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Há quem insista que usamos cada vez menos palavras. Aliás, há quem insista que já só usamos 800 palavras. Noutros dias, atiram com outro valor: 500 palavras! 100 palavras! Quem dá menos?

São estes ou outros números quaisquer, inventados na hora. Quem assim fala nunca se dá ao trabalho de contar, bem a sério, as palavras que usamos. Compreendo: o trabalho não é fácil — mas, na verdade, os linguistas que se atrevem a contar encontram sempre larguíssimos milhares de termos no vocabulário de todas as gerações.

Pois não há-de ser assim? Se até o meu filho de 3 anos tem hoje bem mais que as 100 palavras que muitos dizem ser o vocabulário dos Portugueses? Não é que o meu filho seja um génio: fala como os colegas — e fala que se desunha. Os que para aí se queixam do vocabulário diminuto dos Portugueses é que não sabem escapar aos lugares-comuns da língua.

Vá, não andem por aí a insultar o vocabulário dos Portugueses. Sim, não andamos a usar milhares de palavras diferentes em todas as conversas: somos mais inteligentes do que isso — mas quando é preciso, temos milhares de palavras ao nosso dispor.

(Por outro lado, sim, o vocabulário de quem lê muito e está atento será bem maior do que o vocabulário de quem não lê nada. Mas sempre assim foi: nunca houve uma época em que os Portugueses falavam todos da mesma maneira, com um vocabulário gigantesco e comum a todos, escribas e camponeses. Aliás, é bem provável que a população portuguesa, no seu conjunto, tenha hoje um vocabulário mais rico e unificado do que antes, por via da escola, da televisão, dos contactos sociais… Mas como isso contraria uma certa ingenuidade, há quem tape os olhos e continue a acreditar num passado de Portugueses bem-falantes e de dicionário na ponta da língua.)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.