Hoje falamos todos de Charlie Hebdo e dos heróis que lá morreram. Sim, heróis, porque quem trabalha sabendo que pode morrer por causa disso é um exemplo de coragem — e quem usa esta coragem em nome dum valor como a liberdade de expressão só pode ser chamado de herói.

Alguns lembram que estes heróis eram provocadores, como se fosse preciso relativizar as culpas. Sim, eram provocadores. E depois? A liberdade é feita da possibilidade de provocar. Até mesmo de ofender. Quem se sentir ofendido nalgum direito individual tem meios de resposta. O que não tem é o direito de vingança em nome duma qualquer ideia de sagrado.

Dizem estas mentes perturbadas que estão a agir em nome de Deus. Se for Deus que está a mandar fazer isto (e não é…), tenham coragem e digam a Deus para esperar sentado. O sagrado acaba onde começa a carne dos homens.

Como disse o Xeique David Munir, quem não gosta de viver num país liberal, pode mudar-se. Diria eu que pode ficar — e queixar-se, declarar-se ofendido, gozar com os gozadores… — o que não pode é matar, o que nunca pode é tentar dar cabo da liberdade de todos em nome do sagrado de alguns.

Infelizmente, não são apenas os jornalistas que estão sujeitos a esta fúria contra a liberdade de expressão. Lembremo-nos de Salman Rushie — e permitam-me que lembre Hitoshi Igarashi, o tradutor assassinado por ter vertido para japonês os Versículos Satânicos.

A arte, a escrita — e também a tradução — parecem fazer confusão a quem anda armado com todas as certezas do mundo. Mas, no fim, há-de ganhar o riso sem certezas de quem prefere a provocação à violência.

Para já, não nos esqueçamos de dizer a todos os que continuam a provocar em liberdade: muito obrigado!