HÁ POR AÍ UMA CERTA narrativa catastrofista que afirma ser o nosso sistema de ensino um buraco negro, muito pior do que antigamente. Alguns vão mais longe e culpam os professores por este estado de coisas. Pelos vistos, os professores portugueses das últimas décadas pegaram numa população altamente qualificada e transformaram-na num mar de gente sem qualquer valor.

Sim, estamos muito atrás de outros: mas não será porque, nas últimas décadas, tivemos de correr imenso só para chegar à cauda do pelotão? Se calhar o problema está, também, no tal antigamente.

Avaliar o sistema de ensino e os profissionais que nele trabalham não se pode ficar pela comparação com sistemas bem melhores: tem de incluir a resposta à pergunta “melhorámos ou piorámos?” E esta pergunta tem de ser feita em relação à população portuguesa no seu conjunto e não à população que, em determinado período, tinha acesso à escola.

Imaginem dois países:

  1. O sistema de ensino do primeiro país recebe apenas alguns alunos e dá-lhes a melhor educação possível. O resto dos alunos (uma larga maioria) fica-se por poucos anos de educação muito básica.
  2. O sistema de ensino do segundo país tenta dar a melhor educação possível ao maior número possível de alunos.

Se analisarmos apenas os alunos que terminam todo o percurso escolar, os resultados médios do primeiro país tenderão a ser melhores do que os resultados dos alunos do segundo país. (Já em termos absolutos, até pode acontecer que tenhamos mais bons alunos no segundo caso do que no primeiro, porque o número de alunos que entra na escola é muito superior.)

 

PORTUGAL DEIXOU de ter um sistema parecido com o do primeiro país e aproximou-se de um sistema mais próximo do segundo caso.

Este caminho foi (e é) difícil e pesado, envolve custos imensos, o trabalho de muitos professores e muita inércia.

O que quero dizer com inércia? Isto: um país que tente a dar educação a todos depois de a ter limitado a alguns tem de lidar, durante as primeiras gerações, com o lastro dos pais e avós pouco preparados para ajudar os filhos e netos na escola. Muitos têm muita boa vontade e insistem em ajudar os filhos o melhor que podem; outros resistem activamente à escola, não vendo utilidade num ensino que nunca tiveram.

Apesar disso, com todas as contrariedades e experimentalismos nocivos, com todos os avanços e recuos e todo o peso vindo de trás, Portugal diminui o analfabetismo para valores residuais, pôs quase todos os jovens a passar pela escola e melhorou as taxas de literacia funcional da população. A educação dos jovens portugueses no seu conjunto melhorou de forma visível.

Nada disto justifica que não se faça tudo o que for possível para melhorar o sistema. Podemos facilmente imaginar um país em que a educação é aberta a todos e, mesmo assim, bem melhor do que a nossa. Podemos imaginar um país onde a percentagem da população que terminou o secundário não é 35%, como em Portugal, mas antes a média de 75%, registada nos países da OCDE.

 

VEM ISTO A PROPÓSITO de alguns comentários sobre a prova feita aos candidatos a professores contratados. Houve quem visse nos resultados da prova (que tinha algumas perguntas ambíguas) mais um sintoma do buraco negro que é o nosso sistema. Ora, a prova apenas testou alguns candidatos a professor; não testou os professores e muito menos os resultados do sistema de ensino. Afirmar que os professores são incompetentes com base nos resultados negativos de alguns candidatos parece-me ser uma generalização muito abusiva.

Se os professores das últimas décadas fossem tão incompetentes como alguns dizem, seria difícil explicar como conseguimos indicadores de literacia progressivamente melhores do que os das gerações anteriores.

O nosso sistema de ensino pode não ser o sistema que queremos, mas não é o sistema que já tivemos — felizmente! — e muito do que conseguimos foi graças ao suor dos professores que andaram a ensinar por esse país fora, durante estas últimas décadas.