Certas Palavras

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Os tradutores e as formas de tratamento

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«Já te posso tratar por “tu”?»

No artigo anterior, falei das formas de tratamento em Portugal. Ora, que profissional sofrerá mais com a complexidade dessas tais formas do que os tradutores?

Vejam só:

  • Comecemos pela tradução de documentos de marketing de empresas espanholas. Só aqui já temos uma carga de trabalhos. Algumas empresas espanholas têm o hábito de tratar os clientes por «tu». Coisa que, em Portugal, é ainda apanágio de certas marcas muito, mas mesmo muito juvenis (Yorn e outras que tais). Imaginem o que seria a TAP a anunciar: «Temos os melhores voos para ti!» Quase que apetece continuar: «Não te preocupes, que isto não cai.» Assim, os tradutores têm de se adaptar aos hábitos portugueses. Ora, como hábitos são coisas que mudam imenso, ficamos às vezes baralhados, a navegar num mar revolto de constante mudança. Não admira que tantos tradutores sejam avessos às mudanças linguísticas: são uma carga de trabalhos, que só atrapalham.
  • Imaginem agora um filme em inglês. Um homem e uma mulher conhecem-se em contexto profissional e tratam-se por «you». Começam a sair à noite e continuam a tratar-se por «you». Discutem, sempre em «you». Vão para a cama e continuam com «you». Separam-se e não deixam de usar «you». Tornam-se inimigos e mantêm o «you». Fazem as pazes e, claro, voltam ao «you», novamente na cama. E na tradução portuguesa? O «you» em cada um destes casos pode ser diferente. Quando mudar de forma de tratamento? Quando saem à noite? Na porta do quarto? E quando se zangam? E não dependerá da região e da classe social?
  • O mesmo se aplica aos livros. As personagens passam por imensas transformações, entre vago conhecimento e forte intimidade, voltando atrás e adiantando-se depois num beijo repentino — e o tradutor lá tem de acompanhar, correndo atrás delas com o pronome correcto.
  • Depois, não podemos usar a palavra «você» — excepto no «você está aqui» dos mapas ou no caso de personagens de certas classes ou em certos contextos. E o «tu», a própria palavra «tu», é quase proibida, mesmo quando nos tratamos com a segunda pessoa: mesmo entre marido e mulher, poucos casos haverá em que dizemos «ó tu!». Para já não falar dos «O senhor arquitecto deseja um chazinho?» ou «A Carla hoje parece-me muito tensa… Quer uma massagem no pescoço?» Ai, o português, o português…

Para terminar, e só para perceberem o pântano que são as formas de tratamento, onde se juntam as águas turvas do que sabemos, do que espera o cliente e dos hábitos da nossa sociedade de senhores doutores, deixem-me contar-vos uma história.

Há uns anos, na empresa onde trabalho, traduzimos para português um documento em inglês que referia várias personalidades portuguesas. Ora, o cliente acabou por nos enviar uma irada reclamação por não termos inserido os títulos correctos atrás do nome do nosso chefe de Estado. Onde estava, no original, «President Cavaco Silva», tinha de ficar, na tradução, «Sua Excelência, o Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva». Deixámos escapar a «Sua Excelência». E também (horror!) o «Prof. Doutor». Nem sequer nos dignámos a pôr «Aníbal».

Nunca mais recuperámos o cliente.

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3 Comentários

  1. Fernanda

    Gostei muito dos seus questionamentos.

    E sobre o exemplo do “you”, eu sempre acreditei que levar em conta a interação entre os personagens, fazer um breve estudo sobre suas personalidades e até mesmo reconhecer o mundo em que eles vivem (uma cidade, uma vila) teríamos como ter uma noção do uso dos pronomes de tratamento, do forma ao informal.

  2. Ana Shuster

    Infelizmente continuo a corrigir muitos textos em que o “you” é traduzido como “você”. E o problema é explicar a esses tradutores, que não entendem, porque razão não o podem fazer!!

    • Marco Neves

      Sim, muitas vezes temos mesmo de dar a volta à frase, mas «você» não convém…

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