Este colunista do i teve um Natal infeliz: acreditava que todos deviam pronunciar as palavras como ele (e saber falar de vinhos), mas encontrou um taxista que diz «ròtunda», ouviu um amigo distraído a dizer «vinho muito incorporado», teve mais uns azares desses — e vai daí concluiu que chegámos ao «pico da miséria linguística». Não se fica por aí: conclui, tremendo, que o português, para muitos portugueses, «é já uma língua estrangeira»! Chiça. Ele que escolha um taxista menos dado a pronúncias populares e arranje amigos que percebam de vinho — mas não diga estas enormidades sobre a língua. Reparem: todos estes erros e diferenças de pronúncia existem, é verdade. O problema é essa santa ingenuidade de achar que antigamente não era assim. Ora, desengane-se o colunista: nunca houve um tempo em que os portugueses pronunciassem as palavras da mesma maneira, em que ninguém dissesse palavras mal ouvidas — ou em que aquelas pessoas que escrevem mau português no Facebook fossem portentos da ortografia. Mas, vá, o texto nem acaba mal. O colunista faz um apelo para melhorarmos todos o português — e eu digo que sim e arregaço as mangas, pois há muito a fazer para escrever melhor e falar melhor. Mas acrescento, se me permitem, um outro apelo: também há muito a fazer para pensar melhor sobre a nossa amada língua — sem catastrofismos fáceis e sem criticar a maneira de falar do taxista que nos abriu a porta do carro na passagem de ano.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.