo atrás», devemos evitá-lo por ser um (infeliz) tabu da língua, que deixa muitos de cabelos em pé, embora haja por aí muitas outras redundâncias que não levantam as sobrancelhas a ninguém. Afinal, a redundância é essencial ao funcionamento das línguas, por vários motivos que agora não vêm ao caso.

Os tabus da língua são imprevisíveis, mas temos mesmo de os conhecer… (Quem costuma vir a este blogue já sabe que uma das minhas irritações pessoais são todas as tentativas que se vêem por aí de inventar tabus. Mas isso é outra história.)


Bem, para facilitar, aceitemos todos os exemplos como erros verdadeiros. Muito bem. Digo-vos agora que o autor dá um conselho moderado para evitar estes erros: não crucifiquemos o ministro ou deputado que os diz; aconselhemo-lo antes a pedir ajuda para ultrapassar tais dificuldades ao lidar com o padrão da nossa língua. Parece-me uma proposta razoável e inteligente.

É verdade: se queremos falar em público em situações formais, temos mesmo de conhecer o português-padrão e errar o menos possível. É uma questão de imagem, de etiqueta, de nos levarem a sério ou não…

Até aqui, tudo bem.

Mas eis que o artigo bate a toda a velocidade contra a parede.

O autor diz isto:

Sabendo-se da íntima relação entre a língua e o pensamento, a banalização destes erros, a sua aceitação tácita e consequente generalização, ao fazer regredir a língua, empobrece o pensamento. Em suma: ficamos, como povo, menos evoluídos, pensamos pior, perdemos terreno na batalha do desenvolvimento. Retrogradamos.

Minha Nossa Senhora do Pânico Moral! Que belo exemplo de retórica purista que ignora o que é a linguagem humana…

Expliquem-me lá como é que usar «houveram» em vez de «houve» empobrece o pensamento. Sim, é incorrecto, pode destruir a imagem pública dum governante, mostra pouco conhecimento do português-padrão, mas, neste caso, e assumindo a tal «íntima relação entre a língua e o pensamento», onde é que o pensamento está em perigo?

Afinal, este é um verbo que não segue a regra geral da língua. A regra geral diz que cada verbo tem formas para as várias pessoas do singular e do plural. Ora, no caso do verbo «haver», não podemos usar as formas do plural. Isto, claro, se o verbo for o verbo principal. Se for um verbo auxiliar, aí já devemos usar as formas do plural. Ou seja, «havia muitas pessoas naquela sala» está correcto; «as pessoas haviam chegado em catadupa» também está bem. «Haviam muitas pessoas» já é um erro.

Isto é uma das muitas faltas de lógica deliciosas da nossa língua: este verbo não pode ser usado no plural! Mas será que usar o plural deste verbo leva-nos a pensar mal? Se é assim neste verbo, porque não acontece o mesmo nos outros verbos todos, que têm plural em todas as situações? Onde é que está a falácia ou o erro de pensamento relacionado com o uso do plural dum verbo específico que não o admite por mero acaso das desventuras da gramática portuguesa?

Continuemos: dizer «aonde» em vez de «onde» leva-nos a pensar mal? Empobrece o pensamento? E a história de regredir a língua? Em que sentido? Se continuarmos a dar estes erros vamos acabar a falar latim, é isso?

Tentemos arrumar as ideias, para lá do pânico linguístico que nos tolda o pensamento: conseguimos de facto apontar como é que estas construções fora do padrão prejudicam o pensamento? Como é que nos fazem cair em falácias, em confusões, em erros de pensamento (não de língua)?

Ou, no fundo, não estaremos nós a cair num erro de pensamento, confundindo erros de uso do português-padrão com erros de pensamento? Não será, no fundo, apenas um cliché que foi longe demais?

Estamos perante um descarrilamento do pensamento: a língua e o pensamento são a mesma coisa [erro!], logo um erro qualquer mais ou menos grave leva-nos a pensar mal [não!], logo estamos a atacar a pátria e o progresso do pensamento português [enfim…], logo dizer «aonde» ou «houveram» é um ataque à Pátria e ao Pensamento [prendam já toda a gente].

