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Os terroristas são uns cobardes (e Abraão também não era melhor)

Rembrandt_Abraham_en_Isaac,_1634

Dos tempos de catequese, lembro-me de muitas histórias engraçadas. Também me lembro de uma história que me horrorizou.

Sim, a Bíblia está cheia de histórias de terror, mas os catequistas fazem alguma filtragem e apresentam uma visão humana da religião — o que se agradece: para fundamentalismos já basta o que basta.

Por algum motivo, essa filtragem não elimina esta história de que vos estou a falar. Não faço ideia porquê. Estou a falar da história de como Deus mandou Abraão sacrificar o seu filho só para ver se ele obedecia.

Quando ouvi isto pela primeira vez, fiquei de boca aberta. Mas o que me deixou muito, mas mesmo muito confuso foi o facto de Abraão ter dito que sim.

Enfim, estamos a falar de tempos bárbaros, muito mais violentos do que os nossos, em que a moral era mais animalesca e se Deus dizia alguma coisa, tínhamos de obedecer.

O que não compreendo é a razão por que esta história continua a ser contada às crianças. No fundo, a história diz às criancinhas que, se Deus mandar o pai delas pegar numa faca e esfaqueá-las, é isso que ele deve fazer.

Bem, Deus lá impediu Abraão de ser um homicida. Talvez Deus estivesse, de facto, a testar o profeta — e Abraão falhou o teste em toda a linha.

A verdade é esta: qualquer pessoa com bom coração, perante um qualquer deus que nos mande matar alguma outra pessoa, deve dizer “não”. E quando estamos a falar do nosso próprio filho…

Muitos de nós, perante uma divindade a dar-nos ordens com voz grossa, teríamos pouca força para dizer “não”. Por isso digo que aceitar ordens destas é um sinal de cobardia — nunca de coragem.

Os vários terroristas deste mundo caem no mesmo erro que Abraão: julgam estar a mostrar coragem, quando na realidade lhes falta força para dizer “não” ao Deus que têm na cabeça. Não sei se concordam, mas, para mim, quem manda matar um filho merece um manguito e nunca promessas de submissão. Até podemos levar com um raio em cima logo a seguir. Paciência.

Já agora, alguém avise os terroristas disto: depois de chacinarem inocentes, não vão ter virgens à espera deles. Além disso, se tiverem coragem de dizer “não” às ordens absurdas de Deus, não vai acontecer nada de mais. E sempre mostram alguma coragem.

Imagem: Abrãao e Isaac, Rembrandt, 1634

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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2 Comentários

  1. Ana

    Por acaso, a ideia dessa história é precisamente o contrário… É dizer que o sacrifício humano não é aceitável.
    Os judeus têm uma maneira muito engraçada de explicar as coisas através de histórias. Quer a história tenha acontecido exactamente assim ou não não é muito importante. No fundo, o que se pretende com essa história é dizer “nós uma vez achámos que o sacrifício humano fazia sentido mas Deus não gostou da ideia”.
    O que acontecia é que nos povos ali à volta o sacrifício humano era uma “prática comum” e por isso Abraão achou que Deus também lhe pedia para sacrificar o seu filho (tal como os deuses dos outros lhes pediam). O facto de Deus ter impedido esse sacrifício serve para mostrar que não gosta dessas coisas, que a vida humana não é sacrificável.

  2. Marco Neves

    Muito obrigado por essa leitura! Parece-me fazer sentido. O horror que sinto acaba por ser o horror (que julgo saudável) duma mentalidade moderna perante quem obedece cegamente àquilo que julga que Deus quer que faça.

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