Infelizmente, muitos dos que defendem o pânico linguístico não sabem muito bem como funciona a linguagem, refugiam-se em clichés e confusões entre língua e pensamento e tendem a carregar nas tintas dos argumentos de quem não concorda inteiramente com eles (acham, por exemplo, que os linguistas não acreditam em regras ou em erros, o que é um disparate como há poucos). No fundo, o pânico leva-nos a pensar de forma confusa — muito mais do que qualquer um dos erros referidos acima.

Toda esta lógica simplista e purista é, ela sim, um verdadeiro erro de pensamento e uma falha de compreensão de como funciona a linguagem humana. Sim, porque, ao contrário do que pensam os puristas:

  • Existem vários registos de língua e um «’tamos» entre amigos não é um erro, mas sê-lo-á se estivermos a ler um discurso no Parlamento. O uso das convenções é importante para que nos levem a sério quando estamos em situações formais. (Agora, temos também de saber isto: a língua muda e essas convenções também.)
  • O pensamento está ligado à linguagem, mas não da forma simplista que associa as regras gramaticais de cada língua ao pensamento em si. Escrever e falar de forma clara ajuda-nos a pensar de forma clara (e vice-versa). Agora, regras como «o verbo “haver” não admite plural quando usado como verbo principal» não aquecem nem arrefecem no que toca à qualidade do pensamento.

Ou seja, os erros de português são importantes e devem ser evitados. Só que não pelas razões que se apontam por aí…

Voltando à pergunta do título: os erros de português dão cabo do pensamento? Não tanto quanto o pânico linguístico.

(E, já agora, por amor de Deus: podemos usar «’tamos todos?» à espera de amigos no cinema sem ser acusados de crime de lesa-pátria? Obrigado!)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.

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6 Comentários

  1. Venâncio

    Munta bom!

  2. Vasco Alves

    Como é bom que haja debate acerca da língua.
    Ao analisar aspectos que surgem de exemplos reais, esclarecem-se e qualificam-se os caminhos da oralidade e da escrita, portanto pensamos a dita o que só nos faz bem.
    Abraço.

  3. Matilde Teixeira

    Talvez fosse interessante não insistir tanto na noção de erro mas na de adequação de linguagem, à situação, ao momento, às circunstâncias específicas, ao locutor(es), à intenção da fala ou do texto … falar bem ou escrever bem não será fundametentalmente isso? A verdadeira e refinada elegância de alguns que é sempre um prazer ouvir ou ler!
    Ai a língua escapa a rigorismos e intransigências e ainda bem!
    Embora haja erros, manias, modismos que incomodam, nos arrepiam um pouco, diga-se a verdade!
    Mas não é por isso que vamos desembainhar a espada ou montar bancadas para um novo tipo de auto-da-fé … Felizmente!

  4. “O caso do «aonde» também não é tão linear como parece, pois o «erro» que o autor detecta (usar «aonde» quando não estamos perante uma deslocação) aparece em muitos e bons autores da língua portuguesa.”

    Aliás, eu vejo mais o oposto: usar-se ‘onde’ no lugar de ‘aonde’, que penso que um dia estará tão morto como a conjugação da 2ª pessoa do plural.

    Fazes bem em apontar que a maioria das pessoas que escreve estes textos apocalípticos não sabe muito sobre a relação entre linguagem e pensamento. Eu suspeito que tenham apanhado noções a ler 1984, o que não seria mau se George Orwell soubesse alguma coisa sobre o assunto. É revelador que nestes artigos nunca vemos citados linguistas como Steven Pinker, ou neurologistas.

    • Marco Neves

      Exacto: o George Orwell é o linguista-fétiche de muita gente. Só é pena não ser linguista.

      E quanto ao «aonde», aqui está um bom exemplo de palavra em perigo de vida por causa do medo do erro.

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